maio 31, 2004

Volúpia

"No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A núvem que arrastou o vento norte...
- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças..."

Florbela Espanca

Publicado por Conde em 11:25 AM | Comentários (4)

maio 26, 2004

Fonte Carnal

Bebo um pouco de ti todas as noites... na esperança de que a tua fonte nunca seque.

Publicado por Conde em 11:52 PM | Comentários (6)

maio 25, 2004

O Tédio

"O tédio... É talvez, no fundo, a insatisfação da alma intíma por não lhe termos dado uma crença, a desolação da criança triste que intimamente somos, por não lhe termos comprado o brinquedo divino. É talvez a insegurança de quem não precisa mão que o guie, e não sente, no caminho negro da sensação profunda, mais que a noite sem ruído de não poder pensar, a estrada sem nada de não saber sentir...
O tédio... Quem tem Deuses nunca tem tédio. O tédio é a falta de uma mitologia. A quem não tem crenças, até a dúvida é impossível, até o cepticismo não tem força para desconfiar. Sim, o tédio é isso: a perda, pela alma, da sua capacidade de se iludir, a falta, no pensamento, da escada inexistente por onde ele sobe sólido à verdade."

Fernando Pessoa

Publicado por Conde em 11:59 PM | Comentários (0)

maio 24, 2004

A Sepultura


O desespero de uma pedra, pintado a cicatrizes. É fria essa mármore que pesa sobre ti. Mas não tão fria quanto a minha noite que lentamente cai sobre o teu cadáver...

Publicado por Conde em 11:57 PM | Comentários (2)

maio 23, 2004

Janela Gelada

Inalo o medo com um olhar perturbador através da janela gelada... Só o oiço a ele... o resto é silêncio nocturno que grita na minha cabeça.

Publicado por Conde em 07:05 PM | Comentários (4)

maio 21, 2004

Sombra Ausente

Por quem me tomas, sombra desmoronada sobre tempos passados? O teu peso já não me verga as costas para o horizonte distante. O teu peso tornou-se suave como o bater de umas asas, como o enterrar de umas mandíbulas na tenra pele delicada do pescoço pálido. Deixaste de me assombrar nas noites esquecidas pelo frio. Agora és a minha sombra... o meu respirar... o meu caminhar... o meu despertar, projectada numa parede vazia de vida.

Publicado por Conde em 08:54 PM | Comentários (1)

maio 20, 2004

A Queda

"E eu que sou o rei de toda esta incoerência,
Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la
E giro até partir... Mas tudo me resvala
Em bruma e sonolência.

Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de oiro,
Volve-se logo falso.., ao longe o arremesso...
Eu morro de desdém em frente dum tesoiro,
Morro à mingua, de excesso.

Alteio-me na cor à força de quebranto,
Estendo os braços de alma- e nem um espasmo venço!...
Peneiro-me na sombra - em nada me condenso...
Agonias de luz eu vibro ainda entanto.

Não me pude vencer, mas posso-me esmagar,
- Vencer às vezes é o mesmo que tombar -
E como inda sou luz, num grande retrocesso,
Em raivas ideais ascendo até ao fim:
Olho do alto o gelo, ao gelo me arremesso...

Tombei...
E fico só esmagado sobre mim!... "

Mario de Sá-Carneiro

Publicado por Conde em 11:08 PM | Comentários (2)

maio 19, 2004

Extase

Quando a vida não chega, beijamos a morte como se ela desejasse cada gota de veneno que suavemente ingerimos no calor da noite...

Publicado por Conde em 09:04 PM | Comentários (5)

maio 18, 2004

Lágrimas Ocultas

"Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!"

Florbela Espanca

Publicado por Conde em 11:47 PM | Comentários (3)

maio 17, 2004

Sintra


"Eu demoro-me apenas três ou quatro dias. O tempo de cavaquear um bocado com o Absoluto no alto dos Capuchos..."

Eça de Queiroz
Imagem de W. Colebrooke Stockdale

Publicado por Conde em 11:50 PM | Comentários (1)

maio 15, 2004

O Encontro

Na névoa taciturna do anoitecer, espero por alguém numa esquina de rua londrina. O som dos passos ecoa húmido sobre a calçada. A sombra desliza pelas paredes de pedra ao som dos candeiros acesos a meia luz. Aproxima-se... é quem eu espero certamente. Mas seus passos afastam-se agora noutra direcção, mergulhando de novo no silêncio confortável da rua chuvosa. A chuva miudinha, que se entranha pelas minhas roupas. Inunda o cheiro a terra húmida. Olho para o relógio e desisto de esperar... Provavelmente seria aquele vulto, mas arrependeu-se. O meu encontro comigo mesmo falhou novamente.

Publicado por Conde em 11:56 PM | Comentários (6)

maio 14, 2004

Vidro Ténue

"Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar."

