fevereiro 23, 2004

Lua Preversa

Choras num canto... perdida do mundo à tua volta. Lentamente a vida abandona o teu pobre cadáver, fazendo lembrar uma rosa que perde as suas pétalas para o sangue que jaz derramado no chão. As tuas lágrimas são gotas de orvalho que nunca se formaram... porque nunca tiveste fôlego para respirar. A tua perdição espalha-se por toda a natureza à volta. Tudo morre... tudo entristece. Os dias tornam-se cinzentos conforme a tua metamorfose avança... já nem o sol te ousa tocar, porque deixou contemplar beleza em ti. Apenas eu permaneço debaixo desta lua gelada cantando-te maldições para tentar seduzir a palidez sensual da tua pele.

Publicado por Conde em fevereiro 23, 2004 08:22 PM
Comentários

Lindo! Beleza gótica e preversa!

Afixado por: Jane em fevereiro 24, 2004 01:12 PM

bonito. Mas, e desculpe, é perversa.

Afixado por: jpt em fevereiro 27, 2004 11:25 PM

Gosto desta escrita dark, mas isso é repetir-me. Então que mais posso acrescentar ? :). *Abraço*

Afixado por: sibylla em março 1, 2004 04:08 PM

A Lua aparece sob um véu, no alto, branca.Na escadaria do parque biológico, a turma, cheia de entusiasmo, prepara-se para a incursão: será que já se vêem os pirilampos?
"Fiquem lado a lado e não façam barulho", diz a guia, na noite de 21 de Maio. O ar sentia-se lavado pelas chuvas do fim da tarde que perigaram a realização da visita. Os sentidos absorvem o ambiente. A folhagem dos carvalhos é verde, na escuridão tranquila, graças à luz de um iluminador solitário.
A vintena de crianças estaca. A guia aponta e baixinho diz: "Vejam aquele morcego!". Uma silhueta alada risca o ar. Insectos atraídos pela lâmpada são o seu alimento, quando a hibernação que o protegeu do Inverno ficou para trás.

O Parque mostra outra atmosfera. As sombras da noite ocultam os contornos exactos do percurso e um ar fresco realça a sonoridade nocturna. O chão está húmido e algumas folhas colam-se-lhe. Cuidado não vamos calcar alguma salamandra!
Já estamos na parte dos relvados. O primeiro vagalume ilumuna-se, no voo lento. Apaga, desaparece, acende! Que novidade! João, que estagia no parque e acompanha a turma, conta que eles começam a ver-se nesta altura e depois desaparecem no princípio do Verão. Os que vemos a voar são os rapazolas! As fêmeas, mais pesadas, estão pousadas algures e piscam as luzes aos da sua espécie, para se reproduzirem. Passo a passo, a luz amarela da lanterna aponta ali e acolá. Revela algumas plantas aromáticas, como a alfazema e o rosmaninho, o tomilho e a lúcia-lima, o chá-de~príncipe, alguns em flor.
Aqui, ouve-se por momentos o ruído da estrada. O grupo avança, e a ansiedade desarranja a fila, que se recompõe.
Adiante espreita-se o gaiolão dos bufos-reais, os maiores mochos da fauna ibérica. Uma fêmea, cega de um olho está no choco. A miudagem é só msilêncio, não vá perturbar as aves nocturnas. Estas são irrecuperáveis: se fossem libertadas, não sabendo caçar ou não estando aptas físicamente para isso, morreriam.


Quando se retoma o percurso, outro vaga-lume deambula. O professor Jorge - que lecciona Inglês, acompanha os alunos e pernoita com eles no Parque Biológico -, sem alarido, aponta-o perto do engenho-de-buchas. A guia aponta a lanterna para um ninho de madeira aplicado numa árvore, igual aos que a turma tinha construído horas antes. "Se estiver ocupado, estão a dormir!".

À medida que palmilham caminho, alguns petizes já pensam no prazer do chá e da broa que ajudaram a fazer ao fim da tarde. Ideias interrompidas pelo breu do carvalhal: os que mais receiam o escuro juntam-se, não vá o monstro-das-bolachas aparecer a qualquer altura!
A guia pára junto ao recinto de uns animais patuscos, esguios, peludos. Outro sai do buraco de um tronco no chão. «O que é isto?», indagam. «São os toirões», alguém responde.
De resto, a raposa e os gamos estão tranquilos. Barriga cheia, não correar o escuro.
Pouco depois, quando as nuvens desaparecem de vez e o luar desvenda a leveza da noite, o professor aponta os cinco astros alinhados, que nesta data se vêem entre as silhuetas dos pinheiros.

Afixado por: David em dezembro 2, 2004 04:19 AM