setembro 20, 2003

Hibernação

Apenas o passar do vento me desperta sem querer. Ocupado demais... permaneço aqui sem conseguir encontrar algo para extrair do meu cerne. O lado negro permanece à espera de um sopro de solidão para viver...

Publicado por Conde em 12:51 AM | Comentários (4)

setembro 19, 2003

Vento Frio

Vento Frio é um conto de H.P. Lovecraft, o génio da literatura gótica. Mais uma história para acrescentar aos Contos Para Esquecer.

Vento Frio

PERGUNTAS-ME por que receio as rajadas de vento frio; por que tremo mais que as pessoas comuns ao entrar num aposento gélido e sinto náusea e repulsa quando a friagem da noite se insinua, furtiva, pelo calor de um suave dia de outono. Há quem diga que eu reajo ao frio de modo semelhante ao que outros reagem ao fedor, e serei o último a desmentir essa impressão. O que farei será relatar a situação mais horripilante em que já me encontrei e deixar a ti a tarefa de julgar se ela representa ou não urna explicação satisfatória para essa minha esquisitice.
É falso imaginar que o horror esteja associado indissoluvelmente com o negrume, o silêncio, a solidão. Eu o conheci no esplendor fulgurante de urna tarde de sol, em meio ao clangor da metrópole e no ambiente apinhado de uma pobre e comuníssima casa de pensão, tendo a meu lado uma senhoria prosaica e dois homens robustos. Em meados de 1923, eu conseguira um emprego enfadonho e pouco rendoso numa revista, em Nova Iorque; e na impossibilidade de pagar o aluguel de uma moradia decente, comecei a vagar de uma pensão barata para outra, em busca de um quarto que combinasse as qualidades de limpeza adequada, mobiliário tolerável e preço bastante módico. Constatei, antes que passasse muito tempo, que só me restava optar entre diferentes males; entretanto, pouco depois dei com uma casa na Rua 14 Oeste que me repugnava muito menos do que as outras que eu havia experimentado.
Era uma mansão de grés pardo, com quatro pavimentos, que datava aparentemente de fins da década de 1840, com mármores e madeirames cuja magnificência enodoada e manchada lembrava que no passado o prédio conhecera altos níveis de elegante opulência. Os quartos, amplos e de enorme pé-direito, decorados com um papel de parede inacreditável e com cornijas ridiculamente complicadas, tinham um deprimente bafo de bolor, bem corno um vago cheiro de cozinha; entretanto, o chão era limpo, a roupa de cama bastante aceitável e a água quente nem sempre estava fria ou desligada, de modo que vim considerar a casa como um lugar pelo menos suportável para hibernar até poder realmente voltar a viver. A senhoria, uma espanhola desmazelada e quase barbada, chamada Herrero, não me amolava com mexericos ou reclamações a respeito da luz que eu deixava acesa até tarde em meu quarto, no terceiro andar, dando para a rua; e os demais pensionistas eram tão sossegados e calados quanto se poderia desejar. Eram na maioria espanhóis, só um pouco acima do nível mais grosseiro e ínfimo. O único motivo realmente sério de aborrecimento era o ruído dos bondes na rua.
Eu já estava residindo ali bem umas três semanas quando ocorreu o primeiro incidente insólito. Certa noite, por volta das oito horas, escutei um barulho como que de líquido que caísse no chão, e de repente me dei conta que já fazia algum tempo que o ar estava impregnado de um penetrante odor de amônia. Olhando em torno, vi que o teto estava molhado e gotejante; parecia que a infiltração provinha de um canto do lado que dava para a rua. Ansioso por cortar o mal pela raiz, desci depressa para falar à senhoria, que me garantiu que o problema seria logo resolvido.
- El doctor Muñoz - comentou ela, subindo as escadas correndo, em minha frente - deve ter derramado seus produtos químicos. Está fraco demais para cuidar de si próprio... cada vez mais fraco... pero no tiene nadie que pueda ayudarlo. E muito esquisito com essa doença dele... toma banhos de cheiros estranhos o dia inteiro, nem pode ficar nervoso ou sentir calor. Ele mesmo arruma o quarto... o quartinho dele vive cheio de garrafas e máquinas e ele não pratica mais a medicina. Mas antigamente ele foi famoso... mi padre ouviu falar dele em Barcelona... e há poco tiempo tratou o braço do bombeiro que cuida do encanamento e que começou a doer de repente. Ele nunca sai, só vai até o terraço, e mi hijo, Esteban, traz, para ele comida, roupa limpa, remédios e produtos químicos. Diós, a quantidade de sal amoníaco que esse hombre usa para se refrescar!
A Sra. Herrero desapareceu pela escada do quarto andar e eu voltei para meu quarto. A amônia parou de pingar e eu sequei a que havia caído. Enquanto abria a janela para arejar o cômodo, ouvi os passos pesados da senhoria no andar de cima. Quanto ao Dr. Muñoz, eu nunca havia escutado seus passos, lentos e macios. Só havia escutado um ruído que parecia ser o de um mecanismo com motor a gasolina. Fiquei a imaginar, por um momento, qual poderia ser a estranha enfermidade desse homem e se sua recusa obstinada em aceitar auxílio não resultaria de uma excentricidade infundada. Lembro-me de ter tido um pensamento banal, o de quanto é patética a situação de urna pessoa eminente que decaiu socialmente.
Talvez eu jamais viesse a conhecer o Dr. Muñoz se não fosse o ataque cardíaco que de repente me acometeu numa tarde em que eu estava escrevendo em meu quarto. Médicos haviam-me falado do perigo que representam tais crises, e eu sabia que não havia tempo a perder; por isso, ao me recordar do que a senhoria tinha dito sobre a ajuda que o inválido prestara ao bombeiro, arrastei-me pela escada e bati debilmente à porta do quarto que ficava em cima do meu. Minha batida foi respondida em bom inglês por uma voz curiosa, mais ou menos à direita, que me indagou o nome e profissão. Uma vez respondidas as perguntas, abriu-se um pouco a porta ao lado daquela em que eu batera.
Recebeu-me uma lufada de ar frio; e embora o dia fosse um dos mais tórridos do fim de junho, tive um estremecimento ao transpor a porta e entrar num espaçoso apartamento, cuja decoração suntuosa e de bom gosto constituiu uma surpresa naquele ninho de penúria e miséria. Um sofá dobrável atendia, agora de dia, à sua função de sofá, e o mobiliário de mogno, o magnífico papel de parede, as pinturas antigas e as esplêndidas estantes de livros indicavam antes o estúdio de um fidalgo que um quarto de pensão. Percebi então que o quarto que ficava sobre o meu - o quartinho com garrafas e máquinas, mencionado pela Sra. Herrero - era simplesmente o laboratório do doutor e que seus aposentos principais ficavam naquele amplo apartamento adjacente, cujas alcovas corretas e o grande quarto de banho lhe permitia ocultar toda roupa e objetos gritantemente utilitários. O Dr. Muñoz, evidentemente, era um homem com berço, cultura e excelente gosto.
A figura que eu tinha diante de mim era a de um homem baixo, mas muito bem proporcionado, trajado numa indumentária um tanto formal, de corte e feitio perfeitos. Um rosto bem-feito, de expressão senhoril, mas em nada arrogante, tinha a orná-lo uma barba aparada e um pouco grisalha, enquanto um pincenê antiquado se antepunha a olhos grandes escuros, equilibrando-se num nariz aquilino que dava um toque mourisco a urna fisionomia em tudo mais marcadamente celtibérica. Uma cabeleira basta e bem-tratada, que indicava visitas regulares de um barbeiro, partia-se com muita elegância sobre a testa alta. E toda a impressão que aquele vulto transmitia era de acentuada inteligência, origens nobres e excelente educação.
