"...agora procuro o desígnio da vida. Ás vezes penso encontrá-lo num bater de asas, num murmúrio trazido pelo vento, no piscar de um néon. Escrevo páginas e páginas a tentar formalizá-lo. Depois queimo tudo e prossigo a minha busca."
Mão Morta
(In "Tu Disseste")
"Eu não sofro de insanidade, aprecio cada minuto dela."
Edgar Allan Poe
O amor por vezes provoca uma agonia interior indescritível... como se o coração inchasse de dor tirando folga à respiração. Estranhos caprichos tem o amor, que por vezes nos inunda de alegria, mas outras nos consome lentamente, parecendo um parasita alimentando-se das defesas egocêntricas que a nossa mente construiu ao longo de anos de desilusões. Se pudesse evitava-o. Mas não consigo. É inútil ignorá-lo, pois a infelicidade será maior. Resta então perder-me no desespero desta tempestade e esperar que apenas seja passageira... e será concerteza, pois o amor tem estranhos caprichos. E como diria Brandon Lee no seu último filme... "It can't rain all the time."....
"A beleza de um corpo nú só a sentem as raças vestidas. O pudor vale sobretudo para a sensualidade como o obstáculo para a energia.
A artificialidade é a maneira de gozar a naturalidade. O que gozei destes campos vastos, gozei-o porque ainda não vivo. Não sente a liberdade quem nunca viveu constrangido.
A civilização é uma educação de natureza. O artificial é o caminho para uma apreciação do natural.
O que é preciso, porém, é que nunca tomemos o artificial por natural.
É na harmonia entre o natural e o artificial que consiste a naturalidade da alma humana superior."
Fernando Pessoa
Este sol que brilha pela minha janela, ilude-me dos meus sentimentos. Engana-me maliciosamente, como um balde de tinta cobre as fendas de uma parede velha. Mesmo a própria parede encontra dificuldade em se revelar a ela própria. Assim me sinto eu com o sol...astro maldito e sedutor, cria miragens em tudo que ilumina. És belo, és acolhedor, mas mentes com quantos raios tens. Se te pudesse amar... talvez entendesse a tua felicidade, mas a minha alma não tolera mais ilusões, além das que eu já vivo. Aguardo... de persianas fechadas pelo esplendoroso escurecer e pela palpitante chegada da minha doce e fiel lua...
Deixem-se mergulhar nas trevas por este poeta de nome Lord Byron, que escreve com toda a temática romântica, niilista e mórbida, característica de Londres do século XIX. Clike em baixo para ler "Trevas".
Trevas
Eu tive um sonho que não era em tudo um sonho
O sol esplêndido extinguira-se, e as estrelas
Vaguejavam escuras pelo espaço eterno,
Sem raios nem roteiro, e a enregelada terra
Girava cega e negrejante no ar sem lua;
Veio e foi-se a manhã - veio e não trouxe o dia;
E os homens esqueceram as paixões, no horror
Dessa desolação; e os corações esfriaram
Numa prece egoísta que implorava luz:
E eles viviam ao redor do fogo; e os tronos,
Os palácios dos reis coroados, as cabanas,
As moradas, enfim, do gênero que fosse,
Em chamas davam luz; cidades consumiam-se
E os homens se juntavam juntos às casas ígneas
Para ainda uma vez olhar o rosto um do outro;
Felizes quanto residiam bem à vista
dos vulcões e de sua tocha montanhosa;
Expectativa apavorada era a do mundo;
queimavam-se as floresta - mas de hora em hora
Tombavam, desfaziam-se - e, estralando, os troncos
Findavam num estrondo - e tudo era negror.
À luz desesperante a fronte dos humanos
Tinha um aspecto não terreno, se espasmódicos
Neles batiam os clarões; alguns, por terra,
Escondiam chorando os olhos,; apoiavam
Outros o queixo às mãos fechadas, e sorriam;
Muitos corriam para cá e para lá,
Alimentando a pira, e a vista levantavam
Com doida inquietação para o trevoso céu
A mortalha de um mundo extinto; e então de novo
Com maldições olhavam a poeira, e uivavam,
Rangendo os dentes; e aves bravas davam gritos
E cheias de terror voejavam junto ao solo,
Batendo asas inúteis; as mais rudes feras
Chegavam mansas e a tremer; rojavam víboras,
E entrelaçavam-se por entre a multidão,
Silvando, mas sem presas - e eram devoradas.
