abril 29, 2004

Caos Silencioso

Oiço. Oiço o mundo a morrer ao compasso do nosso fôlego exaltado. Ouve. Ouve o desespero no canto das aves que nos rodeiam. Ouve os uivos que nos chamam na manhã gelada. Oiço. Oiço a nossa vida esgotar-se em sintonia com o mundo. Ouve. Ouve a mórbida brisa matinal soprar nas árvores despidas. Ouve os seus galhos em agonia a gritar o nosso nome... Silêncio. Deixei de ouvir. Morte. Porque não me ouves?

Publicado por Conde em 10:54 PM | Comentários (2)

abril 28, 2004

Omen Sinistrum


"Beija o cadáver, abençoado alvo, caminha pelo jardim da noite. Segura a carcaça, doce mentira, enterra o corpo que escolheste negar. Desfaz uma lágrima, suspensa em medo... Aqui todas as almas estão esfomeadas."

Sopor Aeternus
Imagem de Edvard Munch

Publicado por Conde em 11:52 PM | Comentários (3)

abril 26, 2004

Dança Da Crueldade

"Língua do silêncio, lambe-me os lábios. Rouba-me os pensamentos. Rouba-me o orgulho. A minha alma jaz oferecida enquanto espero. Intoxica-me quando entrares. Segura as minhas mãos. As minhas mãos tremem. A tua beleza rouba-me o fôlego. Fragantes perfumes encobrem-me os sentidos. Segura nas minhas mãos, doce tormento. Das trevas todos viemos. O voo das trevas é vão. Eu sou o banquete. Eu sou a delícia. Nas trevas cairemos outra vez..."

Sopor Aeternus

Publicado por Conde em 08:55 PM | Comentários (2)

abril 25, 2004

Minha Traição

Mil e uma faces envoltas no fumo do desespero matinal. Por vezes sento-me no parapeito da consciência, indeciso de mim próprio. O verde que inunda os meus olhos é a minha traição...

Publicado por Conde em 11:36 PM | Comentários (2)

abril 24, 2004

Facas Em Sangue

"Vivia na temperatura tépida dos lençóis
Aquele que dava pelo estranho nome
De Amor. Às vezes soltava-se
E percorria pela mão
Dos adolescentes ruas desertas, sombras
Escuras e conspiradoras - soltou-se
O Amor - alguém gritava.
E vinha o vermelho e invadia o vermelho
E assanhavam-se os gatos conscientes
Da invasão da sua noite
Solitária. Depois apagava-se
A última luz da última janela e desaparecia
O Amor na tépidez dos lençóis.
Ficava a lua, ficava
O luar azul a reflectir perigosamente
Nas lâminas ensaguentadas
Dos adolescentes..."

Mão Morta

Publicado por Conde em 07:22 PM | Comentários (4)

Sombras Do Entardecer

Sombras impuras pintam tudo de cores desconhecidas. O entardecer apaga-se aos meus olhos tempestuosamente cegos. A noite vem-me roubar a consciência... os mortos desejam o doce veneno que corre nas minhas veias.

Publicado por Conde em 06:58 PM | Comentários (1)

abril 23, 2004

Ser Morte

"Somos morte. Isto, que consideramos vida, é o sono da vida real, a morte do que verdadeiramente somos. Os mortos nascem, não morrem. Estão trocados, para nós, os mundos. Quando julgamos que vivemos, estamos mortos; vamos viver quando estamos moribundos.
Aquela relação que há entre o sono e a vida é a mesma que há entre o que chamamos vida e o que chamamos morte. Estamos dormindo, e esta vida é um sonho, não num sentido metafórico ou poético, mas num sentido verdadeiro.
Tudo aquilo que em nossas actividades consideramos superior, tudo isso participa da morte, tudo isso é morte. Que é o ideal senão a confissão de que a vida não serve? Que é a arte senão a negação da vida? Uma estátua é um corpo morto, talhado para fixar a morte, em matéria de incorrupção. O mesmo prazer, que tanto parece uma imersão na vida, é antes uma imersão em nós mesmos, uma destruição das relações entre nós e a vida, uma sombra agitada da morte.
O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.
Povoamos sonhos, somos sombras errando através de florestas impossíveis, em que as árvores são casas, costumes, ideias, ideais e filosofias.
Nunca encontrar Deus, nunca saber, sequer, se Deus existe!
Passar de mundo para mundo, de encarnação para encarnação, sempre na ilusão que acarinha, sempre no erro que afaga.
A verdade nunca, a paragem nunca! A união com Deus nunca! Nunca inteiramente em paz, mas sempre um pouco dela, sempre o desejo dela!"