Não obstante, ao contemplar o Dr. Muñoz naquela lufada de ar frio, fui tomado de uma repugnância que nada em seu aspecto poderia justificar. Somente sua tez, que se inclinava à palidez e a frieza do toque de sua mão poderiam ter dado uma base física a essa sensação, porém mesmo essas coisas teriam de ser relevadas, dada a notória invalidez do homem. É ainda possível que tenha sido aquele frio singular que me indispôs, pois tamanha gelidez era anormal num dia tão quente, e o anormal sempre desperta aversão, suspeita e temor.
No entanto, a repulsa logo cedeu lugar à admiração, uma vez que a extrema perícia daquele estranho médico se manifestou incontinenti, a despeito da algidez e do tremor de suas mãos exangues. A um olhar ele compreendeu minhas necessidades, atendendo-as com habilidade de mestre; enquanto me assistia, consolava-me com voz harmoniosamente modulada, embora inusitadamente oca e sern timbre, assegurando-me ser o mais implacável dos inimigos da morte, e que havia dissipado sua fortuna e perdido todos os amigos numa vida inteira de experiêcias extravagantes, dedicadas à repressão e extirpação de tamanho flagelo. Parecia haver nele um certo fanatismo benevolente, e ele não cessava de divagar, quase garrularnente, enquanto me auscultava o peito e preparava uma beberagem de drogas trazidas de seu pequeno laboratório. Era evidente que a companhia de uma pessoa bem-nascida representava para ele uma rara novidade naquele ambiente de indigência e o levava a uma desusada loquacidade, ao ser empolgado por recordações de dias melhores.
Sua voz, embora estranha, era ao menos apaziguadora; e eu não percebia sequer o som de sua respiração enquanto ele pronunciava aqueles longos períodos, tão cheios de lhaneza. O doutor procurava afastar meus pensamentos da crise cardíaca, discorrendo sobre suas teorias e experiências. Lembro-me bem do tato com que ele procurou consolar-me da debilidade de meu coração, insistindo em que a vontade e a consciência são mais fortes do que a própria vida orgânica, de forma que se urna organização física for originalmente saudável e preservada com cuidado pode, mediante um realce cientifico dessas qualidades, reter uma espécie de animação nervosa, apesar das mais sérias lesões, defeitos ou mesmo ausências no conjunto de órgãos específicos. Algum dia, dis-se-me ele meio a brincar, poderia me ensinar a viver (ou ao menos manter alguma espécie de existência consciente) até mesmo sem coração! Quanto a si, afligia-o uma série de enfermidades que exigiam um regime rigorosíssimo, que incluía o frio constante. Qualquer elevação marcada da temperatura poderia, caso se prolongasse, afetá-lo de maneira fatal; e a frialdade de sua moradia, cerca de 13º centígrados, era mantida por um sistema absorvente de arrefecimento a amônia. As bombas do sistema eram impulsionadas pelo motor a gasolina que eu já escutara de meu quarto.
Aliviado de minha crise num tempo maravilhosamente breve, deixei aqueles aposentos frígidos como discípulo e servidor do talentoso recluso. Depois disso, fiz-lhe várias visitas, devidamente agasalhado. Ouvia-lhe o relato de pesquisas secretas e resultados quase espantosos, e estremecia um pouco ao examinar os volumes incomuns e inacreditavelmente antigos em suas estantes. Por fim, convém acrescentar, fiquei quase curado para sempre de minha doença, devido à sua terapia tão efetiva. Ao que parece, ele não desdenhava os encantamentos dos medievalistas, porquanto acreditava que essas fórmulas crípticas contivessem raros estímulos psicológicos, que poderiam, concebivelmente, exercer efeitos singulares na substância de um sistema nervoso que tivesse sido abandonado pelas pulsações orgânicas. Comoveu-me o que ele contou sobre o idoso Dr. Torres, de Valência, que compartilhara com ele suas primeiras experiêcias, e que cuidara dele por ocasião da grave enfermidade que o acometera dezoito anos antes, e da qual procedia sua atual debilitação. Pouco depois de haver o venerando facultativo salvo o colega, ele próprio sucumbira ao horrendo inimigo que combatera. Possivelmente o esforço tivesse sido excessivo; o Dr. Muñoz deixou claro, em sussurros (conquanto não descesse a minúcias), que os métodos de cura haviam sido excepcionalíssimos, envolvendo cenas e processos desaprovados por galenos idosos e conservadores.
Com o passar das semanas, observei com pesar que, com efeito, meu novo amigo estava, lenta mas inequivocamente, perdendo suas forças, tal como sugerira a Sra. Herrero. O aspecto lívido de sua fisionomia se intensificava, a voz se fazia mais vazia e indistinta, seus movimentos musculares mostravam menor coordenação, seu espírito e sua força de vontade revelavam menos fortaleza e iniciativa. Não parecia ele de modo algum desatento a essa triste transformação, e pouco a pouco tanto sua expressão quanto sua conversa foram adquirindo uma ironia desagradável que restaurou em mim a repulsa sutil que eu havia sentido de início.
Ele foi cultivando caprichos esquisitos, afeiçoando-se a especiarias exóticas e incenso egípcio até que seu quarto recendia como a tumba de um faraó no Vale dos Reis. Ao mesmo tempo, aumentava seu desejo de ar frio, e com minha ajuda ele ampliou a tubulação de amônia de seu quarto e modificou o sistema de bombas e a alimentação de sua máquina de refrigeração, até conseguir manter a temperatura entre 1º e 4,5º centígrados e, finalmente, na casa de 2º centígrados negativos. O banheiro e o laboratório, naturalmente, eram menos frios, para que a água não se congelasse no encanamento e os processos químicos não se vissem prejudicados. O inquilino do cômodo ao lado do dele queixou-se do ar gélido que entrava pela porta de ligação; por isso, ajudei o doutor a instalar re-posteiros pesados, que mitigassem o problema. Uma espécie de horror crescente, de feitio bizarro e mórbido, parecia possuí-lo. Ele falava da morte sem cessar, mas ria cavamente quando coisas como providências fúnebres ou de sepultamento eram obliquamente sugeridas.
De maneira geral, ele se converteu em companhia desconcertante e até repelente. Contudo, por gratidão ao modo como ele me curara, eu não me dispunha a abandoná-lo aos estranhos que o cercavam, e tinha o cuidado de espanar-lhe o quarto e atender às suas necessidades de cada dia, metido num sobretudo pesado que eu havia comprado especialmente para esse fim. Da mesma forma, eu fazia grande parte de suas compras e observava com assombro alguns dos produtos químicos que ele encomendava a farmacêuticos e fornecedores de laboratórios.
Uma crescente e inexplicada atmosfera de pânico parecia avolumar-se em seu apartamento. Toda a casa, como já foi dito, recendia a bolor; entretanto, o odor em seu apartamento era pior e, apesar de todas as especiarias e do incenso, bem como dos acres produtos químicos dos banhos (agora contínuos) que ele insistia em tomar sem ajuda, percebi que o cheiro deveria estar ligado à sua enfermidade, e tive um calafrio ao refletir sobre qual poderia ser. A Sra. Herrero persignava-se ao olho e deixou-o de bom grado aos meus cuidados, sem nem mesmo permitir que o filho, Esteban, continuasse a lhe prestar serviços. Quando eu sugeria que ele buscasse o auxílio de outros médicos, o inválido revelava fúria, tão grande quanto ele parecia atrever-se a demonstrar. Era evidente que ele receava o efeito físico da emoção violenta, e no entanto sua força de vontade e seus ímpetos antes se fortaleciam que minguavam, e ele se recusava a guardar o leito. A lassidão dos primeiros tempos de sua enfermidade deu lugar a um retorno de sua disposição fogosa, de modo que ele parecia arremessar reptos ao rosto do demônio da morte no momento mesmo em que esse antigo inimigo se apossava dele. A simulação do comer, que sempre fora, curiosamente, quase um formalismo, foi praticamente abandonada; e somente a força mental parecia protegê-lo do colapso total.
