agosto 31, 2003

A Cerimónia Do Espelho

Aqui vai o primeiro conto da série Contos Para Esquecer. É do senhor Pedro Almodóvar e conta uma história vampírica no seio da igreja. O texto encontra-se em brasileiro.

A Cerimónia Do Espelho


1

A negra carruagem em que viaja o conde atravessa a noite, escurecendo-a ao passar.
De moto próprio, sem prévia indicação de seu amo, os cavalos se detêm diante da fachada do convento. Negro sobre negro. O brilho de seus olhos e o dos olhos dos cavalos ajuda-o a encontrar a porta do convento. A escuridão nunca foi um problema para o conde M.
Antes de chamar, despede-se da carruagem e dos cavalos. Na carruagem, ele dá um abraço, e nos cavalos, um beijo em seus lábios grossos. Os animais soltam um relincho que atravessa os muros do convento como um raio.
O conde M. vira as costas para a emoção, não quer ver como desaparecem aqueles que até agora foram seus companheiros inseparáveis.
Bate com a mão na porta do convento. E espera por alguns minutos. Abre frei Anselmo, o padre porteiro. É natural que o frade o olhe estranhado e sonolento.
- O que deseja, senhor?
- Desculpe o incômodo, padre, mas venho de muito longe. Não podia prever a hora em que chegaria.
Ao frade não passam despercebidas a nobreza de maneiras nem a aparência do visitante. Repete a pergunta.
- Que posso fazer por vós, senhor?
- Gostaria de falar com o prior.
"Não se deve fazer esperar uma alma desejosa de conselho, pois normalmente sua fortaleza é escassa e necessita de ajuda", frei Anselmo recorda as palavras do prior sobre aqueles que chamam à porta a qualquer hora.
- Tentarei avisar o padre Benito, mas nada posso assegurar.
O conde entra no austero átrio e espera.
Frei Anselmo não demora a voltar. O prior concorda em vê-lo.
O frade o conduz até uma peça tão austera quanto o átrio.
O conde ouviu coisas extraordinárias a respeito do padre Benito. Todos exaltam a crueldade que tem para consigo mesmo e o desprezo pelas próprias necessidades biológicas. Santidade: era a única explicação que encontravam para um caráter tão autodestrutivo.
Se a religião costuma roubar à vida seus aspectos mais gratos, o padre Benito reduzira a dele a um perene exercício cujo limite era a estrita sobrevivência do corpo. Sua vida diária era um desafio às contingências de sua natureza humana.

2

No silêncio das pedras, o conde M. e o padre Benito medem um ao outro do alto de si mesmos.
O rosto enxuto do prior expressa uma vontade de ferro, confiança em si mesmo e desconfiança dos demais. Seus olhos são belos, apesar de sua pretensa dureza; possuem esse véu misterioso e opaco das imagens sagradas. Como essas jóias que mudam de cor conforme a luz, eles podem expressar vulnerabilidade ou o contrário. Só uma coisa é clara: são olhos insatisfeitos, olhos que fitam angustiados o abismo que separa o sonho do real.
A fama do padre chegara aos ouvidos do conde; o padre, ao contrário, desconhece a identidade de seu magnífico visitante. A primeira impressão é boa. Surpreende-o seu misto de luxo e palidez. A figura do conde irradia algo inegavelmente místico.
- Sou o conde M. e venho de muito longe para retirar-me em seu convento.
- Conheceis as normas que regem a vida entre estes muros?
- Silêncio, solidão, fome e recolhimento. Quero retirar-me do mundo e viver só na piedade e contemplação de Deus.
- Permiti-me que insista. Sabeis o que significa renunciar aos prazeres e às comodidades a vós tão fáceis? Não estaríeis momentaneamente enfastiado ou desiludido? Conheço alguns casos.
- Não é o meu. O mundo e seus prazeres não me excitam, há vários anos vivo em sóbria solidão, rodeado de animais. Viajo constantemente, o que significa que não tenho apego a nada nem a ninguém.
O prior sente-se atraído pelo desconhecido. Não diz nada, mas adivinhou-o antes que ele chegasse, sentiu como se um raio o avisasse de sua chegada. M. lê seu pensamento. Não foi um raio, e sim o relincho de seus cavalos, mas não diz nada porque também sabe que o padre gosta de acreditar que possui poderes extraordinários e sente prazer em exibi-los.
Os dois homens dialogam em silêncio. O padre não consegue intuir o que pensa o conde. Sem poder impressioná-lo, anuncia-lhe uma evidência:
- É tarde. Direi a frei Anselmo que o acompanhe até sua cela. Os primeiros meses serão de experiência. Se vossa intenção for sincera, estais em vossa casa. Pouparei-vos das ocupações físicas para que vos dediqueis tão-somente a vosso espírito. Amanhã sairei de viagem. Quando voltar, dir-me-eis se vossos desejos são os mesmos.