E fartava-se a Guerra que cessara um tempo,
E qualquer refeição comprava-se com sangue;
E cada um sentava-se isolado e torvo,
Empanturrando-se no escuro; o amor findara;
A terra era uma idéia só - e era a de morte
Imediata e inglória; e se cevava o mal
Da fome em todas as entranhas; e morriam
Os homens, insepultos sua carne e ossos;
Os magros pelos magros eram devorados,
Os cães salteavam os seus donos, exceto um,
Que se mantinha fiel a um corpo, e conservava
Em guarda as bestas e aves e os famintos homens,
Até a fome os levar, ou os que caíam mortos
Atraírem seus dentes; ele não comia,
Mas com um gemido comovente e longo, e um grito
Rápido e desolado, e relambendo a mão
Que já não o agradava em paga - ele morreu.
Finou-se a multidão de fome, aos poucos; dois,
Porém, de uma cidade enorme resistiram,
Dois inimigos, que vieram encontrar-se
Junto às brasas agonizantes de um altar
Onde se haviam empilhado coisas santas
Para um uso profano; eles as revolveram
E trêmulos rasparam, com as mão esqueléticas,
As débeis cinzas, e com um débil assoprar
Para viver um nada, ergueram uma chama
Que não passava de um arremedo; então alcançaram
Os olhos quando ela se fez mais viva, e espiaram
O rosto um do outro - ao ver, gritaram e morreram
- Morreram de sua própria e mútua hediondez,
Sem um reconhecer o outro em cuja fronte
Grafara a fome "diabo". O mundo se esvaziara,
O populoso e forte era um informe massa,
Sem estações nem árvore, erva, homem, vida,
Massa informe de morte - um caos de argila dura.
Pararam lagos, rios, oceanos: nada
Mexia em suas profundezas silenciosas;
Sem marujos, no mar as naus apodreciam,
Caindo os mastros aos pedaços; e, ao caírem,
Dormiam nos abismos sem fazer mareta,
Mortas as ondas, e as marés na sepultura,
Que já findara sua lua senhoril.
Os ventos feneceram no ar inerte, e as nuvens
Tiveram fim; a Escuridão não precisava
De seu auxílio - as Trevas eram o Universo.
Lord Byron
Procuro inspiração para escrever algo nesta entrada, mas as ninfas abandoram a minha alma perdida... Com "O Livro do Desassossego" na mão e "As Flores do Mal" na cabeceira, vasculho o meu interior por algo verdadeiro e fiel aos meus sentimentos para escrever. Mas o grande fardo de usar uma máscara transforma tudo em ilusões e falsidades, concedendo-me apenas a oportunidade de abandonar estas quatro paredes e sair pela noite fora, caminhando incessantemente e procurar por mim próprio reflectido em algum espelho ou vidro...
"Ó noite onde as estrelas mentem luz, ó noite, única coisa do tamanho do universo, torna-me, corpo e alma, parte do teu corpo, que eu me perca em ser mera treva e me torne noite também, sem sonhos que sejam estrelas em mim, nem sol esperado que ilumine do futuro."
Fernando Pessoa
(In livro do desassossego)
Título sugestivo... mas será que o estado de embriagez só pode ser provocado por álcool? Descubra a resposta num poema embriagado em deliríos de liberdade da autoria de Charles Baudelaire. Clike em baixo para ler "Embriaga-te".
Embriaga-te
Devemos andar sempre bêbados.
Tudo se resume nisto: é a única solução.
Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar.
Mas com quê?
Com vinho, com poesia ou com a virtude, a teu gosto.
Mas embriaga-te.
E se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que se passou, a tudo o que gemeu, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são:
"São horas de te embriagares!"
Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar!
Com vinho, com poesia, ou com a virtude, a teu gosto.
Charles Baudelaire
"A realidade é só uma ilusão criada pela falta de álcool."
Gabe
As palavras fogem-me. O vazio que sinto por dentro farta a minha alma, como se cheio eu estivesse. Neste chão frio em que me sento, jaz por baixo o teu cadáver adormecido... deitado sobre o odor inaudível da terra húmida. A tua pele branca...os teus lábios sem vida...exaltam o sangue em mim, obrigando-o a fervilhar em todos os músculos do meu corpo...porém estou exausto e não tenho forças nem sequer para abrir os olhos, ficando assim, com a leve impressão de que tudo isto foi real...