Adquiriu ele o hábito de redigir longos documentos que cuidadosamente lacrava e cercava de recomendações para que eu os transmitisse, após sua morte, a certas pessoas por ele nomeadas - na maioria letrados das Índias Orientais, mas entre as quais havia um outrora famoso médico francês, hoje em geral tido como morto, e a respeito de quem as coisas mais inconcebíveis haviam sido murmuradas. Quero dizer desde logo que queimei todos esses papéis, sem entregá-los nem abrí-los. Seu aspecto e sua voz se tomaram assustadores ao extremo, e sua presença quase insuportável. Num certo dia de setembro, ao vê-lo de relance, um homem que tinha vindo consertar sua lâmpada elétrica de mesa foi tornado de uma crise epiléptica, crise essa para a qual o doutor prescreveu remédios eficientes, enquanto se mantinha longe da vista. Aquele homem, é bom que se diga, havia passado pelos horrores da grande guerra sem haver sucumbido a um susto tão medonho.
Foi então que, em meados de outubro, sobreveio, com subitaneidade estarrecedora, o horror dos horrores. Numa noite, mais ou menos às onze horas, a bomba da máquina refrigeradora quebrou-se, de forma que dentro de três horas o processo de resfriamento amoniacal se tornou impossível. O Dr. Muñoz chamou-me, batendo com os pés no chão, e pus-me a trabalhar desesperadamente para reparar o dano, enquanto meu anfitrião praguejava num tom cuja cavidade inerte e impetuosa foge a qualquer descrição. Não obstante, meus esforços amadorísticos foram baldados; tendo ido buscar um mecânico de uma garagem vizinha, que ficava aberta a noite toda, ficamos sabendo que nada poderia ser feito até de manhã, quando um novo pistão teria de ser adquirido. A indignação e o medo do ermitão moribundo, elevando-se a proporções grotescas, parecia ser de molde a destruir o que restava de seu físico fraquejante; e em certo momento um espasmo fez com que ele levasse as mãos aos olhos e corresse ao banheiro. Saiu dali tateando o caminho, com o rosto envolvido em bandagens, e nunca mais lhe vi os olhos.
O frio do apartamento diminuía agora sensivelmente, e ao dar as cinco da manhã o médico retirou-se para o banheiro, ordenando-me que o mantivesse abastecido com todo o gelo que eu pudesse obter em farmácias e bares. Ao voltar de minhas excursões, às vezes desencorajadoras, e deitar o que havia conseguido junto à porta do banheiro, eu escutava um contínuo espadanar de água lá dentro, enquanto uma voz grossa pedia "Mais... mais!" Por fim, raiou um dia quente, e uma a uma as lojas se abriram. Pedi a Esteban que ajudasse com o provisionamento de gelo enquanto eu ia adquirir o pistão da bomba, ou que encomendasse o pistão enquanto eu continuava a buscar gelo; no entanto, instruído pela mãe, ele se recusou peremptoriamente a ajudar.
Por fim, contratei um vadio de aspecto miserável que encontrei na esquina da Oitava Avenida para manter o paciente abastecido de gelo, trazido de uma lojinha onde o apresentei, e me entreguei, diligente, à tarefa de localizar um pistão de bomba e de contratar operários que soubessem instalá-lo. A tarefa parecia quase interminável, e fui tomado de ira quase tão violenta quanto a do ermitão ao ver as horas se escoando num ciclo infatigável de telefonemas infrutíferos, de correrias de um lado para outro, indo ali e acolá' de metrô e transporte de superfície. Mais ou menos ao meio-dia encontrei um fornecedor satisfatório numa rua remota do centro da cidade, e aproximadamente à 1:30 da tarde cheguei à pensão com as peças necessárias e dois mecânicos fortes e inteligentes. Eu havia feito tudo quanto me fora possível e esperava chegar em tempo.
O negro terror, no entanto, me precedera. A pensão se transformara numa casa de orates, e sobre as vozes aterradas escutei um homem rezando com voz gravíssima. Havia pelo ar um quê de diabólico e os inquilinos rezavam o rosário com maior vigor ao sentirem o cheiro que exalava por baixo da porta fechada do médico. O vagabundo que eu contratara, ao que parece, havia fugido aos gritos e de olhos esbugalhados pouco depois de haver feito sua segunda entrega de gelo, talvez corno resultado de excessiva curiosidade. Não podia, está claro, trancar a porta ao sair; no entanto, agora ela estava fechada, presumivelmente por dentro. Não se ouvia som algum, com exceção de uma espécie indefinível de vagaroso e denso gotejar.
Depois de consultar a Sra. Herrero e os trabalhadores, e apesar do medo que me corroía a alma, opinei que deveríamos arrombar a porta; todavia, a senhoria descobriu uma maneira de virar a chave pelo lado de fora, com auxílio de um arame. Havíamos previamente aberto as portas de todos os outros quartos naquele corredor, além de descerrado as janelas até em cima. Agora, protegendo os narizes com lenços, invadimos, trêmulos, o amaldiçoado quarto, que resplendia com o sol quente do começo da tarde.
Uma espécie de trilha escura e lodosa levava da porta aberta do banheiro até a porta do corredor, e dali à escrivaninha, onde uma pocinha horrorosa se acumulara. Havia ali alguma coisa rabiscada a lápis, como que por um cego trêmulo, num pedaço de papel nojentamente manchado, ao que parecia pelas próprias garras que haviam traçado as apressadas palavras finais. Depois a trilha conduzia ao sofá e terminava de um modo que não pode ser descrito.
O que estava, ou tinha estado, no sofa não posso nem ouso dizer aqui. Mas eis o que decifrei no papel pegajosamente manchado, antes de riscar um fósforo e reduzí-lo a cinzas; o que decifrei tornado de pânico, enquanto a senhoria e os dois mecânicos saíam em disparada daquele lugar infernal para ir relatar suas histórias incoerentes na delegacia de polícia mais próxima. As palavras nauseantes pareciam quase inacreditáveis naquele fulgor amarelo de sol, com o matraquear de automóveis e caminhões que vinham subindo ruidosamente a Rua 14, mas, no entanto, confesso que acreditei nelas naquele momento. Se acredito agora naquelas palavras, honestamente não sei dizer. Existem coisas a respeito das quais é melhor não especular, e tudo quanto posso dizer é que detesto o cheiro de amônia e sinto-me desfalecer ante uma lufada de ar inusitadamente frio.
"O fim chegou", dizia o rabisco pestilencial. "Não haverá mais gelo... o homem olhou e correu. Fica cada vez mais quente e os tecidos não poderão durar mais. Imagino que saibas... o que eu disse sobre a vontade, os nervos e o corpo preservado depois que os órgãos cessassem de funcionar. Era uma boa teoria, mas não podia ser mantida indefinidamente. Houve uma deterioração gradual que eu não previra. O Dr. Torres sabia, mas o choque o matou. Não pôde suportar o que teria de fazer; tinha de me meter num lugar estranho e escuro, mas atentou à minha carta e me fez voltar, com seus cuidados. E os órgãos jamais voltariam a funcionar novamente. Tinha de ser feito à minha maneira (preservação artificial), pois vês: eu morri naquela época, há dezoito anos."

