agosto 31, 2003

A Cerimónia Do Espelho

Aqui vai o primeiro conto da série Contos Para Esquecer. É do senhor Pedro Almodóvar e conta uma história vampírica no seio da igreja. O texto encontra-se em brasileiro.

A Cerimónia Do Espelho


1

A negra carruagem em que viaja o conde atravessa a noite, escurecendo-a ao passar.
De moto próprio, sem prévia indicação de seu amo, os cavalos se detêm diante da fachada do convento. Negro sobre negro. O brilho de seus olhos e o dos olhos dos cavalos ajuda-o a encontrar a porta do convento. A escuridão nunca foi um problema para o conde M.
Antes de chamar, despede-se da carruagem e dos cavalos. Na carruagem, ele dá um abraço, e nos cavalos, um beijo em seus lábios grossos. Os animais soltam um relincho que atravessa os muros do convento como um raio.
O conde M. vira as costas para a emoção, não quer ver como desaparecem aqueles que até agora foram seus companheiros inseparáveis.
Bate com a mão na porta do convento. E espera por alguns minutos. Abre frei Anselmo, o padre porteiro. É natural que o frade o olhe estranhado e sonolento.
- O que deseja, senhor?
- Desculpe o incômodo, padre, mas venho de muito longe. Não podia prever a hora em que chegaria.
Ao frade não passam despercebidas a nobreza de maneiras nem a aparência do visitante. Repete a pergunta.
- Que posso fazer por vós, senhor?
- Gostaria de falar com o prior.
"Não se deve fazer esperar uma alma desejosa de conselho, pois normalmente sua fortaleza é escassa e necessita de ajuda", frei Anselmo recorda as palavras do prior sobre aqueles que chamam à porta a qualquer hora.
- Tentarei avisar o padre Benito, mas nada posso assegurar.
O conde entra no austero átrio e espera.
Frei Anselmo não demora a voltar. O prior concorda em vê-lo.
O frade o conduz até uma peça tão austera quanto o átrio.
O conde ouviu coisas extraordinárias a respeito do padre Benito. Todos exaltam a crueldade que tem para consigo mesmo e o desprezo pelas próprias necessidades biológicas. Santidade: era a única explicação que encontravam para um caráter tão autodestrutivo.
Se a religião costuma roubar à vida seus aspectos mais gratos, o padre Benito reduzira a dele a um perene exercício cujo limite era a estrita sobrevivência do corpo. Sua vida diária era um desafio às contingências de sua natureza humana.

2

No silêncio das pedras, o conde M. e o padre Benito medem um ao outro do alto de si mesmos.
O rosto enxuto do prior expressa uma vontade de ferro, confiança em si mesmo e desconfiança dos demais. Seus olhos são belos, apesar de sua pretensa dureza; possuem esse véu misterioso e opaco das imagens sagradas. Como essas jóias que mudam de cor conforme a luz, eles podem expressar vulnerabilidade ou o contrário. Só uma coisa é clara: são olhos insatisfeitos, olhos que fitam angustiados o abismo que separa o sonho do real.
A fama do padre chegara aos ouvidos do conde; o padre, ao contrário, desconhece a identidade de seu magnífico visitante. A primeira impressão é boa. Surpreende-o seu misto de luxo e palidez. A figura do conde irradia algo inegavelmente místico.
- Sou o conde M. e venho de muito longe para retirar-me em seu convento.
- Conheceis as normas que regem a vida entre estes muros?
- Silêncio, solidão, fome e recolhimento. Quero retirar-me do mundo e viver só na piedade e contemplação de Deus.
- Permiti-me que insista. Sabeis o que significa renunciar aos prazeres e às comodidades a vós tão fáceis? Não estaríeis momentaneamente enfastiado ou desiludido? Conheço alguns casos.
- Não é o meu. O mundo e seus prazeres não me excitam, há vários anos vivo em sóbria solidão, rodeado de animais. Viajo constantemente, o que significa que não tenho apego a nada nem a ninguém.
O prior sente-se atraído pelo desconhecido. Não diz nada, mas adivinhou-o antes que ele chegasse, sentiu como se um raio o avisasse de sua chegada. M. lê seu pensamento. Não foi um raio, e sim o relincho de seus cavalos, mas não diz nada porque também sabe que o padre gosta de acreditar que possui poderes extraordinários e sente prazer em exibi-los.
Os dois homens dialogam em silêncio. O padre não consegue intuir o que pensa o conde. Sem poder impressioná-lo, anuncia-lhe uma evidência:
- É tarde. Direi a frei Anselmo que o acompanhe até sua cela. Os primeiros meses serão de experiência. Se vossa intenção for sincera, estais em vossa casa. Pouparei-vos das ocupações físicas para que vos dediqueis tão-somente a vosso espírito. Amanhã sairei de viagem. Quando voltar, dir-me-eis se vossos desejos são os mesmos.

3

O padre Benito ausenta-se periodicamente do convento. Ele jamais o admitiria, mas gosta de viajar, interromper a monotonia de sua própria invenção. Nessas viagens desfruta de um status de santo em vida, guia das mais importantes almas do país e prestigioso conselheiro de pessoas eminentes. Sedutor cruel de homens e mulheres em desvario.
Estranhamente, a viagem que se segue à visita do conde é uma viagem infrutífera, tanto para ele como para seus fiéis. O frade está distraído, não consegue tirar o conde da cabeça. E esse pensamento o inquieta. Como autopunição, prolonga a viagem além do previsto e assim mantém sob controle o desejo ardente de voltar ao convento. E na ansiedade encontra certo conforto.
Tal como o prior lhe prometera, o conde foi eximido de todas as tarefas domésticas. Quando o sino chama, reúne-se com seus companheiros no refeitório e na igreja, mas depois não torna a vê-los durante todo o dia. E ninguém ousa perturbá-lo. O padre Benito recomendou-lhes que o esquecessem. Queria que o conde degustasse o pastoso sabor da incomunicação.

4

M. começa a faltar ao refeitório. Chega um momento em que deixa de comparecer. Quase não ingere alimentos. O voto de discrição e a recomendação do prior impedem os colegas de mostrar preocupação por sua saúde. Frei Anselmo teme que essa discrição seja fatal para o conde.

5

Passadas algumas semanas, o prior volta ao convento. Nunca sentiu tanto desejo de voltar. Não vê a hora de perguntar sobre seu hóspede.
Admiração, estupor e inveja resumem a impressão geral. A vida do conde, contam-lhe, transcorre entre a igreja e a cela. Raras vezes passeia pelo jardim e nunca se deteve a admirar o sol, nas poucas ocasiões em que o astro rei se dignou a aparecer. Há semanas que não põe os pés no refeitório e ninguém o surpreendeu na horta, provendo-se de batatas, cebolas ou alface. Os dois monges das celas vizinhas à do conde afirmam tê-lo ouvido levantar-se à noite para ir à igreja. Muitas madrugadas o encontraram em êxtase diante do altar. Não parecia humano, sua figura hierática era sólida como um monumento.
A comunidade reconhece que a conduta do novo hóspede não admite o menor reparo. Entretanto o ambiente é de agitação e nervosismo.
- Como eu supunha - diz o prior.- Por isso tardei tanto em voltar.
O padre Benito gosta de surpreender os frades com frases absurdas, que nem ele mesmo entende.

6

Depois de tentar dominar seus pensamentos, o prior vai até a cela do conde, perturbado com a falta de curiosidade de seu hóspede. Encontra a porta trancada, mas ele tem a chave que abre todas as portas. E a utiliza, depois de tentar abri-la sem sucesso.
A cela está vazia, e a janela, hermeticamente fechada. Quase não há luz, apenas a que penetra por duas pequenas frestas na madeira da janela.
A cama está intacta. Não há marcas de nenhum corpo. O prior dá meia-volta, mas antes de sair é retido pela voz do conde.
- Como foi a viagem?
O padre vira-se, fulminado. Debaixo da cama aparece o convidado, arrastando-se com agilidade.
- O que está fazendo embaixo da cama?
- Descansando. Prefiro o chão.
O frescor do chão também esfriou seu rosto; impossível adivinhar a menor emoção. O prior é famoso por seu poder mental, mas diante do conde sente-se transparente e nu. Não suporta a sensação. E sai.

7

O conde sabe que, desde que chegou, o prior segue todos os seus passos. Para não levantar suspeitas, abre mão momentaneamente das doses noturnas de capela. E acrescenta um pequeno requinte de simulação; toda as manhãs, antes de clarear, vai até a horta e se abastece de alimentos - dos quais mais tarde se desfaz.
Na sexta noite sente uma necessidade compulsiva de se ajoelhar diante de Deus, na solidão noturna. Antes de ir à capela, certifica-se de que todos estejam dormindo ou recolhidos em suas celas. Sem fazer ruído algum, como se não tocasse o chão e sim o sobrevoasse, o conde percorre os corredores, ouvindo apenas roncos atrás das portas.
Quando chega à cela do padre Benito não escuta roncos, mas chicotadas e gemidos. Permanece imóvel diante da porta e descobre que não há chave na fechadura. O buraco o convida a olhar, talvez deliberadamente. O conde aceita o convite, ajoelha-se e olha. Vê o prior flagelando duramente as costas nuas até manchar o chão de sangue. O espetáculo parece-lhe edificante e sugere novas vias de comunicação entre os dois homens. O conde pensa por um instante e decide, tal como planejara, dar rédea larga à sua piedade em seu recinto natural, a capela.