Fernando Pessoa

Publicado por Conde em 09:10 PM | Comentários (2)

maio 12, 2004

Primavera De Destroços

"Caio nesses olhos apáticos
Caio nesse hipnótico abraço
Desta viagem entre flores plásticas
E coloridas manhãs de aço

Viveremos tudo revoltosos
Nesta Primavera de destroços
Sem dor, sem rancor, sem remorsos
Nesta Primavera de destroços"

Mão Morta

Publicado por Conde em 11:56 PM | Comentários (2)

maio 10, 2004

Subtil

Descolo-me por entre os pensamentos e o nevoeiro da manhã tardia. Tudo vazio, nem restia de vida. Parece que já sinto a saudade do teu olhar iluminado. Ás vezes paro completamente o que faço e apenas fico imóvel a olhar para tudo... e em tudo vejo-te a ti. Frágil, vulnerável. Mas só os meus olhos alcançam essa tua subtileza que transportas nos lábios ao falar. Páras o tempo, preenches o vazio e dás vida a tudo... Por ti sou embriagado em paixões infernais, encobertas pelas cortinas dos meus pensamentos e do nevoeiro da manhã tardia.

Publicado por Conde em 11:49 PM | Comentários (3)

maio 09, 2004

Delírios II

"são incontáveis as horas em que sou companhia ou lado de mim mesma... eu e um copo de néctar quase imaginário, que ora nasce doce e denso dos dedos que mordo devagarinho ora se socorre dos pensamentos mais profundos e desenraizados de consciência, quando sou só ser da terra que se mistura de mãos e joelhos com os instintos, num entendimento das essencialidades mais básicas e fundamentais que não carecem de contornos ou formas.
nesses momentos é fácil aceitar: as coisas são o que são. porque é outro o mundo.
lá fora o gemer de uma calçada cheia de passos alguns onde só os candeeiros bola parecem povoados de qualquer coisa, eles-os insectos-que descontinuam a verdade-são muitos-são tantos, ou sinónimos de sóis não nascidos à espera do amanhecer.
não ouso o sonho se ele me prende asas às costas e me fala da inevitável extinção dos que não se ajustam ao meio.
restam eles, os delírios (inconfessáveis)... o sabor exótico e ácido que se esquece nos meus lábios e com que acendo as manhãs."

Ana

Publicado por Conde em 11:59 PM | Comentários (1)

maio 08, 2004

Amor-te

"De gota em gota, o gemer solta a saudade. A tua dor é a minha liberdade..."

Amor-te

Publicado por Conde em 11:58 PM | Comentários (5)

maio 07, 2004

Delírios

Passo horas de convívio taciturno comigo mesmo... eu... e um copo de absinto, talvez imaginário, mas sinto o seu calor espalhar-se pelo corpo, sinto a sua inflamável embriaguez em mim. A madrugada pesa-me nas pálpebras. Lá fora, o som de uma rua vazia de vida e a ameaça de um sol ainda distante. Entorno-me sobre os lençois e sonho delírios inimagináveis...

Publicado por Conde em 03:07 AM | Comentários (4)

maio 06, 2004

Santuário Profano

As sombras contemplam um profano santuário a erguer-se na floresta mais profunda de cada alma, enquanto os mortos repousam os corpos já gastos pela vida...

Publicado por Conde em 10:47 PM | Comentários (7)

maio 04, 2004

Paisagem De Chuva

"Em cada pingo de chuva a minha vida falhada chora na natureza. Há qualquer coisa do meu desassossego no gota a gota, na bátega a bátega com que a tristeza do dia se destorna inutilmente por sobre a terra.
Chove tanto, tanto. A minha alma é húmida de ouvi-lo. Tanto... A minha carne é líquida e aquosa em torno à minha sensação dela.
Um frio desassossegado põe mãos gélidas em torno ao meu pobre coração. As horas cinzentas alongam-se, emplaniciam-se no tempo; os momentos arrastam-se.
Como chove!"

Fernando Pessoa

Publicado por Conde em 11:35 PM | Comentários (2)

maio 03, 2004

Sinistro Vento

As pegadas do sinistro vento, que pisa a terra da minha campa, são fundas como as cavernas da dor. Marcam a terra como se marcassem a minha pele... putrefacta. E a lua traz-me delírios todas as noites... febre... ilusões, que envenenam incessantemente os meus sentidos já aleatórios à tua beleza.

Publicado por Conde em 11:58 PM | Comentários (2)

maio 01, 2004

Gumes II

"Eu sou estas mãos que se fendem na areia como um velho pau
A serpente que se arrasta o corpo em assaltos ao olho do cosmos
Tudo vem a mim a escura escama dura dos monstros do fogo
Um ventre de rei em corcel alado de freio nos dentes
Flash
(...)
Flores carnívoras passam sua língua no ventre do lacrau
Os seus lábios grossos deixam escorrer o esperma quente
Prova a minha orelha
Prova o meu caixão
A morte ronda
A vida cresce
Floresce
Flash
Amanhece"

Mão Morta

Publicado por Conde em 01:53 PM | Comentários (1)