fevereiro 29, 2004

Só Silêncio

Apenas um som que ecoa no vazio do meu frágil invólucro...

Publicado por Conde em 01:05 AM | Comentários (3)

fevereiro 28, 2004

Repouso Distante

Anjo que cais... dentro de mim,
Não procures onde cair,
Porque o meu vazio não tem fim...

Tenho a volúpia dos sentidos perdida.

Onde ouvires soprar o vento da morte,
É onde estarei a repousar da vida.

Publicado por Conde em 03:11 AM | Comentários (3)

fevereiro 27, 2004

Hora De Sofrimento

"Senti que o mundo ia acabar…
Tive medo… Muito medo…
O meu coração batia a um ritmo vertiginoso…
A Alma queria separar-se do corpo…
Senti que o Inferno me devorava…
Senti-me perdido…
Abandonado!
As lágrimas tinham o sabor do Sangue…
Na minha mente, mil e uma imagens,
Mil e um enigmas para resolver…
Queria sair daquele pandemónio e não conseguia…
As Trevas prendiam-me…
Gritei…
Com toda a força,
Eu gritei…
Gritei o nome do ser que me poderia salvar…
O nome do meu Anjo…
Mas não apareceu…
Eu continuei naquele martírio assombroso…"

Karl Goth

Publicado por Conde em 01:02 AM | Comentários (5)

fevereiro 26, 2004

Lembrança

"Há um grande casaço na alma do meu coração. Entristece-me quem eu nunca fui, e não sei que espécie de saudades é a lembrança que tenho dele. Caí contra todas as esperanças e as certezas, com os poentes todos."

Fernando Pessoa

Publicado por Conde em 09:30 AM | Comentários (8)

fevereiro 24, 2004

Lágrima

"Por vezes sinto que a eternidade jaz a meus pés...Nesse instante acordo e o sonho desvanece, tornando-se num equilíbrio frágil cujo nucleo é possível ser destruído por um sopro ou um simples movimento da tua iris.
Receio a efemeridade dos sentimentos e o sabor do pecado...A beleza da noite e a pureza de vosso sorriso, assusta-me pensar que vossas palavras sejam como a Lua...Belas e majestosas no seu esplendor e, no fim...o Sol nasce incessante e a realidade regressa em toda a sua magnitude.
A aparência não é o espelho da alma e ,por detrás de uma armadura intocavel existe o medo, a tentação, a fragilidade e ...as lágrimas. Nunca uma lágrima minha haveis visto , mas que nem pelo pensamento vos ocorra que o curso dos rios nao passa por meu olhar..."

Nelinha Baptista

Publicado por Conde em 11:30 PM | Comentários (3)

fevereiro 23, 2004

Lua Preversa

Choras num canto... perdida do mundo à tua volta. Lentamente a vida abandona o teu pobre cadáver, fazendo lembrar uma rosa que perde as suas pétalas para o sangue que jaz derramado no chão. As tuas lágrimas são gotas de orvalho que nunca se formaram... porque nunca tiveste fôlego para respirar. A tua perdição espalha-se por toda a natureza à volta. Tudo morre... tudo entristece. Os dias tornam-se cinzentos conforme a tua metamorfose avança... já nem o sol te ousa tocar, porque deixou contemplar beleza em ti. Apenas eu permaneço debaixo desta lua gelada cantando-te maldições para tentar seduzir a palidez sensual da tua pele.

Publicado por Conde em 08:22 PM | Comentários (4)

Preto

"Preto é algo assim,
Misterioso para mim.
Tem um quê secreto,
Um estado incerto.
Uma beleza morta,
Que se esconde nas sombras,
Nas trevas do infinito.
Dizem que é maldito,
Mas isso, não importa.
Porque preto está presente,
Faz parte da minha alma,
Causa-me desespero e calma,
Penumbra e luz.
Está entre o certo e o errado,
Entre Deus e o Diabo,
E por assim ser, me seduz."

Autor Desconhecido

Publicado por Conde em 10:25 AM | Comentários (4)

fevereiro 22, 2004

Árvore Ao Luar


A árvore sem vida roça os seus galhos despidos na lua... E esta chora pela morte de uma companheira que todas as noites a viu erguer-se na crueldade da escuridão celeste....