8

Irrompe na capela e prostra-se diante de um imenso crucifixo que preside um dos altares. Permanece um bom tempo nessa postura, imóvel como um muro, abismado em profunda oração. Depois ergue a cabeça, seus olhos cintilam como o rescaldo de uma fogueira apagada.
Ele não está só na capela. O padre Benito o seguiu e observa a cena, absorto, na escuridão.
O conde aproxima-se do crucifixo de tamanho sobrenatural. O Cristo começa a verter sangue por todas as chagas. Primeiro os pés, depois o peito e as mãos, a comissura dos lábios, as têmporas. O conde busca todas as fontes com boca frenética. Nem uma só gota de sangue se desperdiça no chão. O padre Benito contempla o milagre embevecido. Diante de seus olhos revela-se o mistério da Sagrada Comunhão em toda sua magnitude.
Depois de lamber cada centímetro da imagem de madeira, a figura do conde se reduz à de um pássaro negro (uma andorinha, pensa o prior). Se estivesse mais perto, teria percebido que se trata de um morcego.
O pássaro pousa sobre a cabeça de Cristo e com grande aplicação lambisca o sangue que ainda impregna a coroa de espinhos. Em seguida volta à silhueta humana e prostra-se ante a imagem da cruz, petrificado de devoção.
A mesma intensa devoção apodera-se do padre Benito, mas não é Cristo quem a provoca, e sim a pessoa do conde, cujos lábios ainda conservam restos do sangue divino. O conde leva a mão à boca como se algo a queimasse. Acaba de perceber a presença do monge e seu febril desejo de lamber-lhe os lábios ensanguentados. É a descoberta do desejo do padre que lhe queima a boca.
O padre Benito sabe-se descoberto. O desprezo que encontra nos olhos do conde dói-lhe muito mais que as chicotadas.

9

Abandona a capela e passa o resto da noite tremendo de confusão. Imerso em um estado de grande agitação, o padre Benito passa o dia inteiro trancado em sua cela. Não abre para ninguém. Em um arranco obsessivo e infantil, promete a si mesmo que só abrirá a porta se for o conde quem chamar.
No dia seguinte, frei Anselmo insiste tanto que o prior não tem outro remédio senão abrir. O discípulo traz comida e remédios caseiros contra resfriado. O convento inteiro ouviu-o tossir durante a noite. O padre recusa tudo e pergunta-lhe há quanto tempo ninguém vê o conde comer.
- Mais de um mês, se não me engano.
- Se ele pode, eu também hei de poder.
O padre Anselmo protesta suavemente. O prior o recrimina:
- Deverias ser mais discreto e indiferente.
- Estou preocupado com sua saúde, senhor.
- Se o que queres é preocupar-te, deverias ter criado uma família, não recolher-te em um convento.

10

Duas semanas depois, frei Anselmo chama à porta do conde. O prior está doente e deseja vê-lo. O conde não deu por falta dele, pois pensou que estivesse em uma de suas viagens e, a bem da verdade, porque nem chegou a pensar nele.
A cela do prior é uma tosca réplica daquela do conde. O padre não apenas dorme no chão, embaixo da cama; o criado-mudo, o exíguo armário e um crucifixo ocupam o mesmo lugar que na cela do outro.
Uma vez a sós, o diálogo é fulminante.
- O que está havendo, padre Benito?
- As forças me abandonam.
- Experimente comer.
- Comerei o que o senhor comer.
- E desde quando sou eu o modelo?
- "A alma em solidão, sem um mestre virtuoso, é como um carvão aceso que se encontra só. Antes se irá apagando que acendendo." Ensinai-me a comungar!
-O jejum vos faz delirar.
- E a vós, mentir. Desde que me mostrastes a autêntica comunhão, a outra não me serve.
- Insisto em que vossa cabeça não funciona.
- E eu insisto em que, se não revelardes vosso segredo, não podereis ficar nem mais um minuto neste convento.
- De acordo.
- Não me deixeis, senhor conde!
- Mas, afinal, como ficamos?
- Imploro-vos!
- Está bem. Sossegai e ouvi bem a história que vos contarei.

11

Minha história. Sou um vampiro. A literatura e o tédio têm criado muitas lendas sobre os indivíduos de minha espécie. Isso não é uma justificativa, muito menos uma reivindicação. Não tenho interesse em vampirizar ninguém. Sou como vós, os místicos, gosto de andar só e do meu jeito.
Mas nem sempre foi assim. Eu também atravessei longos períodos de confusão.
Nós vampiros somos seres peculiares, sem dúvida. Gozamos de menos vantagens do que se costuma acreditar e menos inconvenientes do que nós mesmos acreditamos. Malditos preconceitos e temores! Mas é verdade que temos uma grande limitação: a ausência de reflexo nos Espelhos.
Não há solidão maior que a de não se sentir acompanhado pela própria imagem. O testemunho dos outros não basta, nem mesmo o dos seres queridos. Não podendo contemplar meu próprio rosto, cheguei a pensar que carecia de um. Tinha certeza de que, se Deus existia, pertencia à família dos Espelhos e, por alguma razão que me escapava, gostava de negar nossa existência.
O intenso proselitismo de meus congêneres é mais por sede de vingança que por sede de sangue, deve-se mais à raiva do que à necessidade de saciar nosso apetite. Cada nova vítima que se curva sob nossos dentes pressupõe uma vitória contra o Deus-Espelho, mais uma imagem que lhe furtamos para sempre.
Como em um prolongamento do nosso ódio ao Espelho, também odiávamos o sinal da cruz. Um preconceito irracional que os vampiros ainda não superaram. Identificamos a cruz com Deus, quando não tem nada que ver. Eu nunca vi Deus; ao passo que a cruz pode ser vista em qualquer altar.
Como já disse, em minha existência de vampiro passei por grandes crises. Como todo mundo, reneguei a minha natureza e, como todo mundo, atentei contra ela. Não suportava o constante torpor em que vivia e já não encontrava divertimento nas orgias. Mas o sangue continuava sendo vital para mim. Pode soar ridículo, mas durante algum tempo fui um vampiro niilista. Saía de casa quando não tinha outro remédio. Substituí as gargantas humanas por outras fontes de sangue animal, ainda que mais impuras: galinhas, coelhos, cães. Até meus próprios cavalos.
Foi um de meus cavalos que de repente me mostrou o caminho. Na época eu passava as noites lendo em meu ataúde, à luz de meus olhos. Estava interessado no budismo e no misticismo cristão, lia tudo o que me chegava às mãos sobre esses dois temas e estava convencido de que, se quisesse pôr um fim àquela depressão, teria de me arriscar.
Comecei visitando pequenas igrejas de interesse artístico. Meu olhar é profundo. Sem atrever-me a entrar, podia vasculhar o interior das igrejas à distância. Tentava vencer a indecisão, como uma criança prestes a saltar de um trampolim pela primeira vez.
Ocorreu em uma dessas excursões. Eu descansava na relva sob o luar, perto da igreja do Salvador do Mundo, nos arredores de um povoado de La Mancha. Surpreendeu-me que estivesse aberta e não dei crédito a meus olhos quando vi que meu cavalo circulava mansamente por seu interior, considerando que o animal também é vampiro. Eu mesmo o mordi.
Chegara a hora de tomar impulso e saltar.
E assim fiz. Entrei.
A igreja estava vazia. O altar-mor era dominado pela imagem do Salvador do Mundo. Uma cruz tão imensa quanto minha curiosidade dominava o espaço a ela consagrado. Aproximei-me do altar, sem tirar os olhos de Cristo. Ajoelhei-me diante dele. Não fui tragado pela terra, nem os céus se estilhaçaram mostrando-me seu conteúdo, nem um raio fulminante converteu-me em breve fogueira. A noite seguia seu curso, tranquila. Era a primeira vez que eu via essa imagem, e sua mera visão proporcionava-me uma paz nova e total.
De repente ocorreu algo extraordinário. Por cada uma de suas chagas, dos pés, dos joelhos, do peito, da boca, da palma das mãos, das têmporas etc., o Cristo começou a verter sangue. Por menor que fosse a ferida pintada na imagem de madeira, convertia-se em súbita e incontida fonte de vida. Eu contemplava o milagre atônito e paralisado. Foi então que ouvi sua voz me dizer: "Eu sou a única fonte de vida. Quem bebe de meu sangue não mais necessitará de outro alimento".
Ele não necessitou de mais palavras. Nem eu. Aproximei-me do crucifixo e bebi o líquido que durante um bom tempo escorreu de cada uma de suas feridas. Enxuguei com meus lábios a poça de sangue que se formara no chão. E voei como um avião no dia em que foi inventado.
Voltei ao castelo, ansioso por transmitir a meus companheiros a maravilha que acabara de descobrir. Mas nenhum deles acreditou em mim. Ao contrário, assim que terminei meu relato, olharam-me aterrorizados. De nada adiantou minha disposição de fazer uma demonstração in situ. Negavam-se a mudar. A rotina proporcionava-lhes segurança, e pensavam que minha abstinência me levara à loucura.
Abandonei o castelo, com tudo o que havia dentro. Viajei por diferentes partes da Espanha. Conheci uma de vossas discípulas, que me mostrou cartas vossas, com cujo conteúdo identifiquei-me "ipso facto". Vim aqui com o propósito que já conheceis. Se até agora não revelei nada, não foi por mesquinhez. A rejeição dos vampiros mostrou-me que as soluções individuais não salvam os outros. E o vampirismo é um caminho sem volta, que não aconselho a ninguém.
O padre Benito pronuncia duas palavras apenas:
- Fazei-me vampiro.
Ante a firmeza sem fissuras do prior, o conde M. exagera os inconvenientes de sua espécie. Insiste na dor da visão incompleta de si mesmo e na opacidade dos espelhos. O prior considera-o um preço ínfimo, se comparado àquilo que receberá em troca.
Conhecendo a temeridade do padre, o conde não tem outra alternativa senão providenciar o necessário para a nova ordenação.
O padre Benito sente-se fascinado e ansioso como uma noiva. E o conde já não acha a idéia de vampirizá-lo assim tão má. Começa a agradar-lhe deixar de ser o único.
Abordam a questão da eternidade e da morte. M. confia-lhe que, caso deseje abandonar o mundo, bastará fincar uma estaca no próprio coração.
O prior não quer nem ouvir falar no assunto.
- Não invejo a felicidade dos santos na outra vida.
- Tem razão. O vampirismo já é outra vida.
Concorde com a sua magnitude, a cerimônia será simples e íntima. Na noite anterior, alguém pensou ver um grande espelho voador nas imediações do povoado vizinho ao convento. Uma senhora denuncia seu desaparecimento. Contudo, por mais que a interroguem, ela não sabe dizer como isso aconteceu. Só o prior e o conde conhecem a verdade. Transformado em morcego, o conde subtraiu o espelho do dormitório da casa e o levou voando até convento.
Instalam o enorme espelho junto ao altar do Cristo sobrenatural e eternamente agonizante. Não falta mais nada. Tudo está pronto. M. oficia a ordenação com delicadeza.
- Olhe bem para seu rosto, com muito vagar. O nariz, os olhos, os lábios, as faces, as sobrancelhas, o queixo, o cabelo, as orelhas. Abra a boca e olhe dentro. Não se esqueça da língua... mostre-a e olhe bem para ela, pois nunca mais a verá... Tire a roupa, sem pressa, peça por peça. E contemple bem cada um de seus membros no espelho. Deleite-se.
O prior obedece ao compasso das palavras do conde, até ficar totalmente nu.
Por pudor, não recorda ter visto seu corpo nu desde criança. Sente uma inesperada nostalgia. Acaricia as próprias pernas, o peito, os ombros, os braços, o sexo...
- Gosto de meu corpo.
- Ainda está em tempo de voltar atrás.
- Há muito tempo não estou em tempo.
O prior ainda se deleita por alguns instantes. Adota diferentes posturas para contemplar seu corpo de diferentes ângulos.
- Estou pronto - anuncia ao conde.
M. aproxima-se dele e o abraça. No espelho, o padre continua vendo a própria imagem solitária. Seus músculos estão tensos e seus braços rodeiam o tronco do vampiro, embora o espelho não o reflita. O padre entrega-se ao conde sem perder de vista o próprio rosto. Inclina-o para trás, em um gesto de arroubo. Nesse instante os dentes do conde perfuram-lhe o pescoço. O corpo do padre desaparece do espelho e desaba no chão.
O vampiro precipita-se sobre ele e drena suas artérias com feroz frenesi.
Exaustos, permanecem um sobre o outro, como se acabassem de fornicar selvagemente.
Quando o padre volta a si, fita o crucifixo do altar.
O conde ajuda-o a se levantar. Das feridas do Cristo começa a brotar sangue em abundância. O par atira-se contra a imagem de madeira e suga com avidez o alimento que se derrama de graça.
Findo o banquete, transformam-se em morcegos, que, voando, abandonam a capela e se perdem na escuridão sem mistério da noite.
O vôo noturno e nupcial, bem como o ritual diante do espelho, acabam transformando-se na nova forma de ingresso na congregação místico-vampírica que nasce da união do padre Benito com o conde M.
Procuram esquecer o mundo, e que o mundo os esqueça. As sucessivas gerações de camponeses que habitam o povoado vizinho estranham a insólita sobrevivência daqueles monges. Mas a superstição e o medo são muralhas inexpugnáveis, muito mais sólidas do que a curiosidade daquela gente.