3

O padre Benito ausenta-se periodicamente do convento. Ele jamais o admitiria, mas gosta de viajar, interromper a monotonia de sua própria invenção. Nessas viagens desfruta de um status de santo em vida, guia das mais importantes almas do país e prestigioso conselheiro de pessoas eminentes. Sedutor cruel de homens e mulheres em desvario.
Estranhamente, a viagem que se segue à visita do conde é uma viagem infrutífera, tanto para ele como para seus fiéis. O frade está distraído, não consegue tirar o conde da cabeça. E esse pensamento o inquieta. Como autopunição, prolonga a viagem além do previsto e assim mantém sob controle o desejo ardente de voltar ao convento. E na ansiedade encontra certo conforto.
Tal como o prior lhe prometera, o conde foi eximido de todas as tarefas domésticas. Quando o sino chama, reúne-se com seus companheiros no refeitório e na igreja, mas depois não torna a vê-los durante todo o dia. E ninguém ousa perturbá-lo. O padre Benito recomendou-lhes que o esquecessem. Queria que o conde degustasse o pastoso sabor da incomunicação.

4

M. começa a faltar ao refeitório. Chega um momento em que deixa de comparecer. Quase não ingere alimentos. O voto de discrição e a recomendação do prior impedem os colegas de mostrar preocupação por sua saúde. Frei Anselmo teme que essa discrição seja fatal para o conde.

5

Passadas algumas semanas, o prior volta ao convento. Nunca sentiu tanto desejo de voltar. Não vê a hora de perguntar sobre seu hóspede.
Admiração, estupor e inveja resumem a impressão geral. A vida do conde, contam-lhe, transcorre entre a igreja e a cela. Raras vezes passeia pelo jardim e nunca se deteve a admirar o sol, nas poucas ocasiões em que o astro rei se dignou a aparecer. Há semanas que não põe os pés no refeitório e ninguém o surpreendeu na horta, provendo-se de batatas, cebolas ou alface. Os dois monges das celas vizinhas à do conde afirmam tê-lo ouvido levantar-se à noite para ir à igreja. Muitas madrugadas o encontraram em êxtase diante do altar. Não parecia humano, sua figura hierática era sólida como um monumento.
A comunidade reconhece que a conduta do novo hóspede não admite o menor reparo. Entretanto o ambiente é de agitação e nervosismo.
- Como eu supunha - diz o prior.- Por isso tardei tanto em voltar.
O padre Benito gosta de surpreender os frades com frases absurdas, que nem ele mesmo entende.

6

Depois de tentar dominar seus pensamentos, o prior vai até a cela do conde, perturbado com a falta de curiosidade de seu hóspede. Encontra a porta trancada, mas ele tem a chave que abre todas as portas. E a utiliza, depois de tentar abri-la sem sucesso.
A cela está vazia, e a janela, hermeticamente fechada. Quase não há luz, apenas a que penetra por duas pequenas frestas na madeira da janela.
A cama está intacta. Não há marcas de nenhum corpo. O prior dá meia-volta, mas antes de sair é retido pela voz do conde.
- Como foi a viagem?
O padre vira-se, fulminado. Debaixo da cama aparece o convidado, arrastando-se com agilidade.
- O que está fazendo embaixo da cama?
- Descansando. Prefiro o chão.
O frescor do chão também esfriou seu rosto; impossível adivinhar a menor emoção. O prior é famoso por seu poder mental, mas diante do conde sente-se transparente e nu. Não suporta a sensação. E sai.