H.P. Lovecraft

Publicado por Conde em 11:58 PM | Comentários (1)

Frio Deslizante

Quando fecho os meus olhos... perco-te na escuridão em que mergulho. Quando fecho os meus olhos... ignoro o fumo, o nevoreiro que sinto entrar pela janela, animando as cortinas como pequenas dançarinas, quais borboletas esvoaçando por cima de mim. O frio desliza por elas como água num vidro e morre ao embater no teu corpo aquecido pelo meu... As velas com sua luz amedrontada apagam-se. Por momentos perco-te na escuridão, mas abandono essa sensação ao ver a brancura do teu corpo reflectida na perturbante lua...

Publicado por Conde em 11:07 PM | Comentários (0)

setembro 18, 2003

Citação XII

"A falha fatal em qualquer plano é presumir que se sabe mais que o inimigo."

Publicado por Conde em 09:59 AM | Comentários (1)

Manhãs Opacas

A noite que me despedaçou os ombros, já nao me traz mais o sol, nestas manhãs opacas, com insónias coladas nas paredes como pequenos quadros que trazem de volta tristes e solitárias recordações. Ignoro o fumo que rasteja debaixo de mim e deixo-me cair no vazio dos meus lençóis...

Publicado por Conde em 09:39 AM | Comentários (0)

setembro 14, 2003

Ponte de Tédio

"Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro."

