A sensação do mundo a escorrer pelos meus pés, alegra-me a alma paralisada outrora por infindáveis supressões dos instintos humanos. Olho as pessoas entretidas com as suas vidas, aprecio... mas não me conformo. Elas precisam de acordar, acordar de um sono que desconhecem. Ás vezes ponho-me a olhar pela janela do alto prédio infinito e observo com atenção o mundo. Cada movimento, cada gesto... e esboço um sorriso ao ver que Platão sabia o que dizia na sua alegoria da caverna. Nessa caverna ainda habitam muitos humanos cegos pela própria vontade. Caminhamos para algo grande. Evolução leva-nos para misteriosas metas. A morte, para nós humanos é certa. Quanto à vida ... já não sei.
Olho para o mundo e não percebo. Nem eles percebem. A diferença veste-se de insulto para as massas que seguem o trilho e o pastor... O medo acaricia-as a pedido da ignorância. A confusão instala-se nas suas mentes e eles sem saber o que mais fazer apenas troçam do que não sabem. Mal eles sabem que são eles o combustível da gargalhada que oiço na minha cabeça.


A leve dor que me assalta o corpo de mansinho, não é mais do que a cobrança de uma noite passada envolta em licores e fumos, perdido pelo cantar do álcool no meu sangue. Custa tanto andar, custa tanto fazer qualquer coisa... apenas penso no que esqueci, tentando encontrar-me numa esquina dessa noite gritando todo o meu silêncio para a serra ... e oferecer-te toda a minha essência em troca do doce veneno nos teus lábios...
Não vim domar teu corpo esta noite, ó cadela
Que encerras os pecados de um povo, ou cavar
Em teus cabelos torpes a triste procela
No incurável fastio em meu beijo a vazar:
Busco em teu leito o sono atroz sem devaneios
Pairando sob ignotas telas do remorso,
E que possas gozar após negros enleios,
Tu que acima do nada sabes mais que os mortos:
Pois o vício, a roer minha nata nobreza,
Tal como a ti marcou-me de esterilidade,
Mas enquanto teu seio de pedra é cidade.
De um coração que crime algum fere com presas,
Pálido, fujo, nulo, envolto em meu sudário,
Com medo de morrer pois durmo solitário.
Stéphane Marllamé
"O medo é o pai da moralidade."
Friedrich Nietzsche

Provavelmente muitos de vós já experimentaram sensações como o ódio, a raiva e outros sentimentos afins. Tantos momentos na vida que nos podem provocar essas sensações. Por vezes basta uma pequena gota de frustação, impaciência ou um dia de mau humor, para ser libertado o inferno sobre os que nos rodeiam. Todos esses sentimentos podem ser chamados de trevas, lado negro humano. Quando são invocados, os pilares da razão e da consciência são abalados por um violento vendaval de sensações e pensamentos. No entanto, verdadeiramente sábio e equilibrado é aquele que consegue cultivar essas trevas dentro de si, e permanecer livre de envenenamento por elas. Para conseguir tal feito será necessário aceitar a raiva, o ódio como naturais sentimentos que possuímos. A natureza criou-nos com esses sentimentos por algum propósito. Reprimi-los apenas vai desiquilibrar a balança que nos habita. Não pode haver medos, não pode haver arrependimento. Só assim se atinge um patamar mais elevado de consciência, um novo nível, onde a paz interior é inquebrável por acontecimentos exteriores.
São maneiras de ver a vida e atingir o auto controlo. Os Budistas preferem o sofrimento e a privação para atingir esse nível, os cristãos preferem a submissão e sofrimento, eu... prefiro abraçar tudo sem catalogar as coisas de bem ou mal e aceitá-las como elas são. E assim não sofro, não me submeto a nada nem a ninguém... fico assim, de mãos dadas com as trevas e com a luz... aparentemente livre e distante.

Escorrem na parede as horas que passam a fio, esvaziando uma eternidade que finda no horizonte de uma noite acabada de chegar. Olhando para o vazio os pássaros assustados chamam por outros perdidos na escuridão. Surge então uma brisa que acarícia as árvores e suas folhas...seguindo-se um vento tempestuoso que as tomba contra o chão mortal... o silêncio vem flutuar no ambiente. Apesar do meu sorriso no rosto... tudo foi perdido para sempre.
Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E, como uma raiz, sereno e forte.
Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.
Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!
Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera... quebra-me o encanto!
Florbela Espanca
"A moral da arte reside na sua própria beleza"
Gustave Flaubert

NIN
In "Dead Souls"
Momentos de vida passam por mim, como se eu fosse um túnel para o outro lado, e as almas corrompem-me na esperança de alcançar o céu. Apodrecemos todos após o último sopro de vida...
É uma mancha que tinge uma pequena porção de uma simples, vazia e branca parede. A sua côr negra espalha raiva no frágil branco que deixa de fazer sentido por momentos... parece saltar para os olhos, ficando fixa em qualquer ponto para onde olho. A sua aparência muda na minha vista, o negro transforma-se num tom lilás ou roxo á medida que me afasto de tudo... Deixo de conseguir focar outros objectos que tranponham esta marca . Nem mesmo apagando a luz ela desaparece... apenas permanece aparentemente imóvel no meu interior...

NIN
In "Into The Void"
Neste tempo morto onde se parecia prever a morte do lado negro das palavras, um pequeno, mas fiel grupo de leitores mostrou o interesse na continuação deste blog. E os seus sussurros foram trazidos até mim pelos ventos. É por eles que findo a hibernação ou até mesmo a morte deste blog. Aqui a eternidade será passada junto das palavras... com ou sem significado elas permanecerão significantes em todos nós. Desde já agradeço a todos vós leitores, pelo sopro de vida que deram a este arquivo de pensamentos....