"A minha fome tem estranhos caprichos. Muitas das vezes só me aparece depois de comer"
Assim Falava Zaratustra
Nietzsche
Mais um poema... Desta vez com uma temática mais profunda e sombria, o famoso locus horrendus materializado em palavras rebuscadas no fundo duma alma sem descanço...
O cemitério
Da minha janela vê-se um cemitério,
Antigo, da idade dos anos
Abriga mortos de adultérios
Seres perfeitos, ou seres humanos
Passeiam-se na penumbra do entardecer
Multidões de corvos de bico alimentado
Por almas moldadas a um florescer
Que nenhuma mão havia regado
E a lua roça nos túmulos vazios,
Assim como nos galhos de uma árvore escondida
À sua volta o conforto dos terrenos baldios,
Inebria os corpos sem vida
Acaba a visão magnífica com o fechar de persianas
Abertas outrora por infindáveis portos...
Gravando no meu coração das tumbas medianas:
“Não há glorias a alcançar no reino dos mortos”.
Conde 25 / 07 / 01
Para aquelas almas insaciáveis de melodia para acompanhar negros e solitários pensamentos, e também para aqueles que gostam de musica clássica gótica, aqui vai um site que vale a pena visitar, pois disponibiliza uma colecção de midis de musicas clássicas forjadas nas trevas por compositores como Beethoven, Verdi, Chopin, etc.
O que é a melancolia? Será um momento em que buscamos infinitamente a felicidade, sabendo que nunca a iremos alcançar? Será um leve beijo da tristeza? As repostas são muitas... mas só podemos definir através de algo irracional...algo subjectivo, e nada melhor do que este poema de minha autoria, para vos ajudar a compreender...ou talvez deixar-vos ainda mais pensativos. Clikem em baixo para ler o poema "Ilha Remota".
Ilha remota
Em pleno mar espelhado
Embalada por ventos suaves
Uma ilha recorta no espelho salgado
A silhueta do canto de aves,
As nuvens da sua humidade vital,
Que regam os verdes em branco de marfim,
Contemplam-lhe os cabelos sem fim
Ao voar na suave brisa matinal,
Como é perfeita...
Esta paz embrenhada na beleza...
Bebo mais um gole desse sonho lavado em céu azul,
E navego num mar de peixes que eu não sei,
Tamanho paraíso só pode ser no sul
Da alegre alma que não encontrei.
Conde 25 / 07/ 01
Charles Baudelaire, o autor de "As Flores do Mal", uma obra que reúne quase todos os poemas escritos por este senhor da poesia francesa. A sua popularidade em frança é equivalente à de Fernando Pessoa em portugal. Hoje exponho aqui o poema "O Gato".
O Gato
I
Por meu cérebro vai passeando,
Tal como em seu apartamento,
Um gato de todo encantamento,
e de inaudito miado brando,
Tanto o seu timbre é o mais discreto;
Mas, se é a voz calma ou iracunda,
Ela sempre é rica e profunda:
Este é o seu encanto secreto.
E a sua voz em mim infiltro,
No meu fundo mais tenebroso,
Doce qual verso numeroso
Consoladora como um filtro,
Abranda o mal que na alma lavra,
Contendo os êxtases e as pazes;
Para dizer as longas frases
Nunca precisou da palavra.
Certo não há arco que fira
Meu coração, este excelente
Órgão e o faça nobremente
Cantar só como canta a lira,
Como esta voz, ó misterioso,
Gato seráfico e esquisito
Em que tudo é, como num rito,
Tanto sutil quanto harmonioso!
II
Destas lãs louras e morenas
Sai um olor doce de pelos,
Que me perfumei só por tê-los
Afagados uma vez apenas.
É como os manes da morada;
Preside no seu magistério
Todas as coisas deste império:
Seria talvez Deus ou fada?
Quando o olhar para este gato a esmo,
Como por um ímã atraído,
Se dirige, e tão sucumbido,
E que eu olho para mim mesmo,
Eu vejo com olhar demente
A luz destas pupilas ralas,
Claras fanais, vivas opalas,
Que me contemplam fixamente.