Mário de Sá Carneiro

Publicado por Conde em 01:45 AM | Comentários (4)

Os Deuses e os Poetas

"Os Poetas antigos animaram todos os objectos sensíveis com deuses e génios, nomeando-os e adornando-os com os atributos de bosques, rios, montanhas, lagos, cidades, nações e tudo quanto os seus amplos e numerosos sentidos permitiam perceber.
E estudaram, em particular, o carácter de cada cidade e país, identificando-os segundo a sua deidade mental.
Até que se estabeleceu um sistema, do qual alguns se favoreceram, e escravizaram o vulgo com o intento de concretizar ou abstrair as deidades mentais a partir de seus objectos: assim comecou o sacerdócio;
Pela escolha de formas de culto das narrativas poéticas.
E proclamaram, por fim, que os deuses haviam ordenado tais coisas.
Desse modo, os homens esqueceram-se que todas as deidades residem no coração humano."

William Blake

Publicado por Conde em 01:36 AM | Comentários (2)

setembro 13, 2003

Porque Eu Comi Minha Mulher

Os Contos para Esquecer continuam, desta vez com uma história macabra escrita por Michael Gira.

-Porque Eu Comi Minha Mulher-

Eventualmente tudo se funde — tudo é orgânico. É impossível distinguir uma coisa da outra. Quando sua mente está esvaziada do egoísmo, ela se esmigalha e se dissolve na água. Se eu cortar meu corpo e concentrar corretamente, eu não sentirei nada. Cada vez que meu coração bate, ele estremece violentamente e açoita sem eixo, empurrando na base de meu cérebro. Memórias movem-se pela coagulada e putrefata floresta dentro de minha cabeça e esmagam o presente com seus pés. Minhas memórias não me pertencem. Elas são tão desconhecíveis como a lacraia remexendo suas pernas no canto escuro debaixo da pia. Quando uma imagem se move pelo meu sistema nervoso, é com a ganância predatória de um intruso. Meu corpo está deitado aberto, transparente, indefeso. Cada segundo de tempo corresponde a um inseto alimentando-se de meu sangue.
Quando minha mulher e eu juntávamos nossos corpos, eu caí em seu corpo e vesti sua pele como uma coberta de borracha. Ela me protegeu do que está lá fora. Agora que ela está morta, eu estou certo de que logo serei comido. Eu sou um corpo sem pele, meus músculos estão secando ao sol. Eu me sinto encolhendo.
Eu a usei como um processo, um sistema no qual nós podíamos nos misturar com a matéria além de nossos pensamentos egoístas. Quando sua mão acariciava minha perna, quando sua boca molhava minha pele, o estímulo que eu experimentava era a primeira onda de um fluxo que iria derradeiramente apagar a nós dois. Eu a amo mais do que necessito de minha própria identidade. Apesar de seu corpo repousar aqui sobre a mesa em minha frente, eu não preciso abrir meus olhos para vê-la em detalhes, para sentí-la fisicamente saturar meus sentidos. O amor permite a micróbios e vírus passarem pelo meu corpo sem resistência. Ao amá-la, eu perco a vontade de viver. Se eu comer seu corpo agora, eu a tomarei de volta para mim. Mas a cada pedaço que engolir, eu estarei removendo uma equivalente quantidade de mim mesmo.
Sua fragrância depreende tremeluzindo numa nuvem acima dela, e dá ao ar o sabor do mel. Seus seios começam a escorregar o monte de suas costelas, apodrecendo, não mais firmes em arrogância ou inflados com a promessa de fertilidade. Os bicos, que eu havia tomado eu minha boca, chupado e mordido, estão de pé como em desafio contra o volume em retirada de seu peito abaixo e ao lado. A gravidade está empurrando-a para dentro de si mesma como areia movediça. Sua barriga está movendo-se, emitindo obscuras encantações demoníacas de dentro de suas profundezas ao formar gazes ao decompor-se. Olhando logo abaixo para sua boca aberta, eu posso ainda lembrar-me do gosto, do sabor levemente acaramelado de sua saliva, e sentir a resistência borrachosa de sua língua deslizando na minha boca, circunscrevendo meus dentes, embrulhando-se em minha língua. Mas agora, uma caverna aberta em seu rosto mostra o couro grosso e morto de sua língua, como o cadáver de um mamífero na praia, que arrastou-se para o interior de sua boca para esconder-se do sol e dos enxames de moscas. Seus lábios, que já foram um fruto raro cujo suco eu chupava, estão agora enrugados e rachados como um damasco seco. Seus olhos me fitam, cauterizando meu rosto com ácido corrosivo. Minhas lágrimas escorrem devagar para o canto de meus olhos, espessas como querosene.
Sete dias atrás, ela se parou secretamente na entrada de nosso quarto a me observar, enrolado na cama lendo, desatento a sua presença, até que ela silenciosamente aproximou-se exalando um ar quente em minha nuca.
Agora sua carne está aqui, desprovida de gesto ou empatia, reduzida a um mero processo, como fermento reagindo à água. As moléculas que compreendem seu corpo estão movendo-se, separando-se uma das outras, reorganizando-se e dissipando-se na circundante corrente de biologia, não estando mais mantendo-se unidas pelo material adesivo de sua vontade individual. Eu sinto meu próprio corpo espumando-se junto a partículas, material genético, átomos, parasitas...
O cheiro de seu sexo arrasta-se para dentro do útero de dentro do meu cérebro onde gesta, formando uma memória perfeita, um centro vermelho e duro de luxúria impossível que faz brilhar e esquenta meus pensamentos.
Eu me curvo à ela para um último beijo fútil. O interior de sua boca excreta uma grudenta cola branca que cheira como se viesse de um lugar no fundo da terra — uma reserva de composto animal escondido numa tumba escura. Eu pego uma faca de cozinha serrilhada e removo seus dedos cuidadosamente, guardando os fluídos que escorrem numa toalha de banho branca. Eu como estes possuídos fragmentos de sua alma com um cuidado empírico, transfixado por seus olhos fixos. Estou intoxicado com o fim de sua memória e a transmissão de seu gosto, odor, e textura para dentro de minha mente e do meu corpo.
Com o passar das semanas, cada dia traz a ingestão de um outro pedaço de sua essência. Quando a substância de seu corpo me invade, eu sou transformado numa entidade além de mim mesmo, e também além dela. Essa evolução é apenas o primeiro passo na minha própria e lenta decomposição, enquanto me fundo com infinitos organismos que, em troca, se alimentarão de mim, e que, por fim, irão misturar-me na atmosfera...


