"Hoje o dia soube-me mais a mim do que é costume. O seu usual amargor adensou-se e enquanto o vivia não pude deixar de cuspinhar para o chão. E fi-lo frequentemente; nos transportes, na cara do patrão que odeio, à mesa do restaurante que me serve a comida fria e até durante a conversa azeda que mantive com a mulher que não mais amo. Mas à noite, na casa que decorei sem decoro, vi-me de súbito impossibilitado de continuar a expelir o travo fétido de mim pois que as expensas de tanto o fazer durante o dia, e sem que até à altura o tivesse notado, eu era apenas então mil pedaços de saliva esparramados pelas vielas da cidade."
Gonçalo Nuno
In Os Fazedores De Letras nº55