FIM


Pedro Almodóvar
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Este texto foi escrito originalmente em 1975. Tradução de Sérgio Molina.

Publicado por Conde em 04:22 PM | Comentários (2)

Idade das Trevas

"As ciências, cada qual se esforçando em sua própria direcção, até agora causaram-nos pouco dano; mas algum dia, a concatenação de conhecimentos dissociados há-de descortinar panoramas tão terrificantes da realidade, e da nossa pavorosa posição nela, que ou a revelação nos enlouquecerá ou fugiremos da luz fatal para a paz e a segurança de uma nova Idade das Trevas."

H.P. Lovecraft

Publicado por Conde em 04:06 PM | Comentários (0)

Contos Para Esquecer

Um destes dias surgiu-me a ideia de colocar no blog uma série de contos relacionados com a literatura gótica. A primeira ideia que me ocorreu foi que muitos dos leitores irão sentir um aborrecimento enorme a ler tamanhos textos. Mas por outro lado os verdadeiros leitores talvez até venham a gostar da ideia. E é por esses verdadeiros leitores que eu tenho a iniciativa de por no blog os contos. Claro que não vão ser colocados todos de seguida, até porque isso seria maçador. Irei colocá-los com um intervalo de dois dias entre cada. O primeiro conto será "A Cerimónia do Espelho" de Pedro Almodóvar, seguindo-se muitos outros de autores já aqui mencionados.

Publicado por Conde em 03:59 PM | Comentários (2)

agosto 30, 2003

Poe, o Gótico e o Visionarismo

Um ensaio que explica a origem do gótico na literatura e ainda o contributo de Edgar Allan Poe para esse estilo literário.