Fernando Pessoa

Publicado por Conde em 07:37 PM | Comentários (1)

abril 22, 2004

Erotismo Nocturno


Sinto o frio da sua pele que me escalda os sentidos. O seu toque é um misto de amor e morte que me revela mundos insondáveis que nem os olhos vendados me impedem de ver...

Publicado por Conde em 09:27 AM | Comentários (5)

abril 21, 2004

Sonho De Veludo Negro

Quero... quero provar todos os venenos do mundo, sentir o seu sabor penetrar na língua e inundar furtivamente o olfacto. Sentir o leve ardor interior a chamar a morte. Quero... quero cair de todas alturas, sentir o coração a deslizar pela garganta e pintar o chão de vermelho. Sentir o despedaçar do corpo contra a pedra. Quero... quero sentir todas as lâminas, sentir a sua dolorosa carícia na pele, cortando o azul das veias. Sentir a frieza do gume roçar no osso. Quero... quero, quero... Já não sei o que quero. Nada mais me desperta desde que te provei a ti.

Publicado por Conde em 09:55 PM | Comentários (2)

abril 19, 2004

Abismos

"Nós nunca nos realizamos. Somos dois abismos - um poço fitando o céu."

Fernando Pessoa

Publicado por Conde em 10:48 PM | Comentários (2)

abril 18, 2004

Espaço Vazio

Aqui sente-se o espaço vazio que ecoa no infinito do ego, ferido outrora por lâminas da eternidade...

Publicado por Conde em 11:03 PM | Comentários (1)

abril 17, 2004

Gumes

"Na noite que se avizinha, um mar de gatos com cio invade os sotãos, ensanguentando as memórias com a dor pungente dos dias em que o gume, o terrível gume das horas afiadas, rasgava os espíritos. Já o clarão das ruas toldava os cérebros com angústias venenosas e vertigens de suicídios sonhadores, na vontade de fugir ao inóspito vazio do tempo da ausência..."

Mão Morta

Publicado por Conde em 11:59 PM | Comentários (6)

abril 16, 2004

Traços Tiranos

Perdi-me no silêncio de uma madrugada inconsciente, deixando para trás uma multidão de rostos sisudos com traços tiranos. Fui procurar a linha do horizonte, para nela me sentar a ver o mundo. Preferi assim, perder-me eternamente, para eternamente me encontrar...

Publicado por Conde em 11:50 PM | Comentários (1)

abril 15, 2004

Veludo Vermelho


"Catherine Blake sonhou um horror. Da paixão e também de terror. Sobre suas sombras silenciosas do peito varridas, as máscaras acariciaram..."

My Dying Bride
Imagem de Tintones.com

Publicado por Conde em 11:43 AM | Comentários (4)

abril 14, 2004

XXXII

"Estava eu numa noite com uma atroz judia,
Como ao pé de um cadáver um outro estendido,
E então pus-me a pensar, junto ao corpo vendido,
Nessa triste beleza de que eu prescindia.

E logo lhe evoquei a inata majestade,
A graça do olhar tão cheio de vigor,
Os cabelos, parecendo um elmo perfumado,
Cuja recordação me desperta o amor.

Pois com fervor teria beijado o teu corpo
Desde os viçosos pés até às tranças negras,
Pra te mostrar o cofre das maiores carícias,

Se uma noite num choro espontâneo, sem esforço,
Ó rainha cruel! conseguisses ao menos
Turvar o resplendor dessas frias pupilas."

Charles Baudelaire

Publicado por Conde em 07:54 PM | Comentários (2)

abril 13, 2004

Dor Incerta

A tua dor não pesa nos ombros da morte. Só os sonhos sabem o quanto em mim pesas...

