hoje falo-te de todos os sentidos estarem naturalmente alerta, como se subitamente a terra se fosse deslocar e cair por entre os meus dedos, e eu ficasse a ver, nenhum jeito de amparo, nenhuma forma de sustenção, nem mesmo um soprar para permitir à esfera a deslocação nas ondas de ar quente vindas do norte de África.
subitamente tudo poderia estilhaçar-se, biliões de fragmentos, minusculas puas com rostos, esporos sonoros - gritos!
penso neste sentir que percepciona o caos.
ele diz:
- assustas-me. assustas-me quando me fazes perceber a proximidade do grotesco e do sublime, o quão ténue é a sua diferença. assustas-me quando me despertas o instinto do abismo.
quente demais este ar abaixo do céu cinza. irrespirável. até para a terra. ela sufocará?
romper-se-á em espasmos, aglutinar-se em fendas que sugarão a paisagem?
um prenúncio de caos. igual ao que sinto em certas manhãs, quando dispo a nudez e a fragilidade do rosto. quando saio e deixo em casa os olhos que não deverão olhar para além do meu rosto, para que nunca lhes falte a razoabilidade, a honestidade do que é, do que simplesmente é e não mais. nenhuma vaidade, toda a ignorância do ego e das sublimações dos afectos. uns olhos rasteiros como um fio de água translúcido que nasce de si e morre em si e não poderá ansiar qualquer liberdade. o afago será o do gelo e da intemporalidade. poderei sempre aceitar que não exista. mas não é o caso, exijo a sua vida.
- quem se permite viver assim?
sob tantas formas e em tantos tempos...
Hoje o Lado Negro Das Palavras completa 1 ano de existência. Obrigado a todos os leitores!
"Noite fria e escura
É em ti que eu me refugio
Quando quero esquecer um mundo
Que me martiriza cada vez mais
Um mundo ao qual eu não pertenço
Noite triste e silenciosa
Que meus segredos guardas eternamente
Que de minhas mágoas me consolas
Em ti deposito a minha confiança
Tuas sombras são a minha protecção
E mesmo que seja vã
A esperança que me transmites
Conforta-me dos meus medos
Deixas-me adormecer em teu regaço
Sussurras-me ao ouvido histórias encantadas
Para que em meus sonhos eu possa ser feliz
Acompanhas-me nas horas de tédio
Partilhas comigo esta solidão agonizante
Noite que em tempos foste donzela
Pura e casta e sonhadora
E que do teu amor foste separada
Por uma maldição tão antiga como o tempo
Tu melhor do que ninguém
Entendes o meu sofrimento
A dor que eu sinto
Ao viver um amor impossível"
Karl Goth
Violentamente atacado por um rasgo de luz. Essa cegueira que provoca ruídosamente o lamentar da alma. Mas a luz morre devagar numa eterna luta contra a sombra... a porta fecha-se. E tudo retorna ao conforto nostálgico da penumbra, que nos abraça quente e abafada. Desliza o suor na pele, são as lágrimas do teu corpo que molham os lençóis. Cheia, a lua invade os nosso corpos. Serão uivos as nossas palavras? Uivos distantes. E os olhos feridos recuperam o seu brilho... rendendo-se ao suave toque dos teus lábios.

"Há muito que o sol deixou de brilhar.
O meu caminho é agora escuro e triste.
Estou sempre sozinho nesta caminhada
Errante pelo vazio…
O silêncio envolve-me a toda a hora.
Onde estou eu?
Sinto o chão a fugir…
O medo asfixia-me!
O meu corpo desintegra-se
À medida que os segundos vão passando…
O tempo, frio e gelado, parou.
Já não tenho esperança…
Já não anseio pela salvação…
O meu destino tem o sabor da fatalidade!
E eu, à beira do Abismo,
Sei que jamais me encontrarás…
Mesmo que eu grite,
A tua presença não passará
De uma triste e nostálgica ilusão!