Uma boca de cena íntima: Poe, o gótico e o visionarismo

Por Luís Carmelo

Ao falarmos de gótico estamos a falar de um tipo ficcional obscuro, decerto contíguo à matriz romântica, impregnado de simulacros medievalistas e mergulhado por uma dominante de mistério e de terror. O locus selvagem e ameaçador dos castelos, mosteiros, abadias ou ainda das passagens subterrâneas, labirintos ermos e edificações recônditas que o gótico propõe identifica-se, quase sempre, com a natureza sombria dos seus enredos onde abundam ambientes tempestuosos, fantasmáticos, mórbidos e votados ao ultraje, à superstição, à vingança, quando não ao arrebatamento por vezes elementar e primário.
Iniciadas pela pena de Horace Walpole, com Castelo de Otranto (1765), e por Ann Radcliffe, com Os mistérios de Udolpho (1794), o gótico propriamente dito cedo viria a ser depurado do seu excesso de extravagâncias e até simplismo, acabando algumas das suas características por serem retomadas, amalgamadas e até modalizadas por escritores como Edgar Allan Poe, Nataniel Hawthorne, ou ainda pelas irmãs Bronte. O dealbar da chamada ficção científica (retenhamos por exemplo o caso de A ilha do Dr. Moreau de G. Wells) também recebe óbvios contributos do gótico, para já não falar dos verdadeiros estigmas negros de oitocentos, tais como Frankenstein (1818) de Mary Shelley e do já mais tardio Drácula (1897) de Bram Stoker, modelos de futuros e abundantes intertextos literários e fílmicos.
Contudo, o fundamental no gótico não é ele mesmo, mas antes a inquietante flutuação que suscita e irradia. A produção de sentido do gótico deve pois ser apreendida na cadeia relacional que o mesmo estabelece e provoca e não tanto no fechamento da sua "mêmeté" ilusória, para utilizar a feliz expressão de Ricoeur de Soi même comme un autre (1990). Um dos casos de hibridismo produtivo mais estimulante de neo-gótico, não só pelo que implicou na sua recepção futura, mas também pelo germe de profetismo e mimese com que provocou a modernidade nascente, foi o de Edgar Allan Poe (1809-1849).
O poeta, escritor e crítico de Boston não é apenas sinónimo de ditirambo ao mais puro dos macabros, na tradição linear do gótico puro. Nem o é tão-só ao mundo periférico do álcool e de outros anestesiantes próprios do spleen urbano do início de oitocentos, como muitos dos seus correligionários americanos julgaram. Nem é apenas o resultado de um feitiço apaixonado, encantatório e matricial, tal como Baudelaire o viu e particularmente visionou. Poe é também um poço de reflexão complexa acerca do mundo da poesia e acerca da prática analítica das narrações de acordo com métodos de indução, dedução e conjectura (quase antecipando-se literariamente, já se vê, à célebre abdução de Peirce). Poe é ainda um construtor de subjectividades a várias vozes, capaz de transpor para a literatura a aura de uma liberta e às vezes judicativa homodiegese. Por outro lado, Poe traz ao seu neo-gótico especioso um ingrediente fundamental e por isso mesmo sincrético, que foi justamente a fusão entre o labirinto urbano pré-baudelaireano (predito por aquele, retrodito por este) e o, embora menos usado, cenário tradicional da adulada desolação medieval e gótica.
Neste artigo é nosso objectivo problematizar as diferenças de arquitectura significativa que se fazem sentir no diálogo entre personagens humanos e seres ficcionais de ordem fantasmática, tal como se nos apresentam em âmbitos exteriores ou adstritos à modernidade. Para tanto, recorreremos, no primeiro caso e de modo breve, à imagem dos monstros e portenta sobretudo medievais; no segundo caso, recorreremos mais desenvolvidamente à tessitura dos fantasmas e prodígios criados pela enunciação de Edgar Allan Poe.
Portenta e monstros: os dois mundos.
Os Portenta, também considerados presságios, eram imagens que, até ao limiar de setecentos, estavam sobretudo ligadas aos defeitos invulgares de parto, enquanto que os monstros, propriamente ditos, correspondiam sobretudo a imagens de criaturas que, segundo o mito e as lendas, povoavam a periferia distante e desconhecida do globo.
Estamos a falar de um mundo tal como Hereford o desenhou no século XIII, de acordo com o tradicional modelo T-O. Ao centro desse tipo de mapas, por cima do traço horizontal da letra T, surge a Ásia e por baixo desse mesmo traço, surge, à esquerda, o Nilo e, à direita, o Dom. Por sua vez, à esquerda e à direita do traço vertical da letra T - que corresponde ao Mediterrâneo -, surge a Europa e a África, respectivamente. À volta deste T, duas grandes circunferências desenham, não o que poderíamos pensar ser a atmosfera, mas sim o designado e espesso "Oceano". É para além desse desconhecido "Oceano" periférico que, segundo variadas tradições, o mundo andaria povoado por criaturas monstruosas.
Para Santo Agostinho, a natureza estava, de facto, dividida em duas partes, a da ordem, a visível, a que permite ler os sinais da divindade e, por outro lado, a do inesperado, a da incompreensível, ou a do maravilhoso. Sabe-se que, ainda no século XVI, a palavra curiositas remetia em grande medida para um certo tom pouco cordato de heresia. Para o caso, portanto, essa outra ordem da periferia do globo, por onde pululavam monstros semelhantes aos descritos nas versões medievais latinas da carta do Preste João das Índias, ou em imagens fortes com as de Ravenna (1557), de Boaistuau (1560) ou, entre mil outras, como as que aparecem na Chronica mundi de Schedel (1493), era uma ordem que não constituía uma ameaça directa da divindade ao homem, sendo antes interpretada como prova da falta de capacidade dos mortais para interpretarem, na sua totalidade, o próprio plano de salvação divino.
Esta limitação semiótica, ou, se se preferir, esta restritiva teo-semiose própria do mundo pré-moderno, é um atributo que já não está presente no gótico do final de setecentos e do início de oitocentos. Aí, a disputa do desconhecido, do inesperado, do outro fulgurante aparece traduzido por outras mecanismos de controlo narrativo. Metáforas demoníacas, a expansão lúgubre dos elementos, metonímias de um mundo em que mortos e vivos comungam idêntica respiração, a cor e o ambiente soturno e nocturno das novas paisagens, para além de cultismos já de moda (a reinvenção melancólica de um passado, as ruínas, ou a beleza mortal) integram a nova deificação retórica e, portanto, a novíssima capacidade de inventar autónoma e subjectivamente mundos específicos, normas e redes de efeito, através dos quais as tramas imaginárias se passam a desenrolar (inclua-se aqui a própria estratégia pioneira do policial, tão bem simbolizada, por exemplo, em Os Crimes Da Rue Morgue).
José Gil, no seu livro, Monstros (1994), sintetiza, no capítulo III, a lenta travessia empreendida entre o terreno da teo-semiose pura e o da semiose aberta ao próprio conflito de interpretações. Fá-lo curiosamente coincidir com as seguintes condições:
1."Que o sentido da coisa captada numa imagem já não dependa das qualidades (de semelhança, de analogia, etc) intrínsecas da imagem; que se produza uma ruptura entre a imagem como puro signo e o seu sentido"; quer isto dizer que a imagem de uma monstruosidade enquanto coisa dada e significada, numa relação que faz depender todo o mistério de um ser superior e magistralmente informado e sabedor, passa, na interpretação gótica de Poe, a ser um ponto de partida à abertura do sentido e à invenção e mimetismo dos dramas e paixões humanas, no quadro de um cenário pragmático.
2. "Que a partir daí se possa constituir um novo instrumento de conhecimento aplicável a todas as coisas, a todos os objectos, independentemente do seu sentido e da sua dignidade"; Quer isto dizer que, nos contos de Poe, é toda a vida e humanidade o que está em jogo e não uma imanência qualquer que as pressupusesse.
3. "Que o ser do objecto seja inteiramente restituído através desse instrumento e que o seu conhecimento não remeta já para uma rede de relações entre as coisas, mas, antes de tudo, para uma relação entre signos que são dados dentro do espírito do sujeito - e que constituirão o descodificador das impressões transmitidas pela representação ao intelecto""; quer isto dizer que a literatura é uma coisa que se faz e que se fabrica, através de elementos autónomos e autotélicos que, por sua vez, restituem à linguagem e aos seus filtros sociais o poder de construção dos sentidos, em verdade desligados das coisas na medida em que estas permanecem coisa, apesar da própria linguagem e da sua esteticização mais radical (Locke foi o primeiro, há muito, a teorizá-lo). Por outras palavras, Poe inicia, no seu tempo, o que o segundo Wittgenstein clarificaria como sendo uma pura arena de novos "jogos da linguagem", onde novas regras e "palavras de ordem" passam a estar em jogo na recepção especificamente literária.
Os fantasmas de Poe: desconstrução de mundos.
Nas narrativas de Poe, está já em curso uma imaginação livre, moderna e poderosa. Há um sujeito que enuncia e há uma linguagem que aparece como diria Foucault. Esta marca de subjectividade torna-se visível por exemplo no conto Silêncio, diálogo curioso entre o Demónio e o narrador, junto ao túmulo deste, e onde se dá conta de um personagem que contempla a sós, e com inquietação física crescente, uma paisagem que, no seu exotismo líbio, se metamorfoseia de modo mágico.
Este diálogo com o Demónio, no fundo funcionando como um actante que se situa no mesmo plano plástico e imaginário que os demais personagens, é frutuoso noutros contos, como por exemplo em O Gato preto onde aparece por diversas vezes (GP:14, 28, 34). Entre a vida e a morte, o trânsito descrito é sobretudo terráqueo, directo, assemelhando-se a sua mântica singular a uma espécie de desconstrução das clássicas separações entre o ici-bas e o mundo divino e inacessível. Nas narrativas de Poe, este sujeito desconstrutor aparece como que comandado por uma força (narrativa, da linguagem) que o ultrapassa, de algum modo como no futuro haveria de acontecer a alguns dos mestres do expressionismo cinematográfico alemão, como Fritz Lang ou Murnau.
Esta fatalidade implícita, no seu tom de mistério transversal ao quotidiano, parece querer prenunciar uma futura negatividade do sujeito moderno, dentro da crítica que Baudelaire entreabrirá e que se prolongará a Nietzsche, a Ortega Y Gasset, etc. Em contos como Ligeia, Gato preto, O Rei peste, Berenice ou Eleanora, esta fatalidade acompanha toda a trama e é mesmo assinalada pela voz narrativa: "Já não era capaz de me reconhecer. A minha alma original pareceu fugir-me de repente do corpo" (GP:14), ou "Falarei apenas daquele aposento, para sempre amaldiçoado ao qual, num momento de loucura, conduzi como minha esposa - como sucessora da inolvidável Ligeia - a minha loura (...)" (LI:33).
Ao contrário dos monstros e portenta que, no imaginário pré-moderno, são sempre habitantes de um alhures legitimado de modo metafísico, aqui, nas narrativas de Poe, a topografia das monstruosidades e fantasmas abre-se já à empatia moderna, porque toda ela fruto do puro jogo da linguagem literária. Tal ocorre, por um lado, através do olhar analítico e, portanto, susceptível de filtrar o ambiente das novas cidades, assim como as novas visibilidades do quotidiano; por outro lado, através de um olhar preso à idealidade romântica e gótica que lisonjeou ruínas medievais e espectros desolados de paisagens tumultuosas. Ambos os cenários atravessam e cruzam as narrativas de Poe. Esta simbiose de olhares, reposta na linguagem literária sob a forma de imaginário, parece mesmo chegar a anunciar, aqui e ali, uma espantosa intuição do tropo fotográfico, fenómeno, também ele, emergente e contemporâneo da obra e vida do autor.
Vejamos, no primeiro caso, alguns exemplos: "A cidade estava em grande parte despovoada e, nos bairros horríveis vizinhos ao Tamisa, no meio de um desses becos negros, estreitos e imundos, onde o demónio da peste tinha fixado a sua residência, passeavam à vontade o espanto, o terror e a superstição." (RP: 11); "O ar estava frio e enevoado. As pedras arrancadas da calçada jaziam numa desordem medonha por entre a relva alta e vigorosa" (RP:12); ou ainda: "E toda aquela turba ia com uma actividade ruidosa e desordenada cujas discordâncias mortificavam o ouvido e produziam nos olhos uma sensação dolorosa" (HC:69).
Vejamos, no segundo caso, outros tantos exemplos: "(...) restaurei parcialmente uma abadia (...) numa das regiões mais remotas e mais isoladas da bela Inglaterra. A lúgubre e solitária imponência do edifício, o aspecto quase selvagem da propriedade, as muitas melancólicas e queridas recordações de que não me conseguia libertar tinham muito em comum com o sentimento de extremo abandono (...)" (LI:32,33); "Magnífica de ouro e púrpura, desceu sobre nós (...) até que por fim os seus rebordos pousaram nos cumes das montanhas, o seu aspecto sombrio agora convertido em magnificência, encerrando-nos (...) numa prisão esplendorosamente, gloriosamente, mágica" (EL:52); ou ainda: "E sempre que o visitante mudava de posição, via-se cercado por uma infinda série de formas sinistras como as que povoavam as superstições normandas ou os sonos pesados de culpa dos monges. (...) (O) vento por detrás das tapeçarias acentuava o efeito fantasmagórico e proporcionava ao conjunto uma animação medonha e inquietante" (LI:36).
Sinais dos tempos.
Concluindo, dir-se-ia que Poe enceta uma recriação dos espaços ficcionais, quer anulando a dimensão vertical significativa cara ao mundo platónico das teo-semioses, quer pondo em cena uma lógica móvel e híbrida que dá conta da imaginação e da visibilidade do seu tempo de rupturas e de recomeços. Este caracter decisivo da espacialidade, a que se adicionará também a conquista de um espaço interior, psicológico, egotista e, portanto, aberto às profundas inquietações ou "perversidades" - como referiu Poe - do espírito humano, acentua e enfatiza a dimensão radicalmente outra em que prodígios, fantasmas e monstros surgem em cena.
Não mais eles serão apanágio do desconhecido intocável; agora todos os fantasmas e monstros, a par dos que surgirão através da imaterialidade da "photogenie" fotográfica ou dos espectros de futuros percursores do cinema como Méliès ou a chamada escola de Brighton, tornam-se personagens e imagens de um mesmo jogo que passa a ser encenado na mesma, na mais familiar e íntima boca de cena da significação (idêntico jogo de desocultação atravessa as narrativas dos viajantes e exploradores europeus do limiar de oitocentos).
Provavelmente é essa uma das novidades do próprio gótico: o visível e o invisível passam a andar de mãos dadas e inquietam pelo contraste, pelo drama arrepiante, pelo jocoso às vezes hilariante do trânsito entre morte e vida, entre ressurreição e palpitação errante, entre suspiro e tragédia pueril. O curioso é também verificar que nada nestes percursos naturalmente se alheia da contemporaneidade romântica, sobretudo no que diz respeito à descoberta do tempo histórico, da modernidade (foi em 1826 que a expressão surgiu com Heine pela primeira vez) e da própria ideia de "cultura", tal como Herder a postulou. Este inevitável não alheamento face às novas codificações acaba também por marcar os espíritos góticos mais iluminados, como o de Poe, no sentido de um pathos defensivo em relação ao progresso, de um pranto saudoso, de um personalismo visionário e da irremediável insatisfação que Schlegel baptizou, no feminino, por "sehnsucht ".
Terminaria com uma citação da autoria de Salvato Teles de Menezes, estudioso de Poe: a subtileza da análise do "sofrimento humano" traduz-se no grande "tema da poética de Poe: i.e., Poe fez-se poeta dessa zona claro-escura da história da humanidade." Diria mais: recorrendo à noção deleuzeana de "rizoma", ou de sistema aberto, Poe não apenas navegaria entre esse "claro-escuro" vital como também lhe traçaria as "linhas de fuga" que os seus continuadores de renome acabaram por transformar em verdadeiro sinal dos tempos, nomeadamente o indefectível Baudelaire, Mallarmé e o próprio Pessoa que traduziu, mantendo até as rimas originais, o famoso poema do autor, O Corvo, com que, em leitura parcial, termino esta minha comunicação:

" (...) A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse os meus ais,
Isto só e nada mais. (...)".

Publicado por Conde em 06:04 PM | Comentários (5)

Citação VII

"É sem qualquer terror que eu vejo a desunião das moléculas da minha existência."

Marquês de Sade

Publicado por Conde em 01:07 PM | Comentários (0)

A Verdade

Este longo poema do excêntrico Marquês de Sade, insulta fortemente um assunto que na sua época seria muito sério. Este poema não é aconselhado a pessoas muito religiosas devido ao seu conteúdo sexual e blasfemo.

A Verdade

Mas que quimera é esta, estéril e impotente,
Que divindade é esta imposta à néscia gente
Por sacerdotes vis, cambada de impostores?
Quererão eles contar-me entre os seus seguidores?
Ah, jamais, juro-o, e não faltarei ao já dito,
Jamais ídolo tão repelente e esquisito
Esse que do delírio é filho e da irrisão
A mim me causará a mais leve impressão.
Eu, glorioso e feliz com o meu epicurismo,
Só pretendo expirar no seio do ateísmo
E que o infame Deus feito para me alarmar
Seja ideado por mim tão só para o blasfemar.
Minha alma te detesta, oh sim, vã ilusão,
E protesto-o aqui, pra tua convicção.
Quisera que existir pudesses por um momento
Pra gozar o prazer de insultar-te a contento.
De facto ele quem é, esse fantasma odioso,
Esse poltrão de Deus, esse ser horroroso
Que nada oferece ou mostra ao espírito e ao olhar,
Que faz tremer o parvo e o que é sábio zombar,
Que aos sentidos não fala e nem o entende alguém,
Cujo culto cruel mais sangue sempre tem
Feito correr que a guerra ou que Témis feroz
Em mil anos verter fizeram entre nós?
Deífico tratante, em vão eu o analiso
Com filósofo olhar, em vão o estudo e viso:
Não vejo no motor de tais religiões
Mais que um impuro nó de mil contradições,
Que cede e se desfaz mal a gente o encara,
O insulta à vontade, o ultraja, o declara
Gerado pelo temor e da esperança nascido,
Que o meu esp’rito jamais teria concebido;
Em alternância ele é, nas mãos dos que o erigem,
Objecto de terror, de alegria ou vertigem,
Que o astuto impostor que no-lo vem pregar
Faz sobre a vida humana a seu prazer reinar,
Que ora ruim o pinta, ora em bondade infindo,
Ora nos massacrando, ora de pai servindo,
Sempre lhe atribuindo, a mando das paixões,
Costumes como os seus, suas opiniões;
Ou a mão que perdoa ou a que nos entala,
Com este Deus idiota o padre nos embala.

Com que direito aquele que a mentira adstringe
Pretende submeter-me ao erro que o atinge?
Careço eu do Deus que a sábia mente abjura
Pra a mim mesmo explicar as leis da mãe natura?
Nela tudo se move, e o seu seio criador
Age sem precisar da ajuda dum motor.
Este duplo embaraço algo me dá a ganhar?
A causa do universo esse Deus vem mostrar?
Se cria, também é criado, e assim fico,
Em recorrer a ele como antes interdito.
Sai do meu seio, sai, infernal impostura,
Desaparecendo cede às leis da mãe natura:
Ela só tudo fez, tu és o nada hiante
Do qual, ao nos criar, sua mão nos pôs distante.
Desvanece-te, pois, execrável quimera!
Pra longes climas foge, abandona esta terra
Onde mais não verás que corações fechados
Ao patoá intrujão dos teus apaniguados!
Quanto a mim, reconheço, é tal e é tamanho,
Tão justo, grande e forte este horror que te tenho,
Que com prazer, Deus vil, e com tranquilidade
Que digo eu? com enlevo e voluptuosidade,
Teu carrasco era eu se tua fraca existência
Oferecesse algum ponto à vingança, à violência,
E feliz o meu braço ia ao teu coração
Comprovar o rigor desta minha aversão.
Mas é trabalho vão pretender-te atingir,
A tua essência escapa ao que a quer coagir.
Não podendo esmagar-te, ao menos, entre os vivos,
Queria eu derrubar os teus altares nocivos
E mostrar aos que um Deus cativa inda por ora
Que esse aborto tão vil que sua fraqueza adora
Não é feito pra pôr algum termo às paixões.
Ó ímpeto sagrado, altivas impressões,
Sempre, sempre por nós sede homenageados:
Vós só podeis auferir o culto dos mais sábios,
Vós só seu coração constantes deleitar,
Dados pela natureza, vós só nos alegrar!
Ceda-se ao seu poder e que a sua violência,
Subjugando nossa alma alheia à resistência,
Nossos prazeres transforme em leis impunemente:
Basta ao nosso desejo o que a sua voz expende.
Por mais que à agitação seu órgão nos arraste
Há que ceder-lhes sem remorso e sem desgaste;
E, não escrutando leis nem costumes lembrando,
Ardentemente ao erro irmo-nos entregando,
Que sempre por suas mãos no-lo ditou natura.
Respeitemos tão só o que ela nos murmura;
O que a nossa lei vã fustiga em toda a terra
É, pra o que ela planeia, o que mais preço encerra.
O que ao homem parece uma injustiça atroz
Efeito da sua mão corruptora é em nós,
E quando – hábito nosso – ir errar receamos,
Acolhê-la melhor é o que enfim lucramos.
Essas doces acções a que vós chamais crime
Esses excessos que só o parvo ilegitima
São os desvios que mais lhe agradam ao olhar
Vícios, inclinações que a fazem deleitar;
O que ela grava em nós não é senão sublime;
Aconselhando o horror, oferece quem vitima.
É feri-la então sem medo e sem temor talvez
De ter, em lhe cedendo, obrado malvadez.
Vejamos como o raio em suas mãos fatais
Fulmina ao acaso e como os filhos e os pais,
Os templos, os bordéis, os crentes, os bandidos,
Tudo à natura apraz, carente de delitos.
Servimo-la nós também ao cometer o crime:
Mais nossa mão o espalha e mais aquela o estima.
Usemos do seu grande império sobre nós,
Entregando-nos sempre ao prazer mais atroz:
Defesas nunca são suas leis homicidas
E a violação, o incesto, o roubo, os parricídios,
Os gostos de Sodoma e o que Safo aprova,
O que ao homem faz mal ou o que o leva à cova
Tudo por certo é meio de lhe agradar.
Por terra os deuses pôr, o seu raio roubar
E destruir com ele, o dardo faiscante,
Tudo o que nos despraz num mundo horripilante.
Nada se poupe então: que as suas malvadezas
Sirvam de exemplo em tudo às nossas más proezas.
Sagrado, nada há: tudo neste universo
Deve ao jugo vergar do nosso vivo acesso.
Quanto mais aumentar, variar a perfídia,
Melhor a sentirá nossa alma decidida:
Dobrando, encorajando as nossas tentativas,
Leva-nos passo a passo às acções mais nocivas.