Publicado por Conde em 03:54 PM | Comentários (4)

fevereiro 21, 2004

Frio Impessoal

"delicadeza súbita ao desmanchar as pétalas ao sol
indecisa de amar escondes a face do meu calor
lógica contrária de querer amor sem perguntas
consome-nos às escondidas
como duas crianças sondando o incógnito

sentes o frio impessoal desabar sobre nós?
resta esperar - voltemos a pintar o coração de azul
quebrar os sentidos no vidro implacável do ódio
dilacerar sem memória os antros que enchem de negro
o espaço da nossa afinidade

resta esperar - nunca inertes a ceder
nunca perenes a amar

nunca outro senão eu
nem aquele outro que sabes ver em mim"

Manuel Silva
In Os Fazedores de Letras nº55

Publicado por Conde em 12:30 PM | Comentários (4)

fevereiro 20, 2004

Sombras Íntimas

As sombras que ocultam o nosso momento íntimo não passam de vultos que se apaixonam por nós sempre que trocamos beijos. As velas dão à luz esses vultos ao acasalarem com os cortinados do quarto. E toda a beleza de um universo suspenso na nossa respiração, afoga-se na audição de um sino que toca anunciando o fim da glória alcançada com a nossa união. É a morte que insiste em tocar esse som triste, belo e monótono.

Publicado por Conde em 09:29 PM | Comentários (1)

Amargor

"Hoje o dia soube-me mais a mim do que é costume. O seu usual amargor adensou-se e enquanto o vivia não pude deixar de cuspinhar para o chão. E fi-lo frequentemente; nos transportes, na cara do patrão que odeio, à mesa do restaurante que me serve a comida fria e até durante a conversa azeda que mantive com a mulher que não mais amo. Mas à noite, na casa que decorei sem decoro, vi-me de súbito impossibilitado de continuar a expelir o travo fétido de mim pois que as expensas de tanto o fazer durante o dia, e sem que até à altura o tivesse notado, eu era apenas então mil pedaços de saliva esparramados pelas vielas da cidade."

Gonçalo Nuno
In Os Fazedores De Letras nº55

Publicado por Conde em 04:37 PM | Comentários (0)

fevereiro 18, 2004

Essência Negra

No contorno negro de uma flor, encontro a tua mão sem vida que a segura. És tu que me assombras... agora no teu estado real. Mas a tua realidade foge da minha, por entre névoas densas de melancolia. Apenas se unem num ponto... a gota seca de sangue nos teus lábios. Lábios esses que me condenaram a uma essência negra e pura... venenosamente pura. Sim, todo eu sou veneno, porque bebi de ti esse licor fatal... e porque quanto mais bebia, mais era tentado a repetir essa dose mortal de sensualidade. Bebi-te até secares. Desfalecida num manto branco, permaneces à espera que eu te devolva o que roubei numa das tuas invasões ao meu sono.

Publicado por Conde em 10:48 PM | Comentários (3)

Citação XXV

"Cheguei àquele ponto em que o tédio é uma pessoa, a ficção encarnada do meu convívio comigo."

Fernando Pessoa

Publicado por Conde em 07:24 PM | Comentários (0)

fevereiro 17, 2004

Morto Silêncio


Adoro quando despejas o teu silêncio sobre o meu corpo. É um silêncio forçado, a que te obrigas nas horas de tédio e melancolia, mas sinto-o escorrer pelo meu corpo desperdiçado. É no mar de lágrimas que não choras, que ele desagua morto e seco... doloroso. Mas essa dor acorda os sentidos ocultos e provoca-me visões dos teus pensamentos. No inferno em que vives, já eu fui arrastado... já eu fui rei.

Publicado por Conde em 09:54 PM | Comentários (3)

fevereiro 16, 2004

Morte, Paixão Ou Ódio...