Só isso…"
Karl Goth
uma vez mais
as rodas enormes rodam, rolam,
giram metros, quilómetros,
distâncias ao som de um tiquetaque surdo,
e afastam-me do ponto de partida,
que escurecido ou obscurecido pelo vidro embaciado, se esquece,
ponto diminuto agora passado.
não o vejo porque olho em frente,
decidida observo o vidro através do vidro e a minha vontade trespassa-o,
estilhaçando-o.
vejo-me correr à minha frente,
acompanhando o vento e chamando-o de contratempo
por ser norte e eu me sentir sul.
bebo-o, insaciável, e retenho-o como alento...
poderia voar!
de repente poderia até aceitar
que aquilo que vejo no horizonte é uma luz,
e que as paredes que embraçam, enlaçam, a minha marcha,
são claustrofobicamente vazias, isentas de vigilância,
e se poderiam chamar de "túnel"... túnel agonia.
sufoco, por minha conta e risco,
na ansiedade de chegar, pertencer
e o tiquetaque...
mas a luz que brilha ao fundo,
no fim do meu caminho aguarda,
presença continua da entrada de minha casa, chamando.
as rodas enormes rodam, giram velozes,
trazem-me e perseguem-me,
e regresso pela circunferência óbvia das milhares de milhas,
a onde parti.
depois de me ter perdido num simples piscar de olhos,
viagem alucinante do respirar, ou inspirar,
quando espreitei a noite entreabrindo a porta
(...estremeço...)
foi o meu espírito que se escapou?
Sopram os ventos negros, quais suspiros da minha alma. O som da aragem que os transporta forma breves melodias de solidão...
são tolos aqueles que ao fundo da cordilheira se envolvem nos seus próprios braços,
aqueles que descem os olhares ao mar perdido dos náufragos,
bem no centro convexo da abnegação,
que não se sabe e nem se lê,
- são folhas dispersas pelo vento,
só perdidas, fétidas de si.
(tolos!)
rói a corda o aflito
que segrega o silêncio da multidão
no aclamar do percurso dos seus membros,
quase répteis rente ao chão,
um gritar lancinante que verga os gumes,
e atrasa os momentos
em que eclodem as quimeras
retomando,
- no simular do respirar -
o enleio das esperanças vãs.
tolo,
lançando o cansaço no nu rendilhado do ombro,
enroscando o magma terreno no regaço,
equilibrando no largar do prato o desespero,
o corpo vazio de fé;
adormecendo na ultima noite,
no vale das palavras prenhes
- a dor suprema de um abraço que não se abre -
simulacro de leito de alvas penas
que já foram,
antes da rendição,
asas.
ao largo,
na fragilidade da encosta, rebenta a urze.
"Sinto às vezes, acordando na noite, mãos invisíveis que tecem o meu fado. Jazo a vida. Nada de mim interrompe nada."
Fernando Pessoa
"Estou cansado deste sofrimento
A minha existência
É um estado de coma profundo
Só no ópio eu encontro prazer
Prazer por horas
Prazer temporal
A luz cega-me a cada momento
Quero esconder-me na sombra
Da minha pobre e doentia vida
Preciso do licor maldito
Que me embriague e me faça esquecer
Tudo aquilo que me faz chorar
Veneno Veneno Veneno
Anjos e Demónios
Arranquem-me a alma
Acordem-me desta inutilidade
Desta apatia letal"
Karl Goth

Vaguear por entre as portas abertas das memórias... como se uma brisa fosse. Uma brisa negra que devora a luz. Vem apagar-me o amanhecer. Vem sussurrar a noite no meu ouvido, enquanto os dias morrem neste canto da minha mente, que habito vazio...
Convite
Nos dias 7, 8, 9 e 10 de Julho, estará em cena o espectáculo/performance DIZ-ME TU QUE TEMPO pelas 21h30m no Convento do Carmo em Évora. Encenação de Ana Ferreira e Laura Lamas (finalistas da Licenciatura em Estudo Teatrais), o espectáculo tem por base a obra de Proust, o existencialismo de Virgílio Ferreira e de Sartre e será produzido pelo Grupo Académico de Teatro da Universidade de Évora (GATUÉ). Esta será uma oportunidade para conhecerem Karl Goth, que faz parte do elenco.