Os belos anos vão-se, ela chama por nós;
Dos deuses escarnecendo, ouçamos sua voz:
Pra nos recompensar, seu crisol espera já;
O que o poder tomou, necessidade dá.
Tudo ali se restaura e reproduz também.
Do grande e do pequeno a puta será mãe,
E todos vê iguais seu olhar amoroso,
O monstro e o celerado, o bom e o virtuoso.


Marquês de Sade

Publicado por Conde em 12:42 PM | Comentários (0)

agosto 29, 2003

A Morte do Verão

A chuva regressou, finalmente poderei sentir o cheiro reconfortante da terra húmida. Os céus cinzentos inspiram os pensamentos mais profundos. O som dos pingos de água que batem violentamente no telhado fazendo ecoar a sua beleza no silêncio da noite. Confesso que já estava farto do céu radiando uma alegria ilusória, também é agradável de ver... mas não desperta sensações tão apuradas como o céu de tempestade. Começou a contagem decrescente. Aproxima-se a estação da decadência... aproxima-se a grande queda dos anjos... O verão morre rápidamente.

Publicado por Conde em 07:55 PM | Comentários (4)

Citação VI

"A mente é como um páraquedas. Só funciona se for aberto."

Frank Zappa

Publicado por Conde em 07:38 PM | Comentários (3)

Percepção

"Se as portas da percepção forem abertas, as coisas irão surgir como realmente são, infinitas."

William Blake

Publicado por Conde em 01:15 PM | Comentários (1)

Mantra

"Archangel, darkangel lend me thy light through death's veil until we have heaven in sight !"

Daniel Davey

Publicado por Conde em 01:15 PM | Comentários (0)

Cartas de Um Morto IV

Horas, dias, semanas passaram a fio... A chuva dos últimos dias amoleceu a terra por cima do caixão. Com um esforço que nunca havia experimentado consegui libertar-me e finalmente ver o cemitério que já habitava à quase um mês. Havia uma floresta colossal a poucos metros de distância, que sussurrava incessantemente o meu nome. Espíritos magenta preencheram o céu, as árvores cresceram sem descanço... O teu vulto passou por mim como uma brisa gelada. Olhei para ti, possuía-te uma pele de luz branca azulada, mais bela do que nunca. Subitamente desce dos céus o que parecia ser um anjo e levou-te para cima. O teu rosto inexpressivo desapareceu na altitude. Foi com esta imagem ainda em mente que fui sugado para as profundezas infernais... lar doce lar.

FIM

Publicado por Conde em 12:47 PM | Comentários (1)

agosto 28, 2003

Noite Tempestuosa

Aqui vai um poema de Bocage, invocador constante do locus horrendus. Clike em baixo para ler "Noite Tempestuosa".

Noite tempestuosa

O céu das opacas sombras abafado,
Tornando mais medonha a noite feia,
Mugindo sobre as rochas, que salteia,
O mar em crespos montes levantado;

Desfeito em furações o vento irado;
Pelos ares zunindo a solta areia;
O pássaro nocturno que vozeia
No agoireiro ciprestes além pousado;

Formam quadro terrível, mas aceito,
Mas grato aos olhos meus, gratos à fereza
Do ciúme e saudade, a que ando afeito.

Quer no horror igualar-me a Natureza;
Porém cansa-se em vão, que no meu peito
Há mais escuridão, há mais tristeza.

Bocage

Publicado por Conde em 07:30 PM | Comentários (1)

agosto 27, 2003

Sonhar

"Quem sonha de dia tem consciência de muitas coisas que escapam a quem sonha só de noite."

Allan Poe

Publicado por Conde em 08:30 PM | Comentários (0)

Sobre a Humildade

A humildade é a virtude daquele que é desprovido de virtudes.
A humildade é o consolo para o último lugar num desfile de virtudes.

Publicado por Conde em 02:12 AM | Comentários (0)

Aparição

Ao passar por uma aragem silênciosa paro perante tal imagem de horror e sedução. Eras tu, ser que habitas as profundezas do meu ego... e me dizes o que escrever e falar. Sabia que existias, mas nunca tive oportunidade de te ver como agora. És de uma beleza feminina única. Como se tudo ardesse à tua volta, reinas sobre mim com um simples olhar possuído. Observo-te em delírio nítido. No teu corpo trabalham escravos os meu olhos ...e nos teus lábios gritam de liberdade os meus sonhos.

Publicado por Conde em 01:10 AM | Comentários (1)

agosto 26, 2003

The Funeral of Hearts

"When love is a gun, separating me from you..."

HIM

Publicado por Conde em 11:59 PM | Comentários (0)

O Horror dos Vivos

Ao menos junto dos mortos pode a gente
Crer e esperar n'alguma suavidade:
Crer no doce consolo da saudade
E esperar do descanso eternamente.
Junto aos mortos, por certo, a fé ardente
Não perde a sua viva claridade;
Cantam as aves do céu na intimidade
Do coração o mais indiferente.
Os mortos dão-nos paz imensa à vida,
Não a lembrança vaga, indefinida
Dos seus feitos gentis, nobres, altivos.
Nas lutas vãs do tenebroso mundo
Os mortos são ainda o bem profundo
Que nos faz esquecer o horror dos vivos.

Cruz e Sousa

Publicado por Conde em 01:29 PM | Comentários (0)

agosto 25, 2003

Citação V

"Num voo de pombas brancas, um corvo negro junta-lhe um acréscimo de beleza que a candura de um cisne não traria."

Boccaccio

Publicado por Conde em 11:59 PM | Comentários (1)

Subversão

"Só podia encontrar a felicidade se conseguisse subverter o mundo para o fazer entrar no verdadeiro, no puro, no imutável."

Franz Kafka

Publicado por Conde em 01:50 PM | Comentários (2)

agosto 24, 2003

Cartas de Um Morto III

Acordei novamente... Já não conseguia respirar, mas também pouca diferença isso me fazia. Sempre que tentava inspirar, os pulmões não acompanhavam a minha intenção. Desatei aos pontapés ao caixão para tentar libertar a terra e sair, mas foi em vão. O cheiro do meu próprio corpo em putrefação parecia formar uma névoa esverdeada visível mesmo no escuro. Ao inclinar a cabeça descobri que não estava sózinho... os vermes já caminhavam por cima de mim, fazendo-me companhia neste cubículo abafado. Sentia a tua falta. Desejei-te como naquelas noites em que morria nos teus braços depois de fazer-mos amor horas a fio...

Publicado por Conde em 01:35 PM | Comentários (1)

Exorcismo

"Existe um demónio dentro de cada Homem que deverá ser exercitado e não exorcisado."

Publicado por Conde em 02:30 AM | Comentários (135)

agosto 23, 2003

Véus Caídos

"Das garrafas há muito entornadas, onde as cinzas dos mortos repousam, crescem flores enegrecidas onde anjos malditos pernoitam. Das mulheres que eles amaram jamais se despregaram.
Os negros véus sempre caídos, o pranto sempre vestido, os demónios fervorosamente escondidos... Mãe! Mulher! Nascida dos ratos Mãe! Mulher! Fermentada no Armazém. Sucubo. Procuras-me enforcado. Sucubo. Visitas-me desmaiado..."

Mão Morta
(In Véus Caídos)

Publicado por Conde em 05:32 PM | Comentários (2)

Lógicamente Absurdo

"Ainda pequeno fui aprendendo
Que a violência tem um crescendo
Começa por nada acaba com tudo
E o que era lógico fica absurdo.
E quem paga é o sangue civil!"

Mão Morta
(In Orgia Scherzo em Fá#)

Publicado por Conde em 05:25 PM | Comentários (0)

agosto 22, 2003

Citação IV

"Por sabedoria entendo a arte de tornar a vida mais agradável e feliz possível."