"Quando o vento se levanta e passa, tua cabeça adormecida põe-se a brilhar. Em redor dela um halo de sombra onde a minha mão entra, vagarosamente, pedindo-te um Sinal.
Procuro o rosto com os dedos afiados pelo desejo. Toco a alba das pálpebras que, de súbito, se abrem para mim. Um fio de luz coalha na saliva do lábio.
Ouvimos o mar, como se tivéssemos encostado a cabeça ao peito um do outro. Mas não há repouso nesta paixão. O dia cresce, sem luz — e os pássaros soltam-se do pólen dos sonhos, embatem contra os nossos corpos.
Nada podemos fazer.
Um risco de passos ensanguentados alastra pelo chão da cidade. A noite cerca-nos, devora-nos. Estamos definitivamente sozinhos.
Começamos, então, a imitar a vida um do outro. E, abraçados, amamo-nos como se fosse a ultima vez...
O tempo sempre esteve aqui, e eu passei por ele quase sempre sozinho.
No entanto, recordo: deixaste-me sobre a pele um rasgão que já não dói. Mas quando a memória da noite consegue trazer-te intacto, fecho os olhos, o corpo e a alma latejam de dor.
Dantes, o olhar seduzia e matava outro olhar. Agora, odeio-te por não me pertenceres mais. Odeio-te. Abro os olhos. Regresso ao meu corpo e odeio-te. E, quem sabe se no meio de tanto ódio não te perdoaria - mas ambos sabemos que o perdão não existe.
Se fugias, perseguia-te. Mas o olhar começava a cegar. Sentia-te, já não te via. E o pior é que o tacto também esqueceu, rapidamente, a sensualidade da pele e o calor do sexo. O rosto aprendido de cor.
Hoje, tudo se sobrepõe. Nomes, rostos, gestos, corpos, lugares... um montão de cinzas que me deixaste como herança.
Não devo perder tempo com o ciúme. A paixão desgastou-me. E nunca houve mais nada na minha vida - paixão ou ódio.
Só isto: se me aparecesses agora, tenho a certeza, matava-te."


Al Berto,
in O Anjo Mudo

Publicado por Conde em 10:55 PM | Comentários (1)

fevereiro 15, 2004

Insuportável Tédio

"O que tenho sobretudo é cansaço, e aquele desassossego que é gémeo do cansaço quando este não tem outra razão de ser senão o estar sendo. Tenho um receio íntimo dos gestos a esboçar, uma timidez intelectual das palavras a dizer. Tudo me parece antecipadamente fustre.
O insuportável tédio de todas estas caras, alvares de inteligência ou falta dela, grotescas até à náusea de felizes ou infelizes, horrorosas porque existem, maré separada de coisas vivas que me são alheias..."

Fernando Pessoa

Publicado por Conde em 11:12 AM | Comentários (2)

fevereiro 14, 2004

Amor e Morte

Na noite escura flutuam os véus ocultos de um dia cinzento, que encobrem os rostos sem vida dos seres nocturnos. Esses véus ao som do vento formam uma dança mórbida e apaixonante e envolvem-se como dois corpos um no outro. São os seres. As suas almas movem-se ao som dos uivos na tundra gelada. O gelo permanece-as eternas. Mesmo a sua frieza é no fundo tão quente quanto o inferno. As suas mortes são mais libertadoras que a própria vida. Um desespero que se torna alegria por cada momento em que se tocam. E da janela do meu pensamento vejo estes dois amantes a morrerem numa noite em que a morte os casou para sempre.

Publicado por Conde em 12:06 PM | Comentários (3)

fevereiro 13, 2004

A Minha Dor

"A minha dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas de um requinte escultural.

Os sinos têm dobres d’agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal…
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias…

A minha dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro!
E ninguém ouve… ninguém vê… ninguém…"

Florbela Espanca

Publicado por Conde em 05:03 PM | Comentários (5)

Fortaleza De Silêncio

"As minhas interrogações servem apenas de aguilhão para mim mesmo. Só quero ser estimulado pelo silêncio que se ergue à minha volta como resposta derradeira. «Até quando conseguirás suportar o facto de que o mundo dos cães, tal como demonstram cada vez com mais evidência as tuas pesquisas, está para sempre votado ao silêncio? Até quando conseguirás suportar esta ideia?» Esta, esta é que é a verdadeira grande interrogação da minha vida, uma interrogação perante a qual as outras interrogações se tornam totalmente insignificantes. Uma interrogação que diz respeito apenas a nós próprios e a mais ninguém. Infelizmente, posso responder a esta interrogação com mais facilidade do que às interrogações específicas: aguentarei, provavelmente, até ao meu fim natural. A serenidade da velhice irá formando uma resistência cada vez maior a todas as interrogações inquietantes. Tudo indica que hei-de morrer em silêncio e rodeado de silêncio, na verdade até de forma específica, e antevejo isso com uma certa tranquilidade. Um coração admiravelmente resistente, pulmões que é impossível ficarem fracos prematuramente, foram-nos dados a nós, cães, como que por ironia. Assim, sobrevivemos a todas as interrogações, inclusive àquelas que colocamos a nós próprios, como autênticas fortalezas de silêncio que somos."

