janeiro 19, 2004

Tarde De Inverno

"Trago o corpo de minha mulher embrulhado num lençol. É estranho como pesa. Dir-se-ia que a terra o exige com violência. Gostaria de a olhar pela última vez, e no entanto não é fácil. O lençol branco confunde-se com a neve. Assim é como se o corpo se confundisse também. A toda a borda da cova, a neve ficou suja da terra acumulada. Será a fundura bastante? Metro e meio, talvez. De comprimento está bem. Encosto-me ao cabo da enxada e é estranho que não reconheça em mim um sentimento distinto. Cansaço, decerto. E o orgulho. E o medo. Será tudo o mesmo? E a resignação, talvez, ou mesmo a plenitude. Estás velho, como o não sabes? Estás velho. Talvez seja assim a velhice: um esgotamento longo de tudo. E no centro, breve, uma verdade final. Como um objecto precioso que se tira da terra e se limpa - qual a tua verdade final? Mas estou tão cansado. Agora não. Olho a aldeia abandonada, perdida na montanha, ouço o silêncio. E sinto-me aí disperso, irrisado em espaço, íntegro e puro. E nu. Mas quando vou a erguer o corpo, não resisto: subtilmente afasto as dobras do lençol. Então Águeda aparece-me á última luz da tarde de Inverno. Magra, sisuda, indignada com a vida. Pus-lhe o terço nas mãos, um pouco talvez para a reconciliar consigo, para ter um sono mais fácil. Mas a face aqreste de boca cerzida, as mãos quase enclavinhadas fixaram para sempre a imagem do seu desespero."

Vergílio Ferreira

Publicado por Conde em janeiro 19, 2004 10:24 AM
Comentários

Eu morei até há bem pouco tempo numa cidade de seu nome Águeda. Este trecho do Vergílio fez-me sorrir; muitas recordações me trouxe essa alusão benigna de algo que me foi, outrora, maligno...

Eis um devaneio. De orgulho, medo, plenitude. Ou nem tanto.
Whatever.

08-03-2003 - 01:57:07 AM

Derramas o sangue pelo que acreditas, esvaziando a carmim guelra possessa, desnudando as frontes suadas; e em laivos sentidos nunca matas - e nunca tens piedade.

a.morais

Afixado por: Wyrm em janeiro 19, 2004 02:35 PM