fevereiro 20, 2004

Amargor

"Hoje o dia soube-me mais a mim do que é costume. O seu usual amargor adensou-se e enquanto o vivia não pude deixar de cuspinhar para o chão. E fi-lo frequentemente; nos transportes, na cara do patrão que odeio, à mesa do restaurante que me serve a comida fria e até durante a conversa azeda que mantive com a mulher que não mais amo. Mas à noite, na casa que decorei sem decoro, vi-me de súbito impossibilitado de continuar a expelir o travo fétido de mim pois que as expensas de tanto o fazer durante o dia, e sem que até à altura o tivesse notado, eu era apenas então mil pedaços de saliva esparramados pelas vielas da cidade."

Gonçalo Nuno
In Os Fazedores De Letras nº55

Publicado por Conde em fevereiro 20, 2004 04:37 PM
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