Charles Baudelaire
(Tradução Jamil Almansur Haddad)
Assim Falava Zaratustra, uma obra de referência para qualquer intelectual, uma bíblia para qualquer ateu. Escrita por Friedrich Nietzsche, o homem que chocou e abalou a sociedade cristã do século XIX. Clike em baixo para ler um capítulo do livro, entitulado "Ler e Escrever".
Assim Falava Zaratustra
Ler e Escrever
De quanto se escreve, só amo alguém que escreve com o seu sangue. Escreve com sangue , e descobrirás que o sangue é espírito.
Não é nada fácil compreender o sangue alheio; eu detesto todos os que lêm como ociosos.
Quando se conhece o leitor, já nada se faz pelo leitor. Mais um século de leitores, e o próprio espírito será um fedor.
Que toda a gente tenha o direito de aprender a ler, eis o que com a continuação vos aborrece não somente de escrever mas de pensar.
Outrora o espírito era Deus, depois fez-se homem, agora transforma-se na populaça.
O que escreve com o seu sangue e em máximas, não quer ser lido, mas decorado.
Nas montanhas, o caminho mais curto vai de cimo a cimo; mas para isso é preciso ter pernas altas. As máximas devem ser cumieiras, e aqueles a quem as destinas devem ser esbeltos e altos.
O ar leve e puro, o perigo próximo e o espírito pleno de alegre malícia, tudo isto se harmoniza maravilhosamente.
Gosto de me ver rodeado por duendes maliciosos, porque sou corajoso. A coragem afugenta os fantasmas, mas cria os seus próprios duendes. A coragem gosta de rir.
Sinto todas as coisas diferentemente de vós; a nuvem que distingo abaixo de mim, escura e carregada, e de que me rio - é para vós uma nuvem tempestuosa.
Vós olhais para cima, porque aspirais a elevar-vos. E eu, como estou no cimo, olho para baixo.
Qual de vós sabe ainda rir?, mesmo depois de ter atingido o cimo?
O que escala os mais elevados montes ri-se das cenas trágicas do palco como da gravidade trágica da vida.
Corajosos, despreocupados, zombeteiros, imperiosos, assim nos quer a sabedoria; é mulher e só pode amar guerreiros.
Vós me dizeis: "A vida é um fardo pesado." Mas para que vos servem o vosso orgulho matinal e a vossa resignação da tarde?
A vida é um fardo pesado? Não vos mostreis tão contristados! Não passamos todos de uns bons burrinhos e burrinhas de carga.
Que temos de comum com o botão de rosa que verga sob o peso de uma gota de orvalho?
É verdade que se amamos a vida, é por estarmos mais habituados a amar do que a viver.
Há sempre o seu quê de loucura no amor. Mas há sempre o seu quê de razão na loucura.
E quanto a mim, que gosto da vida, parece-me que aqueles que melhor se entendem com a felicidade, são as borboletas e as bolas de sabão, e tudo o que entre os homens se lhes assemelhe.
Ver revolutear essas alminhas aladas e loucas, graciosas e movediças, é o que arranca a Zaratustra vontade de chorar e de cantar.
Eu só acreditaria num Deus que soubesse dançar.
E quando vi o meu Diabo, achei-o grave, meticuloso, profundo, solene; era o espírito de Gravidade. É ele que faz cair todas as coisas.
Não é a cólera, é o riso que mata. Adiante! matemos o espírito de Gravidade!
Eu aprendi a andar: desde então deixei de esperar que me empurrassem para mudar de sítio.
Vede como me sinto leve; vede, estou a voar; vede, agora vejo-me do alto, como um pássaro; vede, um Deus dança em mim.
Assim Falava Zaratustra...
Friedrich Nietzsche
Bem-vindos à primeira entrada deste blog sobre literatura e poesia gótica! Durante os próximos meses e anos que decorrerão este blog irá tranformar-se num...
Bem-vindos à primeira entrada deste blog sobre literatura e poesia gótica! Durante os próximos meses e anos que decorrerão este blog irá tranformar-se num importante instrumento de pesquisa sobre o gótico na literatura, na poesia e outras artes. Tentarei manter com todo o meu esforço esta futura biblioteca de alexandria diáriamente actualizada. E espero que seja do vosso agrado as eternas palavras que aqui serão proferidas... Obrigado!