setembro 09, 2004

Emanações

"A minha poesia consistirá, só, em atacar, por todos os meios, ao homem, esta besta selvagem, e ao Criador, que não devia ter gerado semelhante criatura. Recebi a vida como uma ferida e não permiti que o suicídio curasse a cicatriz. Descobriram em minha fronte uma gota de esperma, uma gota de sangue. A primeira havia brotado dos espasmos de uma cortesã!... A segunda havia saltado das veias do mártir!... Odiosos estigmas!... Pois bem, escuta... a confissão de um homem que lembra ter vivido meio século, sob a aparência de um tubarão, nas correntes submarinas que varrem as costas da África... Não arrojarei a teus pés a máscara da virtude... teu respeitoso discípulo na perversidade, porém, não como um temível rival.. já que não te disputo a palma do mal, não creio que outro o faça: antes deveria igualar-se a mim, o que não é coisa fácil... a montanha já não está alegre... permanece solitária como um ancião... as casas existem, mas não se poderia dizer o mesmo sobre aqueles que nelas já não existem. As emanações dos cadáveres chegam já até mim. Quisera beijar seus pés, porém meus braços se fecham só sobre o vapor transparente. O fantasma se esquiva de mim: me ajuda a buscar seu próprio corpo. Finjo ignorar que meu olhar pode dar a morte, inclusive aos planetas que giram pelo espaço.. me encontro situado diante do desconhecimento de minha própria imagem... contra o ventre do granito... a pálida via láctea dos eternos pesares. Noite após noite, obrigo aos meus lívidos olhos a olharem as estrelas através dos cristais da minha janela. A eternidade muge como um mar distante."

Conde Lautreamont in Cantos de Maldoror

Publicado por Conde em setembro 9, 2004 10:23 AM
Comentários

Lindo. Não me quero esquecer de passar por aqui.

Afixado por: Ofeliazinha em setembro 10, 2004 02:57 PM