O sol é negro. O vento é frio como uma pedra. A chuva roça no meu corpo, numa dança sensual... O som do terminar do ano aproxima-se lentamente como um comboio ainda longe num túnel. Tudo o que aconteceu tinha que acontecer, tudo o que eu fiz... tinha de o fazer. E assim começo a minha mudança de pele para o ano que irá nascer, forjado nestas trevas em que o mundo está mergulhado.
Para todos os leitores o LNP deseja um bom ano e que as palavras continuem com aquele doce sabor envenenado que só podemos encontrar na sua sombra.
"Aquele que olha para fora, sonha. Aquele que olha para dentro, acorda."
Carl Jung
Apenas porque sinto o mundo a deslizar por entre os meus sonhos é que me deixo também deslizar nessa névoa que encobre a liberdade dos outros. A tempestade já não se impõe sobre os meus ombros, porque neles jaz o fardo da eternidade que me paraliza os membros... surgindo por breves e solitários momentos aquele ligeiro ofegar de aparente perda de fôlego. O sopro da vida, que nos consome até à morte... deixando apenas transparecer o desejo. O prazer domina-me sempre que nele penso... porque ele é a névoa por onde deslizo encobrindo o teu corpo de gemidos... e já nem sequer importa a liberdade dos outros, porque eles não fazem parte do nosso sonho.

A escuridão envolve os meus olhos, como um manto de veludo que desliza com a brisa gelada. A manhã é negra e ardente. É como se ainda não tivesse acordado e como se o mundo se tivesse esquecido de dar vida a alguém... e esse alguém é apenas uma sombra que permance deitada sobre mil e um espinhos à espera de sentir algo nesta putrefacta manhã que cresceu no canteiro dos meus pensamentos...
Um sorriso trazido pelo vento, lacrado com a malícia de um olhar pertubador e fixo dentro de mim. Uma mancha alastrante no papel onde me pinto, ensopado na água que bebi dos teus lábios... esses lábios que me cortam os dedos e o peito num palpitar tão suave quanto esse breve e imperceptível sorriso, agora levado pelo vento...
Abre-se uma porta, donde emerge um enorme e infindável corredor...com mais portas que se estendem até ao horizonte fechado. O ar é abafado e cansa respirar. Cada porta que abro é uma vida que nasce, e fica inacabada. Tantas saídas e ao mesmo tempo tantas entradas, que enchem com volúpias horas o corredor. Cada passo que dou, é uma chance que roubo ao tempo. E assim vou destroçando a eternidade á medida que percorro o meu fim e rompo essa linha que fecha o horizonte do meu mundo... o corredor.
Surgindo das profundezas do mundo, encontro-me com tamanha obra de arte que me espelha a alma e tudo o que me habita... ali vejo materializadas todas as minhas crenças e musas que me concretizam. Tudo isto aqui.
"Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar."
Friedrich Nietzsche

A confusão, o caos instala-se em mim. Nestas noites sem dias seguintes onde nem os corvos descançam em volta dos cadáveres que eu criei. A sombra inunda o ar que respiro de uma maneira tão possessiva que sucumbo à fraqueza... permanecendo no chão...encostado ao canto escuro da minha mente, como que à espera de algo. E na escuridão de um dia seguinte que nunca existiu, acabo com o turbilhão diabólico de pensamentos. A calma regressa como o vento que sopra lá fora e balança as penas de veludo negro dos pássaros que impacientemente me esperam... esperam por mim como se eu fosse a sua presa. E com olhos sérios e sem vida... levam-me para mais um dia seguinte inexistente.

O pensamento é tudo. E além dele, não existe mais nada, a não ser o próprio nada, que já é alguma coisa. O que eu sinto neste momento é alguma coisa, pois é nada.
O nada que é tudo. E se é tudo, reduz-se à insignificância de um segundo, que no plural passa e me deixa vazio...
"Consideram que a caridade é uma forma inadequada e ridícula de restituição parcial, uma esmola, geralmente acompanhada de uma tentativa impertinente, por parte do doador, de tiranizar a vida de quem a recebe. Por que deveriam sentir gratidão pelas migalhas que caem da mesa dos ricos? Eles deveriam estar sentados nela e agora começam a percebê-lo. Quanto ao descontentamento, qualquer homem que não se sentisse descontente com o péssimo ambiente e o baixo nível de vida que lhe são reservados seria realmente muito estúpido. Qualquer pessoa que tenha lido a história da humanidade aprendeu que a desobediência é a virtude original do homem."
Oscar Wilde

Mors Liberatrix
"Na tua mão, sombrio cavaleiro,
Cavaleiro vestido de armas pretas,
Brilha uma espada feita de cometas,
Que rasga a escuridão, como um luzeiro.
Caminhas no teu curso aventureiro,
Todo envolto na noite que projectas...
Só o gládio de luz com fulvas betas
Emerge do sinistro nevoeiro.
- «Se esta espada que empunho é coruscante
(Responde o negro cavaleiro andante),
É porque esta é a espada da Verdade:
Firo mas salvo... Prostro e desbarato,
Mas consolo... Subverto, mas resgato...
E, sendo a Morte, sou a liberdade.»"
Antero de Quental
Murmúrios trazidos pelos ventos, ecoam no tecto do meu corpo, que não sinto. Limito-me a arrastar pelo chão apenas sentindo as mãos e a dor. Inunda o cheiro ferrungento do sangue. Lá fora vejo um jardim frondoso, cheio de pessoas, cheio de sons que me põem sôfrego de desejo. O meu corpo arde e sinto-o de novo como se fosse uma descoberta. Fico pasmado a olhar pela janela, para a cor de um jardim que me era desconhecido. As pessoas riem e falam umas com as outras. Mas os meus gemidos de agonia distorcem as suas palavras. A minha silhueta desaparece da janela e eu desligo-me da severidade deste mundo. Acordo no jardim, no meio dessas pessoas...ficando com a breve impressão de que foi apenas um pesadelo.
"O homem fraco teme a morte. O desgraçado chama-a. O valente procura-a. Só o homem sensato a espera."
Autor desconhecido

A Perfect Circle
In "Sleeping Beauty"
A chuva não pára. Nem mesmo quando deixa de chover. O relógio não pára. Nem mesmo quando deixa de dar horas. Apenas eu fico parado a olhar estupefacto para tudo à minha volta. Porque tudo deixou de ter sentido, o mundo, as pessoas, o tempo... apenas o relógio que estoira o seu tique-taque na minha cabeça e a chuva que espeta o seu bater no vidro pelo meu corpo. Ambos conseguem atrair a minha atenção para este lugar...durante séculos e séculos de existência, porque também a vida não pára. Mesmo que deixemos de viver...
"Não podendo suportar o amor, a Igreja quis ao menos desinfectá-lo, e então fez o casamento."
Charles Baudelaire