7

O conde sabe que, desde que chegou, o prior segue todos os seus passos. Para não levantar suspeitas, abre mão momentaneamente das doses noturnas de capela. E acrescenta um pequeno requinte de simulação; toda as manhãs, antes de clarear, vai até a horta e se abastece de alimentos - dos quais mais tarde se desfaz.
Na sexta noite sente uma necessidade compulsiva de se ajoelhar diante de Deus, na solidão noturna. Antes de ir à capela, certifica-se de que todos estejam dormindo ou recolhidos em suas celas. Sem fazer ruído algum, como se não tocasse o chão e sim o sobrevoasse, o conde percorre os corredores, ouvindo apenas roncos atrás das portas.
Quando chega à cela do padre Benito não escuta roncos, mas chicotadas e gemidos. Permanece imóvel diante da porta e descobre que não há chave na fechadura. O buraco o convida a olhar, talvez deliberadamente. O conde aceita o convite, ajoelha-se e olha. Vê o prior flagelando duramente as costas nuas até manchar o chão de sangue. O espetáculo parece-lhe edificante e sugere novas vias de comunicação entre os dois homens. O conde pensa por um instante e decide, tal como planejara, dar rédea larga à sua piedade em seu recinto natural, a capela.

8

Irrompe na capela e prostra-se diante de um imenso crucifixo que preside um dos altares. Permanece um bom tempo nessa postura, imóvel como um muro, abismado em profunda oração. Depois ergue a cabeça, seus olhos cintilam como o rescaldo de uma fogueira apagada.
Ele não está só na capela. O padre Benito o seguiu e observa a cena, absorto, na escuridão.
O conde aproxima-se do crucifixo de tamanho sobrenatural. O Cristo começa a verter sangue por todas as chagas. Primeiro os pés, depois o peito e as mãos, a comissura dos lábios, as têmporas. O conde busca todas as fontes com boca frenética. Nem uma só gota de sangue se desperdiça no chão. O padre Benito contempla o milagre embevecido. Diante de seus olhos revela-se o mistério da Sagrada Comunhão em toda sua magnitude.
Depois de lamber cada centímetro da imagem de madeira, a figura do conde se reduz à de um pássaro negro (uma andorinha, pensa o prior). Se estivesse mais perto, teria percebido que se trata de um morcego.
O pássaro pousa sobre a cabeça de Cristo e com grande aplicação lambisca o sangue que ainda impregna a coroa de espinhos. Em seguida volta à silhueta humana e prostra-se ante a imagem da cruz, petrificado de devoção.
A mesma intensa devoção apodera-se do padre Benito, mas não é Cristo quem a provoca, e sim a pessoa do conde, cujos lábios ainda conservam restos do sangue divino. O conde leva a mão à boca como se algo a queimasse. Acaba de perceber a presença do monge e seu febril desejo de lamber-lhe os lábios ensanguentados. É a descoberta do desejo do padre que lhe queima a boca.
O padre Benito sabe-se descoberto. O desprezo que encontra nos olhos do conde dói-lhe muito mais que as chicotadas.

9

Abandona a capela e passa o resto da noite tremendo de confusão. Imerso em um estado de grande agitação, o padre Benito passa o dia inteiro trancado em sua cela. Não abre para ninguém. Em um arranco obsessivo e infantil, promete a si mesmo que só abrirá a porta se for o conde quem chamar.
No dia seguinte, frei Anselmo insiste tanto que o prior não tem outro remédio senão abrir. O discípulo traz comida e remédios caseiros contra resfriado. O convento inteiro ouviu-o tossir durante a noite. O padre recusa tudo e pergunta-lhe há quanto tempo ninguém vê o conde comer.
- Mais de um mês, se não me engano.
- Se ele pode, eu também hei de poder.
O padre Anselmo protesta suavemente. O prior o recrimina:
- Deverias ser mais discreto e indiferente.
- Estou preocupado com sua saúde, senhor.
- Se o que queres é preocupar-te, deverias ter criado uma família, não recolher-te em um convento.