Michael Gira

tradução por Richard John

Publicado por Conde em 11:59 PM | Comentários (1)

setembro 12, 2003

Beleza

"Vê duas vezes para veres com exactidão; vê apenas uma vez para veres com beleza."

Amiel

Publicado por Conde em 01:46 AM | Comentários (0)

setembro 11, 2003

Banho de Lua Cheia

A noite de hoje é banhada por lua cheia. E neste caminho que percorro vezes sem conta e que me leva até ti, vejo-me acompanhado por morcegos seduzidos pela luz prateada que rompe o céu nocturno. É mais um caminho que pelo meio da cidade passa... e onde zonas antigas dão um ar secular numa paisagem supostamente moderna.

Publicado por Conde em 11:59 PM | Comentários (0)

Sacrifícios

"O maior erro que um homem pode cometer é sacrificar a sua saúde a qualquer outra vantagem."

Schopenhauer

Publicado por Conde em 11:58 PM | Comentários (0)

setembro 10, 2003

Horas...

As horas multiplicam-se pela sensualidade que explode do teu corpo, essas formas demoníacas que me roubam a alma e a sanidade...

Publicado por Conde em 02:06 AM | Comentários (0)

setembro 09, 2003

Uivos do Vento

Apenas o silêncio me rodeia e tenta reconfortar-me da tristeza que é estar sem ti. As horas passam pela luz trémula de uma vela ao som dos uivos do vento. A casa está vazia e eu aqui permaneço como uma pedra, esperando... Adormeço a sonhar contigo, e apercebo-me da falta que me fazes nesta noite calma e triste, outrora desejada assim mesmo como ela é...

Publicado por Conde em 11:59 PM | Comentários (0)

setembro 08, 2003

Citação XI

"As palavras são pedras, o que nelas vive é o espírito que por elas passa."

Virgílio Ferreira

Publicado por Conde em 01:29 PM | Comentários (1)

Alma Perdida

O leve pensar da chuva que desliza pelas folhas castanhas deste jardim, revela a bela melodia de um corvo que aguarda impacientemente por mais uma alma perdida. Com esta fraca e amarelada luminosidade a beleza do jardim sobressalta aos olhos de quem passa pela madrugada fora. E quem passa, passa por mim que procuro na relva fresca a alma que perdi.

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setembro 07, 2003

Sombra

A série Contos Para Esquecer continua o seu caminho com mais um conto. Desta vez é a "Sombra" de Edgar Allan Poe.

Sombra

Na verdade, embora eu caminhe através do vale da Sombra... Davi: Salmos.

VÓS que me ledes por certo estais ainda entre os vivos; mas eu que escrevo terei partido há muito para a região das sombras. Por que de fato estranhas coisas acontecerão, e coisas secretas serão conhecidas, e muitos séculos passarão antes que estas memórias caiam sob vistas humanas. E, ao serem lidas, alguém haverá que nelas não acredite, alguém que delas duvide e, contudo, uns poucos encontrarão muito motivo de reflexão nos caracteres aqui gravados com estiletes de ferro.
O ano tinha sido um ano de terror e de sentimentos mais intensos que o terror, para os quais não existe nome na Terra. Pois muitos prodígios e sinais haviam se produzido, e por toda a parte, sobre a terra e sobre o mar, as negras asas da Peste se estendiam. Para aqueles, todavia, conhecedores dos astros, não era desconhecido que os céus apresentavam um aspecto de desgraça, e para mim, o grego Oinos, entre outros, era evidente que então sobreviera a alteração daquele ano 794, em que, à entrada do Carneiro, o planeta Júpiter entra em conjunção com o anel vermelho do terrível Saturno. O espírito característico do firmamento, se muito não me engano, manifestava-se não somente no orbe físico da Terra, mas nas almas, imaginações e meditações da Humanidade.
Éramos sete, certa noite, em torno de algumas garrafas de rubro vinho de Quios, entre as paredes do nobre salão, na sombria cidade de Ptolemais. Para a sala em que nos achávamos a única entrada que havia era uma alta porta de feitio raro e trabalhada pelo artista Corinos, aferrolhada por dentro. Negras cortinas, adequadas ao sombrio aposento, privavam-nos da visão da lua, das lúgubres estrelas e das ruas despovoadas; mas o pressentimento e a lembrança do flagelo não podiam ser assim excluídos.
Havia em torno de nós e dentro de nós coisas das quais não me é possível dar conta, coisas materiais e espirituais: atmosfera pesada, sensação de sufocamento, ansiedade; e, sobretudo, aquele terrível estado de existência que as pessoas nervosas experimentam quando os sentidos estão vivos e despertos, e as faculdades do pensamento jazem adormecidas. Um peso mortal nos acabrunhava.
Oprimia nossos ombros, os móveis da sala, os copos em que bebíamos. E todas se sentiam opressas e prostradas, todas as coisas exceto as chamas das sete lâmpadas de ferro que iluminavam nossa orgia. Elevando-se em filetes finos de luz, assim que permaneciam, ardendo, pálidas e imotas. E no espelho que seu fulgor formava sobre a redonda mesa de ébano a que estávamos sentados, cada um de nós, ali reunidos, contemplava o palor de seu próprio rosto e o brilho inquieto nos olhos abatidos de seus companheiros.
Não obstante, ríamos e estávamos alegres, a nosso modo - que era histérico - , e cantávamos as canções de Anacreonte - que são doidas -, e bebíamos intensamente, embora o vinho purpurino nos lembrasse a cor do sangue. Pois ali havia ainda outra pessoa em nossa sala, o jovem Zoilo. Morto, estendido a fio comprido, amortalhado, era como o gênio e o demônio da cena. Mas ah! Não tomava ele parte em nossa alegria! Seu rosto, convulsionado pela doença, e seus olhos, em que a Morte havia apenas extinguido metade do fogo da peste, pareciam interessar-se pela nossa alegria,, na medida em que, talvez, possam os mortos interessar-se pela alegria dos que têm de morrer. Mas embora eu, Oinos, sentisse os olhos do morto cravados sobre mim, ainda assim obrigava-me a não perceber a amargura de sua expressão.
E mergulhando fundamente a vista nas profundezas do espelho de ébano, cantava em voz alta e sonorosa as canções do filho de Teios. Mas, Pouco a pouco, minhas canções cessaram e seus ecos, ressoando ao longe, entre os reposteiros negros do aposento, tornavam-se fracos e indistintos, esvanecendo-se.
E eis que dentre aqueles negros reposteiros, onde ia morrer o rumor das canções, se destacou uma sombra negra e imprecisa, uma sombra tal como a da lua quando baixa no céu, e se assemelha ao vulto dum homem: mas não era a sombra de um homem, nem a de um deus, nem a de qualquer outro ente conhecido. E, tremendo um instante entre os reposteiros do aposento, mostrou-se afinal plenamente sobre a superfície da porta de ébano. Mas a sombra era vaga, informe, imprecisa, e não era sombra nem de homem, nem de deus, de deus da Grécia, de deus da Caldéia, de deus egípcio. E a sombra permanecia sobre a porta de bronze, por baixo da cornija arqueada, e não se movia, nem dizia palavra alguma, mas ali ficava parada e imutável. Os pés do jovem Zoilo, amortalhado, encontravam-se, se bem me lembro, na porta sobre a qual a sombra repousava. Nós, porém, os sete ali reunidos, tendo avistado a sombra no momento em que se destacava dentre os reposteiros, não ousávamos olhá-la fixamente, mas baixávamos os olhos e fixávamos sem desvio as profundezas do espelho de ébano. E afinal, eu, Oinos, pronunciando algumas palavras em voz baixa, indaguei da sombra seu nome e lugar de nascimento. E a sombra respondeu: "Eu sou a SOMBRA e minha morada está perto das catacumbas de Ptolemais, junto daquelas sombrias planícies infernais que orlam o sujo canal de Caronte".
E então, todos sete, erguemo-nos, cheios de horror, de nossos assentos, trêmulos, enregelados, espavoridos, porque o tom da voz da sombra não era de um só ser, mas de uma multidão de seres e, variando suas inflexões, de sílaba para sílaba, vibrava aos nossos ouvidos confusamente, como se fossem as entonações familiares e bem relembradas dos muitos milhares de amigos que a morte ceifara.