Franz Kafka
in Investigações de um Cão

Publicado por Conde em 09:51 AM | Comentários (0)

fevereiro 11, 2004

O Grito


Num grito silêncioso, liberto todo o meu sufoco numa nuvem invisível de desespero que contagia toda a natureza que me rodeia. É um grito que quero soltar forte, mas apenas sinto mais dor ao tentar soltá-lo... uma atmosfera que me abafa a respiração roubando-me o fôlego quando eu mais preciso dele...

Imagem de Edvard Munch

Publicado por Conde em 11:23 PM | Comentários (16)

fevereiro 10, 2004

Poesia Ao Vivo

Para os que gostam de poesia, O Lado Negro Das Palavras recomenda o espectáculo de poesia ao vivo recitada com sons de fundo num local com ambiente gótico, numa iniciativa levada a cabo pelo Teatro Da Comuna para divulgar poetas portugueses. Este evento tem lugar todas as quintas-feiras das 19h ás 20h. Este mês o poeta é Al Berto e a obra que será recitada será "Horto de Incêndio". Vale bem a pena pois a entrada é gratuita. Para quem não sabe o Teatro da Comuna situa-se em Lisboa, logo à saída do metro da Praça de Espanha.

Publicado por Conde em 11:59 PM | Comentários (2)

fevereiro 09, 2004

Cumplices Palavras II

"Não sei como tal sabor me pode ficar apenas na língua e ao mesmo tempo senti-lo em mim, como se todos os meus poros te respirassem. Respiro-te todas as noites, junto ao esplendor do olhar que me lanças cada vez que pensas em mim. Envolvo-me na capa negra, veludo brilhante que me aquece, do frio que se entranha neste espírito só, que vagueia pelas várias faces da lua que tão bem conheces. Quero-te em mim, hoje amanhã e depois, mas na iminência de um sonho impossível, junto a mim trago o punhal que me levará ao eterno mundo que nós construímos. É um rasgo na pele que me leva ao estado mais que perfeito da essência em ti achada. Encontramo-nos lá, e por enquanto resta-me o paladar efémero do chá de morango que me seca os lábios para que só tu os possas tornar teus."

Publicado por Conde em 11:51 PM | Comentários (1)

fevereiro 08, 2004

Inocente Revólver

"... havia nele dois mistérios insolúveis: viver e escrever. E ambos estavam tão intimamente ligados que, provavelmente, se conseguisse desvendar um deles, o outro sê-lo-ia também.
Mas acontece que tinha tentado fazer da sua vida uma obra tão intensa quanto a obra escrita. Por vezes diluíam-se uma na outra, confundiam-se, tão próximas ou afastadas estavam. E tanto na vida como na escrita, um mesmo desejo o animava: caminhar em direcção à sabedoria última do silêncio - a memória total do mundo.
O pior é que sempre que avançava alguns passos na direcção certa, desiludia-se. A harmonia com o mundo e com o seu próprio corpo continuava inacessível; e outras ignorâncias surgiam, outras trevas o cegavam. O que parecia estar perto, repentinamente, ficava fora do alcance.
Apesar de tudo, com o avançar lento da idade pressentia, algures dentro de si, um ser de lume - um anjo mudo que o iluminava, revelando-lhe aquilo que devia ou não silenciar.
E quando esse ser o fazia sentir árvore ou pássaro, todo o talento da árvore e o nocturno voo do pássaro escorriam em si. E se a sensação de mar lhe era transmitida, ele sabia que era um mar muito mais remoto e vasto que aquele que diante de si se movia.
Respirava fundo, tinha medo, e escrevia como uma condenação — e nessa condenação encontrava um breve alívio para a dor das coisas vivas e mortas que o rodeavam. E o corpo, sempre apaixonado, tremeluzia quando o estranho anjo mudo lhe punha uma voz no coração.
Talvez seja por tudo isto que um dia nunca mais o lembraremos, nunca mais. Mas neste preciso instante ele acabou de acordar, abre os olhos, arde, é jovem ainda, e diz-me a sorrir:
- Aqui tens o inocente revólver para a eternidade."