10

Duas semanas depois, frei Anselmo chama à porta do conde. O prior está doente e deseja vê-lo. O conde não deu por falta dele, pois pensou que estivesse em uma de suas viagens e, a bem da verdade, porque nem chegou a pensar nele.
A cela do prior é uma tosca réplica daquela do conde. O padre não apenas dorme no chão, embaixo da cama; o criado-mudo, o exíguo armário e um crucifixo ocupam o mesmo lugar que na cela do outro.
Uma vez a sós, o diálogo é fulminante.
- O que está havendo, padre Benito?
- As forças me abandonam.
- Experimente comer.
- Comerei o que o senhor comer.
- E desde quando sou eu o modelo?
- "A alma em solidão, sem um mestre virtuoso, é como um carvão aceso que se encontra só. Antes se irá apagando que acendendo." Ensinai-me a comungar!
-O jejum vos faz delirar.
- E a vós, mentir. Desde que me mostrastes a autêntica comunhão, a outra não me serve.
- Insisto em que vossa cabeça não funciona.
- E eu insisto em que, se não revelardes vosso segredo, não podereis ficar nem mais um minuto neste convento.
- De acordo.
- Não me deixeis, senhor conde!
- Mas, afinal, como ficamos?
- Imploro-vos!
- Está bem. Sossegai e ouvi bem a história que vos contarei.