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Citação X

"Antes ser um homem da sociedade, sou-o da natureza."

Marquês de Sade

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setembro 06, 2003

Cão da Morte

"No calor da febre que me alaga toda a fronte
Sinto o gume frio da navalha até ao osso
Sinto o cão da morte a bafejar no meu pescoço
E a luz do sol a fraquejar no horizonte
Já desfila trémulo o cortejo do passado
Que me deixa quedo, surdo e mudo de pesar
Vejo o meu desgosto na beleza do teu rosto
Sinto o teu desprezo como um dardo envenenado (...)
Sopra forte o vento na fogueira que arde em mim
Sinto a selva agreste nos batuques do meu peito
No cruel caminho em que me lança o desespero
Sinto o gelo quente do inferno do meu fim..."

Mão Morta

Publicado por Conde em 11:59 PM | Comentários (1)

setembro 05, 2003

O Caminho Comum

Permaneço igual à minha sombra, como a estátua que se pinta de negro e absorve a alegria matinal. Camuflado pela cor da minha alma, deslizo por massas humanas sem ser detectado e pestanejo com as lágrimas dos seus olhos. Tantas vidas... apenas um caminho. Parecem rebanhos a seguir o pastor. E eu aqui parado, permancendo igual à minha sombra, a vê-los passar...

Publicado por Conde em 01:49 AM | Comentários (1)

Introspecção

"Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses."

Sócrates

Publicado por Conde em 01:33 AM | Comentários (1)

setembro 04, 2003

O Espelho

"Espectro das eras, que resultado traz tua glória?
Glória erguida pelo erro,
Glória filha da discórdia?
Acaso é este o destino que desejas,
Que a tão fria realidade me apresentas?
Fria a face do espelho omnipresente,
Tudo reflete, tudo vê, mas não se mostra.
O homem já não liga, o espelho não se importa
Não há mais alma a reflectir, o mundo...
está doente!"

Johnathas M. B.

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Folhas Invisíveis

Perdido entre as folhas invisíveis da madrugada, que teimam em roçar na brisa que corre dentro do vazio. O brilho do teus olhos permanecia ileso no escuro, sem a mínima perturbação. Saí pela janela dos teus sonhos e deambulei taciturno pelas ruas abandonadas de vida ao som da melodia triste entoada pela lua...

Publicado por Conde em 10:22 AM | Comentários (0)

setembro 03, 2003

Gato Preto

Gato Preto
Fixei o meu olhar no teu e não pude deixar de sentir um arrepio na espinha. Vi duas luas perfuradas suspensas num manto de veludo negro. Meu doce gato preto...

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A Viúva Ester

Este é o segundo conto da série Contos Para Esquecer. É de um escritor um tanto desconhecido, de seu nome António Bahaona da Fonseca.