Al Berto,
in O Anjo Mudo

Publicado por Conde em 12:33 PM | Comentários (3)

Cumplices Palavras

Numa linha de tempo desconhecida deixo-me amarrar por uma paixão que não posso ter. É uma dor que me vem habitar, mas que ao mesmo tempo me dá prazer. É a confusão que me beija nos lábios nas madrugadas que passo acordado a digerir essas palavras que quebram a minha frágil protecção. E depois vem o silêncio para comprovar a cumplicidade que trocamos no vazio de um mundo. Deixo-me dormir com um leve sabor na língua a canela.

Publicado por Conde em 12:29 PM | Comentários (2)

fevereiro 05, 2004

Respiração Eterna

"... E eu, que odeio a vida com timidez, temo a morte com fascinação. Tenho medo desse nada que pode ser outra coisa, e tenho medo dele simultaneamente como nada e outra coisa qualquer, como se nele se pudessem reunir o nulo e o horrível, como se no caixão me fechassem a respiração eterna de uma alma, corpórea, como se ali triturassem de clausura o imortal. A ideia de inferno, que só uma alma satânica poderia ter inventado, parece-me derivar-se de uma confusão desta maneira - ser a mistura de dois medos diferentes, que se contradizem e malignam."

Fernando Pessoa

Publicado por Conde em 11:07 AM | Comentários (8)

fevereiro 04, 2004

Despertar Para O Vazio

Existe um vazio que me faz doer todo. Cada membro cada interior chora por não haver mais nada senão a dor do vazio. Inabitado permaneço junto á linha de um horizonte fechado por uma morte que só eu vejo quando fecho os olhos. Embriagado de um desespero inexplicável perco-me nos caminhos da loucura e desoriento-me de ti... onde estás?

Publicado por Conde em 10:41 PM | Comentários (6)

Morte de Rimbaud

"Todos os pássaros sossegaram.
As crianças desceram das árvores, guardaram os jogos, recolheram a casa.
Levanto a cabeça e deixo a voz deambular por dentro deste silêncio de água e estrelas.
A noite está próxima.
Deixo o corpo escorregar na poeira luminosa.
Acendo um cigarro, ponho-me a falar com o meu fantasma.
Longe daqui, a cidade enfeitou-se com os seus crimes de néon, com as suas traições... ouço hélices de barcos,
motores... quando um rosto esvoaça ao alcance da mão."

Al Berto

Publicado por Conde em 11:21 AM | Comentários (1)

fevereiro 03, 2004

Jardim Nocturno


Nesta bruma asfixiante, desenha-se o meu caminho que percorro todas as noites neste ou noutros mundos. Onde quer que seja, a sua beleza é constante e cada passo que dou encontro-me a desejar que o tempo pare, para que esta imagem fique gravada nos meus olhos, mesmo sabendo que na noite seguinte a poderei contemplar novamente.

Publicado por Conde em 09:53 AM | Comentários (5)

fevereiro 02, 2004

Notas Para O Diário

"deus tem que ser substituído rapidamente por poemas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis, vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto de enganos, da sorte e de encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade de outro corpo.

a dor de todas as ruas vazias

pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lisboa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem cadastro.

a dor de todas as ruas vazias

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias

os poemas adormeceram no desassossego da idade. fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas... e nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias"

Al Berto

Publicado por Conde em 01:26 PM | Comentários (2)

fevereiro 01, 2004

Silhueta de Solidão

Entre a magia exposta pelo transpirar das árvores, destaca-se na noite escura uma silhueta de solidão e doce malícia. O seu movimento é calmo e sábio, passeando por entre folhas mortas sem provocar um único ruído. Vejo o luar reflectido nos seus deambulantes olhos como uma chuva de brilhantes. E observo incessantemente, apaixonado por cada movimento, cada olhar hipnotizante que me revela aos poucos o seu manto negro de veludo, roçando nas ervas silenciosamente.
Essa silhueta de solidão era tua, gato preto que passeias por mim nas horas de tédio.

Publicado por Conde em 12:07 PM | Comentários (2)