setembro 03, 2003

A Viúva Ester

Este é o segundo conto da série Contos Para Esquecer. É de um escritor um tanto desconhecido, de seu nome António Bahaona da Fonseca.

A Viúva Ester

A viúva Ester é extremamente meticulosa - arruma os garfos nas gavetas, fala sozinha muito lenta de mãos postas, olhando de soslaio a janela do quarto. A viúva Ester é mulher antiga, rata de erva a quem bateram com uma cana e enxotaram para a cave. A viuvez, sabem os senhores, é, além de um estado oficial, uma posição na vida, a maior das solidões quando não se amou. Ester odiara os amantes que logo após a morte do marido abandonara. A letra de Ester era viúva antes deste acontecimento que enlutou ambas as famílias.
Digamos: a letra, a caligrafia das pessoas está morta quando não se ama. Escreve-se mal, não se cortam os tês, etc. Mas antes de continuar, advirto os senhores de que nunca estudei grafologia, nem conheci a viúva Ester, nem sei nada acerca da viuvez, da morte, nem sequer do amor. Faço perguntas, sondo, alinho palavras umas a seguir às outras, em suma - sou gratuito.
Gratuito, sim. Escrever é uma coisa fulgurante, seja a falar do que for. A viúva Ester vivia na infância, cultivava rosas, regava o seu sexo onde havia grande profusão delas, e, no entanto, nunca lhe ocorreu montar um negócio de flores. Seria bastante rendoso, disseram-lhe um dia - e evitaria assim estar apenas sujeita à reforma deixada pelo marido, que agora fora reduzida a metade. As leis, resmungava assiduamente a viúva Ester, só servem para isto: tirar dinheiro a quem precisa. Posto que prosseguia com o mesmo tradicional cuidado de arrumar os garfos nas gavetas forradas de papel claro. Certo dia ouviu dizer: “Os gatos pretos dão azar”. Meditou noites e noites neste aforismo popular sem conseguir encontrar-lhe um sentido. Estava quase a desistir quando adormeceu e sonhou dois dias a fio. Viu no sonho um gato preto a sair de uma casa alta que tinha no topo um homem de casaco brilhante e laço de longas pontas caídas. Este homem olhava-a fixamente e de cinco em cinco gritava-lhe (apesar de gritada sua voz encerrava alguma doçura): “Dá-me as rosas que guarda debaixo da saia!” O gato após sair da casa alta pela porta toda chapeada e de atmosera medieval, ficou parado a escrutar o homem enquanto lambia uma roseira desmedida que surgira havia pouco transportada por outro homem (este, negro e mais espadaúdo que o anterior).
“Ester! Ester!” - era uma águia de vidro em luzes esmaltadas e tão cruas, que não pôde sustentar as pupilas por mais de trinta segundos. Entretanto, o gato devorou a rosa e sentiu-se a terra tremer e no chão abriram-se frestas donde emergiam profetas a recitar o Apocalipse. Correu para outra praça e olhou o relógio na torre da igreja. Viu monges e frades e bispos a montarem cavalos selvagens. Os cavalos pulavam desesperadamente, davam coices e mais coices, mas nenhum dos cavaleiros caía. Ester estranhou bastante, como aliás estranhara o que vira anteriormente, mas não se importou e passou adiante.
Agora o gato desaparecera e acordou com a cama desfeita cheia de palavras escritas nos lençóis interiores. Pensou no que sonhara. Não encontrava explicação: os fatos eram desconexos e se nenhuma relação tinham entre si, menos ainda teriam com a incipiente frase que ouvira: “Os gatos pretos dão azar”. Apesar disso, congeminou, não perdi tudo — a desconexão não existe naquilo que sonhei como também no que vivo, no meu dia a dia. E riu-se.
Ester aprendera rapidamente que tão estrangeiro é o sonho como a realidade, e que ambas estas coisas eram igualmente concretas por isso mesmo. Então, modificou toda a sua estrutura habitual de agir. Quem sou eu, a viúva Ester? Que é a viuvez? Quem foram os meus amantes e o falecido marido? Amei? Não amei? Teria odiado? Perguntas às quais respondia de maneiras diversas sabendo de antemão que qualquer que fosse a resposta dada, esta estaria certa. E passava assim o tempo falando para o microfone de um gravador.
Depois, premia o botão, a fita enrolava-se na outra bobina, premia outro botão, e estirava-se a ouvir as frases inventadas, rindo-se com algumas que repetia deliciada. Mandou pregar as janelas por dentro com tábuas de madeira velha, comprou candelabros, mobilou a sala com armários antiquíssimos onde ia amontoando folhas de papel muito branco e bobinas frescas que todos os dias mandava vir dum estabelecimento da rua. Uma manhã ao acordar (Ester não sabia se era manhã) proferiu: Eu, a viúva Ester, morri ontem às quatro horas. Dito o que ligou o gravador para não perder uma palavra do que se seguisse: Eu, a viúva Ester, estou cansada. Não falo com ninguém, mas chegaram até mim vozes de vizinhos que dizem entre si que estou louca. É verdade que fui feliz ao descobrir que não importa encontrar relações exactas entre as coisas - ser irresponsável é muito agradável, e sem o peso da responsabilidade vive-se melhor - mas o facto é que não é bem assim: o reconhecimento disto custou-me a vida, visto que estou defunta desde ontem às quatro horas. Há um equívoco. Não morri, o que é a mesma coisa. Não sei se me estão a entender. Concordo que não é fácil: eu própria já estou a suar de falar tanto, mas é preciso, é justo explicar-lhes que não sei quem sou, nem sei nada apesar de todas as respostas às minhas perguntas estarem certíssimas. Não percebem?

António Bahaona da Fonseca

Publicado por Conde em setembro 3, 2003 10:41 AM
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