11

Minha história. Sou um vampiro. A literatura e o tédio têm criado muitas lendas sobre os indivíduos de minha espécie. Isso não é uma justificativa, muito menos uma reivindicação. Não tenho interesse em vampirizar ninguém. Sou como vós, os místicos, gosto de andar só e do meu jeito.
Mas nem sempre foi assim. Eu também atravessei longos períodos de confusão.
Nós vampiros somos seres peculiares, sem dúvida. Gozamos de menos vantagens do que se costuma acreditar e menos inconvenientes do que nós mesmos acreditamos. Malditos preconceitos e temores! Mas é verdade que temos uma grande limitação: a ausência de reflexo nos Espelhos.
Não há solidão maior que a de não se sentir acompanhado pela própria imagem. O testemunho dos outros não basta, nem mesmo o dos seres queridos. Não podendo contemplar meu próprio rosto, cheguei a pensar que carecia de um. Tinha certeza de que, se Deus existia, pertencia à família dos Espelhos e, por alguma razão que me escapava, gostava de negar nossa existência.
O intenso proselitismo de meus congêneres é mais por sede de vingança que por sede de sangue, deve-se mais à raiva do que à necessidade de saciar nosso apetite. Cada nova vítima que se curva sob nossos dentes pressupõe uma vitória contra o Deus-Espelho, mais uma imagem que lhe furtamos para sempre.
Como em um prolongamento do nosso ódio ao Espelho, também odiávamos o sinal da cruz. Um preconceito irracional que os vampiros ainda não superaram. Identificamos a cruz com Deus, quando não tem nada que ver. Eu nunca vi Deus; ao passo que a cruz pode ser vista em qualquer altar.
Como já disse, em minha existência de vampiro passei por grandes crises. Como todo mundo, reneguei a minha natureza e, como todo mundo, atentei contra ela. Não suportava o constante torpor em que vivia e já não encontrava divertimento nas orgias. Mas o sangue continuava sendo vital para mim. Pode soar ridículo, mas durante algum tempo fui um vampiro niilista. Saía de casa quando não tinha outro remédio. Substituí as gargantas humanas por outras fontes de sangue animal, ainda que mais impuras: galinhas, coelhos, cães. Até meus próprios cavalos.
Foi um de meus cavalos que de repente me mostrou o caminho. Na época eu passava as noites lendo em meu ataúde, à luz de meus olhos. Estava interessado no budismo e no misticismo cristão, lia tudo o que me chegava às mãos sobre esses dois temas e estava convencido de que, se quisesse pôr um fim àquela depressão, teria de me arriscar.
Comecei visitando pequenas igrejas de interesse artístico. Meu olhar é profundo. Sem atrever-me a entrar, podia vasculhar o interior das igrejas à distância. Tentava vencer a indecisão, como uma criança prestes a saltar de um trampolim pela primeira vez.
Ocorreu em uma dessas excursões. Eu descansava na relva sob o luar, perto da igreja do Salvador do Mundo, nos arredores de um povoado de La Mancha. Surpreendeu-me que estivesse aberta e não dei crédito a meus olhos quando vi que meu cavalo circulava mansamente por seu interior, considerando que o animal também é vampiro. Eu mesmo o mordi.
Chegara a hora de tomar impulso e saltar.
E assim fiz. Entrei.
A igreja estava vazia. O altar-mor era dominado pela imagem do Salvador do Mundo. Uma cruz tão imensa quanto minha curiosidade dominava o espaço a ela consagrado. Aproximei-me do altar, sem tirar os olhos de Cristo. Ajoelhei-me diante dele. Não fui tragado pela terra, nem os céus se estilhaçaram mostrando-me seu conteúdo, nem um raio fulminante converteu-me em breve fogueira. A noite seguia seu curso, tranquila. Era a primeira vez que eu via essa imagem, e sua mera visão proporcionava-me uma paz nova e total.
De repente ocorreu algo extraordinário. Por cada uma de suas chagas, dos pés, dos joelhos, do peito, da boca, da palma das mãos, das têmporas etc., o Cristo começou a verter sangue. Por menor que fosse a ferida pintada na imagem de madeira, convertia-se em súbita e incontida fonte de vida. Eu contemplava o milagre atônito e paralisado. Foi então que ouvi sua voz me dizer: "Eu sou a única fonte de vida. Quem bebe de meu sangue não mais necessitará de outro alimento".
Ele não necessitou de mais palavras. Nem eu. Aproximei-me do crucifixo e bebi o líquido que durante um bom tempo escorreu de cada uma de suas feridas. Enxuguei com meus lábios a poça de sangue que se formara no chão. E voei como um avião no dia em que foi inventado.
Voltei ao castelo, ansioso por transmitir a meus companheiros a maravilha que acabara de descobrir. Mas nenhum deles acreditou em mim. Ao contrário, assim que terminei meu relato, olharam-me aterrorizados. De nada adiantou minha disposição de fazer uma demonstração in situ. Negavam-se a mudar. A rotina proporcionava-lhes segurança, e pensavam que minha abstinência me levara à loucura.