A Viúva Ester

A viúva Ester é extremamente meticulosa - arruma os garfos nas gavetas, fala sozinha muito lenta de mãos postas, olhando de soslaio a janela do quarto. A viúva Ester é mulher antiga, rata de erva a quem bateram com uma cana e enxotaram para a cave. A viuvez, sabem os senhores, é, além de um estado oficial, uma posição na vida, a maior das solidões quando não se amou. Ester odiara os amantes que logo após a morte do marido abandonara. A letra de Ester era viúva antes deste acontecimento que enlutou ambas as famílias.
Digamos: a letra, a caligrafia das pessoas está morta quando não se ama. Escreve-se mal, não se cortam os tês, etc. Mas antes de continuar, advirto os senhores de que nunca estudei grafologia, nem conheci a viúva Ester, nem sei nada acerca da viuvez, da morte, nem sequer do amor. Faço perguntas, sondo, alinho palavras umas a seguir às outras, em suma - sou gratuito.
Gratuito, sim. Escrever é uma coisa fulgurante, seja a falar do que for. A viúva Ester vivia na infância, cultivava rosas, regava o seu sexo onde havia grande profusão delas, e, no entanto, nunca lhe ocorreu montar um negócio de flores. Seria bastante rendoso, disseram-lhe um dia - e evitaria assim estar apenas sujeita à reforma deixada pelo marido, que agora fora reduzida a metade. As leis, resmungava assiduamente a viúva Ester, só servem para isto: tirar dinheiro a quem precisa. Posto que prosseguia com o mesmo tradicional cuidado de arrumar os garfos nas gavetas forradas de papel claro. Certo dia ouviu dizer: “Os gatos pretos dão azar”. Meditou noites e noites neste aforismo popular sem conseguir encontrar-lhe um sentido. Estava quase a desistir quando adormeceu e sonhou dois dias a fio. Viu no sonho um gato preto a sair de uma casa alta que tinha no topo um homem de casaco brilhante e laço de longas pontas caídas. Este homem olhava-a fixamente e de cinco em cinco gritava-lhe (apesar de gritada sua voz encerrava alguma doçura): “Dá-me as rosas que guarda debaixo da saia!” O gato após sair da casa alta pela porta toda chapeada e de atmosera medieval, ficou parado a escrutar o homem enquanto lambia uma roseira desmedida que surgira havia pouco transportada por outro homem (este, negro e mais espadaúdo que o anterior).
“Ester! Ester!” - era uma águia de vidro em luzes esmaltadas e tão cruas, que não pôde sustentar as pupilas por mais de trinta segundos. Entretanto, o gato devorou a rosa e sentiu-se a terra tremer e no chão abriram-se frestas donde emergiam profetas a recitar o Apocalipse. Correu para outra praça e olhou o relógio na torre da igreja. Viu monges e frades e bispos a montarem cavalos selvagens. Os cavalos pulavam desesperadamente, davam coices e mais coices, mas nenhum dos cavaleiros caía. Ester estranhou bastante, como aliás estranhara o que vira anteriormente, mas não se importou e passou adiante.
Agora o gato desaparecera e acordou com a cama desfeita cheia de palavras escritas nos lençóis interiores. Pensou no que sonhara. Não encontrava explicação: os fatos eram desconexos e se nenhuma relação tinham entre si, menos ainda teriam com a incipiente frase que ouvira: “Os gatos pretos dão azar”. Apesar disso, congeminou, não perdi tudo — a desconexão não existe naquilo que sonhei como também no que vivo, no meu dia a dia. E riu-se.
Ester aprendera rapidamente que tão estrangeiro é o sonho como a realidade, e que ambas estas coisas eram igualmente concretas por isso mesmo. Então, modificou toda a sua estrutura habitual de agir. Quem sou eu, a viúva Ester? Que é a viuvez? Quem foram os meus amantes e o falecido marido? Amei? Não amei? Teria odiado? Perguntas às quais respondia de maneiras diversas sabendo de antemão que qualquer que fosse a resposta dada, esta estaria certa. E passava assim o tempo falando para o microfone de um gravador.
Depois, premia o botão, a fita enrolava-se na outra bobina, premia outro botão, e estirava-se a ouvir as frases inventadas, rindo-se com algumas que repetia deliciada. Mandou pregar as janelas por dentro com tábuas de madeira velha, comprou candelabros, mobilou a sala com armários antiquíssimos onde ia amontoando folhas de papel muito branco e bobinas frescas que todos os dias mandava vir dum estabelecimento da rua. Uma manhã ao acordar (Ester não sabia se era manhã) proferiu: Eu, a viúva Ester, morri ontem às quatro horas. Dito o que ligou o gravador para não perder uma palavra do que se seguisse: Eu, a viúva Ester, estou cansada. Não falo com ninguém, mas chegaram até mim vozes de vizinhos que dizem entre si que estou louca. É verdade que fui feliz ao descobrir que não importa encontrar relações exactas entre as coisas - ser irresponsável é muito agradável, e sem o peso da responsabilidade vive-se melhor - mas o facto é que não é bem assim: o reconhecimento disto custou-me a vida, visto que estou defunta desde ontem às quatro horas. Há um equívoco. Não morri, o que é a mesma coisa. Não sei se me estão a entender. Concordo que não é fácil: eu própria já estou a suar de falar tanto, mas é preciso, é justo explicar-lhes que não sei quem sou, nem sei nada apesar de todas as respostas às minhas perguntas estarem certíssimas. Não percebem?

António Bahaona da Fonseca

Publicado por Conde em 10:41 AM | Comentários (0)

setembro 02, 2003

Citação IX

"A beneficência é sobretudo um vício do orgulho e não uma virtude da alma."

Marquês de Sade

Publicado por Conde em 08:35 PM | Comentários (0)

Passeio Errante

Apenas vi o que não devia ter visto, naquelas ruas, naquelas vielas. Encharcado pela indignação estremeço... o cheiro, ia jurar que o senti noutras vidas, noutros tempos mortos onde a luz não abraçava à noite. Almas perdidas sentadas no chão com os seus animais fazendo acrobacias para iludir as vidas de quem passa. Vidas que não têem tempo, vidas que morreram à muito aprisionadas dentro de um fato de tecido fino. Viver apenas por viver, respirar apenas porque assim deve ser, fumar um cigarro apenas para ver o vazio abraçar-se ao fumo e juntos anularem-se. Parei. O cheiro desapareceu e eu segui a minha caminhada com pensamentos aliviados. Apenas vi o que não devia ter visto, naquelas ruas, naquelas vielas...

Publicado por Conde em 02:25 PM | Comentários (0)

setembro 01, 2003

Citação VIII

“Nascemos num determinado momento, num determinado lugar, e temos como os melhores vinhos, as qualidades do ano e da época que testemunham o nosso nascimento.”

Carl Gustav Jung

Publicado por Conde em 01:35 PM | Comentários (0)

Outro

"Continuamente sinto que fui outro, que senti outro, que pensei outro...
Aquilo a que assisto é um espectáculo com outro cenário.
E aquilo a que assisto sou eu."

Fernando Pessoa

Publicado por Conde em 01:30 PM | Comentários (0)

Retrato

"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?"

Cecília Meireles

Publicado por Conde em 10:43 AM | Comentários (0)