"Abriu a primeira porta que viu à mão e entrou.
Os seus olhos fotografaram instantaneamente o quarto.
Viu-a pelo espelho, imóvel, no limiar da porta.
Ela adiantou-se; ele tirou a pistola da algibeira.
Estremeceu na noite fria envolta em nevoeiro.
Havia vagões e pilhas de carvão por todos os lados.
Dentro da casa não havia sinal de vida.
Enfiado pela chaminé estava um corpo de mulher.
Quem matou a chabala?"
Mão Morta
As melodias ecoam soturnas pelo espaço intercalar das emoções. Soam a medo, soam a morte. As vozes circulam na atmosfera como almas centrífugas que formam um único corpo de luz moribundo e transparente. Ao fundo as montanhas devolvem-nos as ondas que libertámos. Regressam ... mas já perdidas de encanto. Morrem aos nosso pés. Sobra apenas o vazio que provocam em nós. Um vazio que saboreamos noite após noite quando nos silenciamos e adormecemos. E assim desfalece o nosso corpo abandonado pelo sono... essa melodia taciturna que nos vicia compulsivamente.
existem corpos, que estranhos, vogam pelos paralelismos acesos a cada novo dia, como se dos reflexos de um espelho partido emergissem sequências de uma mesma paisagem em muitos-tantos tempos diferentes, aqueles que distam o que se deita do que acorda, ainda aquele que se perdeu no sonho e o que se esqueceu de si enquanto esboço, no desprendimento da língua sobre a matéria licorosa de que é feito o espaço mudo de longevidade.
um agora, um pequeno agora, quanto baste, suficiente, para validar um corpo e trazer à luz as sombras de si, feridas de morte pela efemeridade do transito solar.
"Em mim todas as afeições se passam à superfície, mas sinceramente . Tenho sido actor sempre, e a valer. Sempre que amei, fingi que amei, e para mim mesmo o finjo."
Fernando Pessoa
Procurei... as melodias mais negras do mundo. Aquelas que deixam nos lábios um sabor a silêncio. Procurei a calma de um licor na madrugada do doce desespero. Soube bem ficar aqui no escuro... observando o mundo a dormir, observando apenas os movimentos dos seres que desafiam a noite. A isto chamo saborear a vida intensamente, não da outra maneira. Os doces guinchos espaciais que me quebram e moldam... Reconstrução. Mudança. Aperfeiçoamento.
As pedras ausentes de movimento, mutilam o vento que escoa por entre as árvores. O som das folhas espelha a tamanha leveza do meu pensamento condenado ás melodias extasiantes. Volátil. A vida evapora-se como esta chuva de verão que escorre em mim...
A partir de amanhã, o Lado Negro das Palavras terá mais uma pessoa a escrever. O seu nome é Ana e é autora do fabuloso blog Intensidez. Quanto ao segundo convidado, será ele Karl Goth (pseudónimo) e irá brevemente juntar-se também ao LNP. O que de momento não é possível devido a um pequeno imprevisto na abertura do seu login. Brevemente anunciarei mais novidades...
Com a aproximação do primeiro aniversário do Lado Negro Das Palavras, decidi fazer algumas alterações ao blog. Recrutei dois elementos que passarão também a fazer posts juntamente comigo. Adianto-vos que são duas pessoas que provavelmente já leram. Apenas aguardo a abertura das suas contas no blog pela parte do weblog.com.pt. Será tudo breve, como a carícia cortante da brisa gelada...
"Como uma esperança negra, qualquer coisa de mais antecipador pairou: a mesma chuva pareceu intimidar-se; um negrume surdo calou-se sobre o ambiente. E súbito, como um grito, um formidável dia estilhaçou-se. Uma luz de inferno frio visitara o conteúdo de tudo, e enchera os cérebros e os recantos. Tudo pasmou."
Fernando Pessoa
"Não creio em ti Deus-Padre omnipotente,
Criador desse espaço constelado,
Que do Caos e o Nada conglobado,
Arrancaste o Universo refervente;
Não creio em ti, Deus-Filho em cuja mente
Foi o Bem inefável feito e nado;
E não creio no Espírito, gerado
Do eterno Amor, como uma chama ardente…
Saibam-no a terra e os céus: do Credo antigo,
Cheio de Graça e Fé, refúgio e abrigo,
Bênção da noite e prece da manhã,
Só creio no Pecado inelutável,
Na Maldição primeira inexplicável,
E no eterno reinado de Satã!"
Antero de Quental
Carregas a escuridão nos ombros, como se vida fosse. Rouba-te o fôlego essa manhã infernal de sons abafados que ecoam pelas paredes da tua tela. Respira apenas o silêncio. Respira fundo que a noite não tarda...
"Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida verdade, o Sentimento!
-- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...
Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
-- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento...
São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!
Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!"
Florbela Espanca
Morrem as flores, morre a verdura do teu chão... sobram as cinzas das tuas lágrimas que queimaram tudo à sua passagem. A vida desfalece ao longo dos teus braços... Não gastes forças a tentar agarrá-la. Ela escoa como areia fina, como um doce líquido de mãos dadas com o tempo... e no fim do teu caminho apenas a morte te espera com um abraço frio e negro. Serão esses arrepios de medo ou prazer?