Schopenhauer

Publicado por Conde em 08:30 PM | Comentários (3)

Anjo Caído


Anjo Caído
"Prick your finger it is done. The moon has now eclipsed the sun. The angel has spread his wings. The time has come for bitter things..."

Publicado por Conde em 03:30 AM | Comentários (0)

Cartas de Um Morto II

Senti o leve odor da terra húmida a penetrar-me nos pulmões. O corpo doía-me como se tivesse caído duma falésia. Estava abafado... encontrava-me dentro de uma caixa de madeira lustrosa. Um caixão. Foi então que relembrei o que se tinha passado, a minha morte e a tua por momentos pareceram apenas sonhos subtis de noites agitadas. Mas não... a morte apaixonou-se por nós e levou-te de mim. Sem luar adormeço...

Publicado por Conde em 02:51 AM | Comentários (1)

agosto 21, 2003

Cartas de Um Morto I

Lembras-te de quando morremos? A vida passou por nós como se fosse uma bala, atravessando tudo e todos no seu trajecto de infortúnio. A sua cor dourada ainda me encandeia os pensamentos... Sempre que fecho os olhos ainda consigo ver o teu rosto à medida que a bala atravessava o teu frágil coração. Como eu amo ver o desespero nos teus olhos... ver-te perder suavemente a vida, sentir no peito o teu último fôlego. Dá-me vontade de juntar-me a ti e perdermos a vida em simultâneo, lentamente partilharmos o último fôlego com um leve beijo. Outra bala... outra vida. O meu rosto empalideceu, as veias desenharam fendas azuladas na minha face e os meus olhos insistentemente focados nos teus já sem vida, branquearam... Caí sobre o teu ventre e agonizei com a carícia esmagadora da bala no meu peito... os sentidos abandonaram-me.

Publicado por Conde em 12:58 PM | Comentários (0)

Desorientação

"Há um odor pastoso a cera e a defunto, inspiro fundo à maresia do largo mar. Ouço-o na minha confusão, olho na serra de Sintra o sinal inaugural do amanhecer. E é como se uma esperança violenta, erguida por sobre a ruína e a desorientação e o abandono. Sê calmo. De todo o modo, a vida continua. De todo o modo. Estás vivo, é inegável. Sê em ti a verdade da vida, que é a única verdadeira. Mais nada. Mais nada."

Vergílio Ferreira
(In Até ao Fim)

Publicado por Conde em 04:12 AM | Comentários (1)

agosto 20, 2003

Baudelaire et la Presidente Sabatier


Baudelaire et la Presidente Sabatier

Publicado por Conde em 11:59 PM | Comentários (0)

Passividade

"Ainda que fôssemos surdos e mudos como uma pedra, a nossa própria passividade seria uma forma de acção"

Jean-Paul Sartre

Publicado por Conde em 02:03 AM | Comentários (2)

agosto 19, 2003

Carícias

"...sentir a aragem que balança os dependurados ...é o medo o que nos vem acariciar."

Mão Morta
(in "Tu Disseste")

Publicado por Conde em 03:24 PM | Comentários (1)

Equilíbrio

Iniciem a busca ao fundo pela verdadeira essência de quem somos. O fundo é banhado pela ausência de luz, basta esperar que os olhos se habituem. Muitos receiam os lados negros de tudo na vida... muitos nem sequer acreditam que de um fundo tão escuro possa sair algo de belo. A esses digo... venham comigo nesta noite profunda e escura, a noite que tanto temem por vos provocar arrepios. Parem! Olhem à vossa volta, o medo que sentem passa por vós como se fosse nevoeiro. Agora olhem para o céu... e contemplem o mais belo luar que este terror vos pode oferecer... será tudo assim tão mau?

Publicado por Conde em 03:00 AM | Comentários (1)

Inocência

"Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência."

Ricardo Reis

Publicado por Conde em 02:40 AM | Comentários (0)

agosto 18, 2003

Elegância

"Elegância é a arte de não se fazer notar, aliada ao cuidado subtil de se deixar distinguir."

Paul Valery

Publicado por Conde em 08:59 PM | Comentários (2)

agosto 17, 2003

Evolução

"Fizestes o caminho de verme até homem. Mas muito de vós ainda é verme!"

Nietzsche
(in Assim Falava Zaratustra)

Publicado por Conde em 01:25 PM | Comentários (2)

agosto 16, 2003

Um poema de Edgar Allan Poe. Clike em baixo para ler "Só".

Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como os outros viam.
Minhas paixões não tirava de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto que acordava
meu coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sózinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se no bem, no mal,
de cada abismo, o meu mistério.
Veio dos rios, das fontes,
de rubra escarpa da montanha,
do sol que me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alterava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
ante meus olhos, como um demónio.

Edgar Allan Poe

Publicado por Conde em 03:44 PM | Comentários (0)

Sem Esperança

"Todo o esforço é um crime porque todo o gesto é um sonho morto."

Fernando Pessoa
(In Livro do Desassossego)

Publicado por Conde em 03:34 PM | Comentários (0)

Tédio

"Enrolar o mundo à roda dos nossos dedos, como um fio ou uma fita com que brinque uma mulher que sonha à janela.
Resume-se tudo enfim em procurar sentir o tédio de modo que ele não doa.
Seria interessante poder ser dois reis ao mesmo tempo: ser não a uma alma deles dois, mas as duas almas."

Fernando Pessoa
(In Livro do Desassossego)

Publicado por Conde em 03:31 PM | Comentários (0)

Regresso

Depois desta semana de inactividade e muitas horas de insónias e delírios nas noites de Vilamoura, O Lado Negro das Palavras regressa com mais inspiração e uma alma totalmente renovada de ideias e histórias para contar, pequenas "carícias malícias" que oferecemos ao ego...

Publicado por Conde em 01:25 PM | Comentários (1)

agosto 09, 2003

Férias!

O Lado Negro das Palavras vai ficar inactivo durante uma semana. Até sábado!

Publicado por Conde em 10:48 AM | Comentários (0)

Apenas Existir

Saí pela rua fora. Passei por todas as ruas, olhei para todas as caras... o vazio exibia-se no olhar de todos e os meus pensamentos começaram-me a atormentar a alma. Já contava com o grande impacto de ideias, mas surpreendentemente apenas me surgiu leve pensar...tão leve que parecia uma uma pétala a tombar sobre veludo. Após analisar a cara e a expressão de todos os que comigo cruzaram o olhar, pensei o quanto raro será hoje em dia viver. A maioria das pessoas apenas existe...

Publicado por Conde em 04:38 AM | Comentários (2)

Citação III

"O homem morre a primeira vez quando perde o entusiasmo."

Balzac

Publicado por Conde em 02:26 AM | Comentários (0)

agosto 08, 2003

...

Metáfora para um momento desaparecido...

Publicado por Conde em 08:02 PM | Comentários (2)

Desassossego

Por vezes, coisas tão pequenas e insignificantes, conseguem arruinar o sossego de qualquer mente. Parece que às vezes o melhor mesmo é não sentir nem pensar nada... Ocupar a mente com outros pensamentos que valham realmente a pena e me façam sentir apenas o que quero.

Publicado por Conde em 07:51 PM | Comentários (0)

Morte

"Desejei-te de volta, mas os mortos adoraram-te..."

Daniel Davey

Publicado por Conde em 02:35 PM | Comentários (1)

A Beatriz

Mais um excelente poema de Charles Baudelaire. Clike em baixo para ler "A Beatriz".

A BEATRIZ

Num solo hóstil, crestado e cheio de aspereza,
Enquanto eu me queixava um dia à natureza,
E de meu pensamento ao acaso vagando
Fosse o punhal no coração sem pressa afiando,
Em pleno dia eu vi, sobre a minha cabeça,
Prenúncio de borrasca, uma nuvem espessa,
Trazendo um bando de demónios maliciosos,
Semelhantes a anões perversos e curiosos.
Entreolham-se a mirar-me, aguda e friamente,
E, como o povo que na rua olha um demente,
Eu pois via rir, entre si cochichando,
Piscando os olhos e também sinais trocando:

"Contemplemos em paz essa caricatura
Que do fantasma de Hamlet imita a postura,
Os cabelos ao vento e o ar sempre hesitante.
Não causa pena ver agora esse farsante,
Esse idiota, esse histrião ocioso, esse indigente,
Que seu papel de artista ensaia à nossa frente,
Querer interessar, cantando as suas dores,
Os grilos, os falcões, os córregos e as flores,
E mesmo a nós, que concebemos esses prólogos,
Aos berros recitar na praça os seus monólogos?"

Com meu orgulho sem limite, eu poderia
Domar a nuvem dos anões em gritaria,
Deles desviando a fronte esplêndida e serena,
Caso não visse erguer-se, em meio à corja obscura
- Crime que até a própria luz do sol abala! -
A deusa a cujo olhar outro nenhum se iguala,
Que com eles de minha angústia escarnecia,
E às vezes um afago imundo lhes fazia.