Publicado por Conde em 11:56 PM | Comentários (2)

abril 12, 2004

Tempestade Latente

"Três dias seguidos de calor sem calma, tempestade latente no mal-estar da quietude de tudo, vieram trazer, porque a tempestade se escoasse para outro ponto, um leve fresco morno e grato à superfície lúcida das coisas. Assim à vezes, neste decurso da vida, a alma, que sofreu porque a vida lhe pesou, sente subitamente um alívio, sem que se desse nela o que o explicasse.
Concebo que sejamos climas, sobre que pairam ameaças de tormenta, noutro ponto realizadas.
A imensidade vazia das coisas, o grande esquecimento que há no céu e na terra..."

Fernando Pessoa

Publicado por Conde em 07:22 PM | Comentários (5)

abril 11, 2004

Leve Beijo Mortal

Um sopro arrasador no final da tarde sombria que arrefece as emoções esquecidas num recanto ardente... As peças voam sem nunca encaixarem. Os corpos outrora transpirados pelo fim de tarde, tornam-se frios à luz lunar. A vida abandona os olhos embriagados em esperança e vem a morte embalar-nos no seu berço. Adormecemos com um leve beijo mortal.... e nunca mais iremos acordar.

Publicado por Conde em 11:59 PM | Comentários (0)

abril 07, 2004

Trevas E Luz


Nas trevas jaz a minha alma, até que o sol venha roubar a minha confortável melancolia.

Fotografia de António Jorge Nunes

Publicado por Conde em 10:57 PM | Comentários (8)

abril 06, 2004

O Desejo Da Morte

Num desespero profundo, os seus olhos perderam a vida que os habitava. Por longos momentos já nada parecia valer a pena. Tudo estava perdido. Uma das coisas que mais amava tinha sido abalada por algo desconhecido. Talvez tivesse sido o medo que lhe sustinha a fala enquanto dava à luz um horror encoberto, que o paralisava. Mas ele sempre com um sorriso na cara disfarçou tudo e escondeu que estava a morrer por dentro. A morte beijou-lhe a face e desejou-o... mas ele não foi.

Publicado por Conde em 10:44 PM | Comentários (0)

abril 04, 2004

Triste Espera

Ando perdido nos meus pensamentos,
Por entre devaneios e loucuras.
Seguido por infindáveis tormentos,
Paixões, medos e ilusões obscuras…

Anseio pela luz da salvação.
Aguardo pelo enterro do meu passado.
Minha alma implora pela ressurreição
De um corpo pela dor cremado…

Escuto, ao longe, a voz da perdição
Que me chama à medida que se afasta,
Querendo levar-me consigo!

Mas meu espírito permanece imóvel
Na triste espera de uma mudança
Que tarda em chegar…

Karl Goth

Publicado por Conde em 01:25 AM | Comentários (7)

abril 03, 2004

Madrugada

O sopro da eternidade assombra-me nas horas em que morro lentamente... A dor perde o sentido num guincho aguçado, que se espalha pelo corpo fora. A sensação de que nunca se morre nem nunca se vive... nunca se é nada, senão um corpo automatizado e sem vontade própria. O peso dos olhos já não se faz sentir. Deitado como se num caixão estivesse, fito a brancura matinal do tecto com olhos cansados... ao som de uma amanhecer oferecido pela insónia.

Publicado por Conde em 11:08 PM | Comentários (1)

abril 01, 2004

Morta Mente

Por onde passeias mente imunda?
As tuas imagens já não revelam nada,
Apenas traços confusos ao som do vento.
Que não cicatrizam esta ferida profunda...

Por onde vagueias mente insana?
Os teus sons já não vibram em mim,
Apenas notas confusas ao som da chuva.
Que não cicatrizam esta ferida tirana...

Por onde permaneces mente morta?
Nada em ti revela alguma coisa,
Apenas nada ao som do eterno vazio.
Que cicatrizou esta ferida deixada por uma esquecida porta...

Publicado por Conde em 11:50 PM | Comentários (2)