"A Prudência é uma rica, feia e velha donzela cortejada pela Impotência."
William Blake
-Meu corpo, que mais receias?
-Receio quem não escolhi.
-Na treva que as mãos repelem
os corpos crescem trementes.
Ao toque leve e ligeiro
O corpo torna-se inteiro,
Todos os outros ausentes.
Os olhos no vago
Das luzes brandas e alheias;
Joelhos, dentes e dedos
Se cravam por sobre os medos...
Meu corpo, que mais receias?
-Receio quem não escolhi,
quem pela escolha afastei.
De longe, os corpos que vi
Me lembram quantos perdi
Por este outro que terei.
Jorge De Sena
A cor do meu pensamento mancha o chão de vermelho, como se sangue fosse. Os cadáveres já não dançam ao som das minhas melodias fúnebres, pois já nada os move da terra... apenas o silêncio pernoita entre as notas da música que as palavras soltam...
"A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;
Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.
Brilho... e a noite depois! - Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?
Longe daquí! tarde demais! nunca talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!"
Charles Baudelaire
Tradução de Guilherme Almeida
"Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.
(...)
A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos."
Fernando Pessoa

Aqui dentro, roubo ao tempo um pedaço de eternidade para beber com uma solidão imaginária... que se torna tão real quanto estas palavras. Lá fora, observo uma multidão ocupada com vidas tão irreais quanto a minha solidão.
"Tudo é vão, como mexer em cinzas, vago como o momento em que ainda não é antemanhã. E a luz bate tão serenamente e perfeitamente nas coisas, doura-as tão de realidade sorridente e triste! Todo o mistério do mundo desce até ante meus olhos se esculpir em banalidade e rua."
Fernando Pessoa
O corpo levanta-se, mas tu cais num escuro vazio. É uma morte que humedece os lábios secos do frio nocturno. O corpo deita-se, mas tu ergues-te numa claridade repleta. É uma vida que seca os lábios húmidos do calor matinal. Mas aqui e agora, nenhum corpo se levanta ou cai. Nem a morte nem a vida humedece os lábios secos do calor repleto ou do frio nocturno. Estamos suspendos pela apatia do mundo que abandonamos constantemente nos dias das cinco luas matinais...
Na penumbra das paisagens eu encontro um abrigo secreto... que esconde pensamentos tímidos na mistura de todas as cores. O seu conforto é triste e acolhedor, como aquela pequena dor que não consigo sentir ao tocar o sol.
Nessa penumbra, ao sentir-me saturado do mundo escondo-me do dia, das pessoas, e da minha alma feliz, porque ela torna-me irreal...
O Lado Negro Das Palavras encontra-se num breve sopro de descanço, regressando no Sábado.
"Cada alma é por si só uma sociedade secreta."
Marcel Jouhandeau
Descanço os meus olhos do brilho que a vida me provoca. Sem esperança, apenas uma melancolia que bebo no meu cálice feito de solidão. O pó dos anos mistura-se nesse néctar. Mas nem anos foram. As vidas nãos se medem por dias, meses ou anos... mas sim por breves melodias funebres que ecoam numa paisagem triste e cinzenta como a do teu rosto... A tua face lembra-me um rio taciturno e silêncioso, onde a menor brisa provoca uma expressão suave. Tudo isto atiça-me os sentidos e deixa-me na boca um sabor a morte.