Charles Baudelaire
(Tradução de Ivan Junqueira)

Publicado por Conde em 03:02 AM | Comentários (1)

agosto 07, 2003

Saudades

Cada segundo que passa, escorre-me pela fronte. Vejo horas em todo o lado, a contagem decrescente começou... vou ter de me recalcar de novo num cantinho da alma e esperar pacientemente pelo retorno. É angustiante ter de aturar nestes dias de ausência que se aproximam, a alegria e jubilo dos outros e até mesmo de mim próprio. Nestas alturas nem me reconheço... é como se corrompesse todos os meus ideiais e princípios, é como se me juntasse ao inimigo... Mas não vou lutar contra o meu instinto. Depois de toda esta solidão que me inundou, parece tudo estar a terminar... e apesar de ter amaldiçoado estes dias, parece que já sinto saudades deles e ainda nem sequer parti...

Publicado por Conde em 08:55 PM | Comentários (3)

Nada a Perder

"Há sempre uma garrafa a beber e uma mulher para amar, quando nada se tem a perder."

Mão Morta
(In "Nada a Perder")

Publicado por Conde em 05:08 PM | Comentários (0)

Murmúrios

Perdi de vista a alma que andava à solta nesta casa. Sem ela tudo entristece, perco a companhia das madrugadas em frente ao monitor a tentar escrever algo que esteja de acordo com os gritos silenciosos do meu coração. Mas a profundidade da atmosfera que rodeia a casa é espessa demais para ver lá fora. Não te vou procurar ó alma. E eu sei que voltas a tempo de me acompanhares no sono agitado pelo leve ruído da floresta a murmurar o meu nome...

Publicado por Conde em 03:38 AM | Comentários (2)

Arrastando o Seu Cadáver

"É demencial, não há palavras que consigam dizer o horror. Vi um pobre homem agarrado ao que restava da sua mulher, errando pela baixa. Os olhos fixos num horizonte perdido. Sem uma palavra. Sem um som. Arrastando a carcassa desfigurada por entre o trânsito do fim da tarde. Passei sem conseguir dizer nada. Ninguém dizia nada. O silêncio, acompanhava o olhar vazio, a dor.
A vaguear por entre as ruínas e o trânsito do fim da tarde. As pessoas apressavam-se por causa do cair da noite. E o pobre homem seguia um destino sem rumo, arrastando o seu cadáver. Ninguém dizia nada. O silêncio acompanhava o olhar vazio, a dor."

Mão Morta
(In "Arrastando o seu cadáver")

Publicado por Conde em 03:06 AM | Comentários (1)

agosto 06, 2003

Inferno

"E se a Terra for o inferno de outro planeta?"

Aldous Huxley

Publicado por Conde em 06:33 PM | Comentários (7)

Poemas

"Os sistemas caem, os cultos desfazem-se.
Só os poemas parecem cada vez mais jovens e
mais belos sob os beijos fatais do tempo."

Antero de Quental

Publicado por Conde em 06:26 PM | Comentários (1)

Náusea

"Náusea. Vontade de nada.
Existir por não morrer.
Como as casas têm fachada,
Tenho este modo de ser."

Fernando Pessoa

Publicado por Conde em 06:08 PM | Comentários (1)

A Porta

A eternidade de uma porta que separa duas dimensões... e que esconde um destino questionável. Clike em baixo para ler "A Porta".

Eu sou a tua porta,
Morta!
Porque me deixaste de olhar como tal,
Por mim entras, por mim sais,
E nem me raparas...
Como me tornei banal.

Eu sou a tua porta,
Morta!
Porta castanha,
Tamanha!
Porta ferrugenta,
Barulhenta!

Usam-me constantemente,
Para fugir de momentos
Ou agarrá-los meticulosamente,
Mas ignoram os meus ornamentos,
Que eu sustentei orgulhosamente.

Todos morreram,
Alguns desapareceram,
Tudo passa!
Só eu fico,
Permaneço,
Entre as brancas paredes
Que investem contra a minha madeira de cedro,
Sem luar adormeço.

Pára!!!

Olha-me como da primeira vez,
Saboreia-me lentamente sem mastigar,
Eu sou o teu portal do tempo,
E o tempo nunca há-de parar.

Por isso, não me atravesses,
Como se eu não estivesse...
Estaca no meu interior,
E toca-me suavemente...
Como se palavras de amor,
Eu te dissesse.

Eu sou a tua porta,
Morta!


Conde 11/07/2001

Publicado por Conde em 05:28 PM | Comentários (1)

Vazio

Só queria poder tocar, sentir, respirar este vazio que me habita e me deixa exausto de nada. Passam os dias, passam as noites... e eu estagnado fico. O vazio dança em torno de mim sempre que a solidão me visita, procurando pela essência duma alma perdida numa garrafa de absinto...

Publicado por Conde em 03:00 AM | Comentários (5)

agosto 05, 2003

Prazer

"Nenhum homem é hipócrita nos seus prazeres."

Albert Camus

Publicado por Conde em 03:23 AM | Comentários (1)

agosto 04, 2003

Poeta

Outra vez... preenche-me uma vaga de falta de inspiração. Tento escrever mas por muito que esforçe o pensamento ele teima em permanecer atrofiado. Talvez precise de solidão, só assim me conseguiria concentrar. Mas as minhas veias clamam por ti... o meu sangue evapora-se no teu. Os meus lençóis sussurram o teu nome constantemente durante o meu sono. O teu cheiro sufoca-me sensualmente. Agora estar sózinho é mesmo estar sózinho... e já nem isso suporto com o ânimo de outros tempos. Ao menos eu fosse poeta, porque poeta é aquele que se consegue dividir para nunca sózinho estar.

Publicado por Conde em 12:34 PM | Comentários (2)

Solidão

"A solidão é o destino de todos os espíritos eminentes."

Schopenhauer

Publicado por Conde em 05:11 AM | Comentários (2)

agosto 03, 2003

Eternidade

"Como se fosse possível matar o tempo sem ferir a eternidade."

Thoreau

Publicado por Conde em 12:50 PM | Comentários (3)

O Corvo

Edgar Allan Poe foi o autor deste poema e Fernando Pessoa traduziu-o para a nossa língua.

O Corvo

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
«Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais.
É só isso e nada mais.»

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão) a amada, hoje entre hostes celestiais —
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,
«É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isso e nada mais».

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
«Senhor», eu disse, «ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi...» E abri largos, franquendo-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isto só e nada mais.

Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
«Por certo», disse eu, «aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.»
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
«É o vento, e nada mais.»

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
«Tens o aspecto tosquiado», disse eu, «mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.»
Disse-me o corvo, «Nunca mais».

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome «Nunca mais».

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, «Amigo, sonhos — mortais
Todos — todos lá se foram. Amanhã também te vais».
Disse o corvo, «Nunca mais».

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
«Por certo», disse eu, «são estas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este «Nunca mais».

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele «Nunca mais».

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-me então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
«Maldito!», a mim disse, «deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

«Profeta», disse eu, «profeta — ou demónio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

«Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!, eu disse. «Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demónio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,
E a minh'alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!


Edgar Allan Poe
(Tradução de Fernando Pessoa)

Publicado por Conde em 12:14 PM | Comentários (1)

agosto 02, 2003

Citação II

"Das profundezas do desespero surge o início da grandeza."

Publicado por Conde em 01:08 PM | Comentários (2)

Rosa Negra

A subtileza duma flor, com a dor dos seus espinhos e a melancolia trazida pelo vento provocado pelas palavras deste poema... Clike em baixo para ler "Rosa Negra".

Rosa Negra

Sem ter o céu como limite,
ter a lua como iluminação,
nos teus braços paralizo,
sinto as lagrimas deslizar!

E caio onde não sei...

Restam-me as asas partidas que tu moldaste.
sem nunca mais aterrar,
tou num poço sem fundo
que só termina ao acordar
com um tilintar das tuas lágrimas,
sobre a pedra da minha sepultura.

Por baixo da pedra fria...
jaz o meu corpo inerte,
ressequido pelos anos que não te tive.
A rosa negra que puseste na minha mão...
chora as suas pétalas
sobre os vermes que me devoram incessantemente.

Agora espero na morte,
encontrar o conforto que senti nas tardes de inverno,
deitado sobre o teu ventre,
fazendo-te carícias no cabelo...
olhando para os teu olhos e vendo que respiravas com dificuldade,
o amor que eu tinha para te dar...

Conde 3/5/2003

Publicado por Conde em 01:06 PM | Comentários (1)

agosto 01, 2003

Revelações

Todo o peso que me cansava a alma nestes últimos dias abandou-me, como se nunca tivesse lá estado. Já consigo sentir tudo outra vez. Recuperei a sensibilidade. Ao olhar pela janela já te consigo ver, espalhando o teu sorriso com o leve passar do vento num calor de tarde infernal. No entanto, eu estou aqui entre estas quatro paredes, evitando o sol e o calor que me deixam tonto, e tu la fora sózinha a passear à minha espera. Paro para pensar num minuto eterno e apercebo-me que todos os erros que cometi, flutuam em torno da janela do meu quarto... e por estar sempre fechada devido ao sol...eu não os via. Subitamente num impulso frenético visto-me, saio e vou ter contigo lá fora... Estendemos-nos na relva dum jardim. Estava o calor abafado de uma tarde infernal...fiquei tonto, mas aconcheguei-me no teu colo e tudo passou...

Publicado por Conde em 12:31 PM | Comentários (3)

Citação

"Só os peixes mortos seguem o curso do rio."

Publicado por Conde em 02:30 AM | Comentários (4)