Abandonei o castelo, com tudo o que havia dentro. Viajei por diferentes partes da Espanha. Conheci uma de vossas discípulas, que me mostrou cartas vossas, com cujo conteúdo identifiquei-me "ipso facto". Vim aqui com o propósito que já conheceis. Se até agora não revelei nada, não foi por mesquinhez. A rejeição dos vampiros mostrou-me que as soluções individuais não salvam os outros. E o vampirismo é um caminho sem volta, que não aconselho a ninguém.
O padre Benito pronuncia duas palavras apenas:
- Fazei-me vampiro.
Ante a firmeza sem fissuras do prior, o conde M. exagera os inconvenientes de sua espécie. Insiste na dor da visão incompleta de si mesmo e na opacidade dos espelhos. O prior considera-o um preço ínfimo, se comparado àquilo que receberá em troca.
Conhecendo a temeridade do padre, o conde não tem outra alternativa senão providenciar o necessário para a nova ordenação.
O padre Benito sente-se fascinado e ansioso como uma noiva. E o conde já não acha a idéia de vampirizá-lo assim tão má. Começa a agradar-lhe deixar de ser o único.
Abordam a questão da eternidade e da morte. M. confia-lhe que, caso deseje abandonar o mundo, bastará fincar uma estaca no próprio coração.
O prior não quer nem ouvir falar no assunto.
- Não invejo a felicidade dos santos na outra vida.
- Tem razão. O vampirismo já é outra vida.
Concorde com a sua magnitude, a cerimônia será simples e íntima. Na noite anterior, alguém pensou ver um grande espelho voador nas imediações do povoado vizinho ao convento. Uma senhora denuncia seu desaparecimento. Contudo, por mais que a interroguem, ela não sabe dizer como isso aconteceu. Só o prior e o conde conhecem a verdade. Transformado em morcego, o conde subtraiu o espelho do dormitório da casa e o levou voando até convento.
Instalam o enorme espelho junto ao altar do Cristo sobrenatural e eternamente agonizante. Não falta mais nada. Tudo está pronto. M. oficia a ordenação com delicadeza.
- Olhe bem para seu rosto, com muito vagar. O nariz, os olhos, os lábios, as faces, as sobrancelhas, o queixo, o cabelo, as orelhas. Abra a boca e olhe dentro. Não se esqueça da língua... mostre-a e olhe bem para ela, pois nunca mais a verá... Tire a roupa, sem pressa, peça por peça. E contemple bem cada um de seus membros no espelho. Deleite-se.
O prior obedece ao compasso das palavras do conde, até ficar totalmente nu.
Por pudor, não recorda ter visto seu corpo nu desde criança. Sente uma inesperada nostalgia. Acaricia as próprias pernas, o peito, os ombros, os braços, o sexo...
- Gosto de meu corpo.
- Ainda está em tempo de voltar atrás.
- Há muito tempo não estou em tempo.
O prior ainda se deleita por alguns instantes. Adota diferentes posturas para contemplar seu corpo de diferentes ângulos.
- Estou pronto - anuncia ao conde.
M. aproxima-se dele e o abraça. No espelho, o padre continua vendo a própria imagem solitária. Seus músculos estão tensos e seus braços rodeiam o tronco do vampiro, embora o espelho não o reflita. O padre entrega-se ao conde sem perder de vista o próprio rosto. Inclina-o para trás, em um gesto de arroubo. Nesse instante os dentes do conde perfuram-lhe o pescoço. O corpo do padre desaparece do espelho e desaba no chão.
O vampiro precipita-se sobre ele e drena suas artérias com feroz frenesi.
Exaustos, permanecem um sobre o outro, como se acabassem de fornicar selvagemente.
Quando o padre volta a si, fita o crucifixo do altar.
O conde ajuda-o a se levantar. Das feridas do Cristo começa a brotar sangue em abundância. O par atira-se contra a imagem de madeira e suga com avidez o alimento que se derrama de graça.
Findo o banquete, transformam-se em morcegos, que, voando, abandonam a capela e se perdem na escuridão sem mistério da noite.
O vôo noturno e nupcial, bem como o ritual diante do espelho, acabam transformando-se na nova forma de ingresso na congregação místico-vampírica que nasce da união do padre Benito com o conde M.
Procuram esquecer o mundo, e que o mundo os esqueça. As sucessivas gerações de camponeses que habitam o povoado vizinho estranham a insólita sobrevivência daqueles monges. Mas a superstição e o medo são muralhas inexpugnáveis, muito mais sólidas do que a curiosidade daquela gente.


FIM


Pedro Almodóvar
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Este texto foi escrito originalmente em 1975. Tradução de Sérgio Molina.

Publicado por Conde em agosto 31, 2003 04:22 PM
Comentários

Saudações... poxa curtí pra caramba seu blog, muito legal mesmo! Qdo puder visite o meu e deixe um comentário lá :)
www.thegothicgirl.zip.net
Beijuss

Afixado por: Gothic Girl em março 16, 2004 02:46 AM

Adorei seu blog, muito profundo, faz a gente pensar.

Afixado por: melancoBIA em outubro 6, 2004 12:40 PM