"Os teus passos ecoam ao fundo da rua húmida e fria da tua existência. Abandonaste-me. E agora pergunto-me se sabes o que é o imenso vazio do ser, a dor de não te ter ao meu lado. Subitamente invadida pelo frio que emana da tua ausência, os meus olhos fixam-se na luz tremeluzente e distante, e observo-te… afastas-te a passos largos de mim como se de mim fugisses, inundas-me de tristeza. Ergo a mão ao encontro da tua silhueta negra na névoa da noite e suavemente a acaricio antes de dobrares a esquina, apressada. Mergulhado no desespero caio no chão, as minhas lágrimas fundem-se com a chuva… Só.
Solto um grito mudo…Porque me abandonaste?"
Beatriz Soares
"Sussurros imaginários
Que passeiam e deambulam
Pelos cantos vazios e escuros
Do meu quarto…
É o eco da tua voz
Que me mantém este sorriso louco
E feliz na face…
Vã e insólita
É a esperança de te ter finalmente
Em meus braços…
Até quando vai a ilusão
Deste amor impossível
Assombrar as minhas noites
E fazer-me evocar o teu nome
Com ansiedade?
Oh mente doentia, a minha!
Por mais que saiba
Que nunca te vou ter,
És tu, meu doce Anjo,
Quem, eternamente, eu vou querer…"
Karl Goth

O dia sufoca as paredes da inconsciência. Sinto esse sufoco a cada sol que nasce. Esperar pela manhã deixou de fazer sentido. Agora, como sempre, só quero a noite no meu colo... como um gato que esconde duas luas de insónias com o fechar dos olhos cansados.
Um conto de Glauber Ramos de França Lima.
"Atravesso a rua. Ainda não é noite, mas os postes já começam a iluminar. As pessoas normais preferem a claridade, sentem-se mais seguras assim. Não eu. Para mim, a luz é uma incómoda visita, uma intrusa que, sem pedir licença, adentra a sala da minha consciência, mexe nas gavetas do velho armário de memórias e coloca à vista todos os meus defeitos e fraquezas.
O lado oposto é sombreado por um conjunto de fícus e mangubeiras irregularmente dispostos. As árvores deviam ser podadas com mais frequência, é verdade. Porém, mesmo que seja obrigado a inclinar-me para desviar dos galhos mais baixos, ainda acho que tal desleixo seja útil, pois evita que qualquer pessoa do lado oposto reconheça quem esteja passando por aqui.
O chão é assentado por um conjunto de pedras mal encaixadas, deixando perigosos espaços que não raro levam ao tropeço e à queda os novatos que por aqui transitam. Não corro esse perigo. Conheço cada buraco, cada fenda do tortuoso caminho, deixando-me conduzir diversas vezes com os olhos fechados. Contudo, respeito-o profundamente. E ele, a mim. Difere o lado claro pelo calçamento impecável, inclusive com aclives para deficientes físicos. No lado claro, comunhão. Lado escuro, solidão.
As pessoas que preferem o lado escuro pertencem a duas classes principais: os fotofóbicos e os noctívagos. Fotofóbicos são aqueles que por algum motivo de foro íntimo não suportam a luminescência natural e artificial. São os chamados vampíricos. Certa vez, ao passar pelo caminho, cruzei com uma jovem que me fitou profundamente por alguns segundos. Seu rosto era pálido e inexpressivo. Entretanto, sua áurea era de morte, e se a morte possui qualquer espécie de face, certamente assemelhar-se-á demasiadamente ao rosto daquela garota. Assim, fazem parte desse grupo as pessoas dotadas de extrema feiura - na maioria das vezes tal conceito reside somente na psique do indivíduo, mas encontra-se tão arraigado que acaba por levar essas pessoas a um estado extremo de reclusão - que encontram na escuridão o abrigo e o conforto contra um mundo o qual cada vez mais cultua a estética do corpo e celebra a ignorância da alma.
Com relação aos noctívagos: estes sim são os verdadeiros donos da escuridão. Alimentam-se dos restos da noite. Ganham forma quando se fecham as lojas e diminui o ritmo do trânsito. Compreendem os mendigos de qualquer espécie, as prostitutas, os travestis, os artistas anónimos, como é o caso dos malabaristas de sinais, os ébrios eventuais e os poetas lunares. Dignamente, vendem suas misérias para sobreviver. A mãe nocturna é o seu abrigo, seu fundamento existencial. Sem ela, padecem à míngua. A prostituta e o travesti não poderiam vender o sexo senão sob o estigma da discrição e do anonimato. Os mendigos, principalmente as mulheres com crianças de colo ou grávidas, aproveitam a calma nocturna como meio de sensibilizar mais facilmente os motoristas. Assim também actuam os malabaristas e tantos outros artistas dessa qualidade, os quais aproveitam o poder de contemplação que a noite exerce. O ébrio quebra garrafas e grita loucamente sem ser censurado. E os poetas buscam no submundo a inspiração para seus versos existenciais de amor e solidão.
"A noite dissolve os homens...". A noite, a escuridão. Diluído, singro caminhos, passo desapercebido, sem qualquer espécie de incómodo. Um ou outro ainda me encaram nos olhos, mas logo caio no esquecimento. A própria existência é um grande esquecimento, um andar de alma sem corpo. Ainda ontem lembrei que precisava de sapatos novos. Para quê? Se os velhos apertam, paciência. A vida é isso, um imenso sacrifício."
Glauber Ramos de França Lima
"Factor universal do transformismo.
Filho da teológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme - é o seu nome obscuro de baptismo.
Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.
Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão...
Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção! "
Augusto dos Anjos