"Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida verdade, o Sentimento!
-- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...
Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
-- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento...
São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!
Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!"
Florbela Espanca
"Sol dos insones! Ó astro de melancolia!
Arde teu raio em pranto, longe a tremular,
E expões a treva que não podes dissipar:
Que semelhante és à lembrança da alegria!
Assim raia o passado, a luz de tanto dia,
Que brilha sem com raios fracos aquecer;
Noturna, uma tristeza vela para ver,
Distinta mas distante-clara-mas que fria!"
Lord Byron
Infiltro o véu nocturno, contorno o silêncio com um lápis violeta, e desejo esta névoa taciturna que me adorna a silhueta. As mortes semeadas pelo chão frio, divagam sobre as pedras. E há vida nessas pedras. Eu ouvi-as sussurrar algo, o Omega da existência. E todo eu, envolto em silêncio e névoa perco-me debaixo da gelada luz lunar em paraísos da bela decadência que em mim se escondem.
"Aproximam-se as primeiras e tristes
Horas da madrugada
Estou sozinho no meu Mundo
Percorrendo caminhos feitos de pensamentos
E recordações
Imagens que desfilam pela minha mente
Ao ritmo de flashes de angústia e desespero
Fundidos com a saudade de momentos eternos
E que para sempre me atormentarão
Talvez tudo possa ser diferente num futuro próximo
Ou talvez não
Será este silêncio doentio
Suficiente para me fazer desistir de chegar mais além?
Será esta solidão mordaz
A razão do meu infinito sofrimento?
Perguntas vagas
E que ficarão sem resposta, certamente
Pois antes que esse futuro próximo chegue
É provável que eu passe para outro Plano
E para quê desistir seja do que for?
Se nestas primeiras horas da madrugada
Quando a insónia é mais asfixiante que nunca
Recebo o sinal de que o meu Anjo
Mesmo estando longe não me esqueceu
E assim permaneço triste e confuso
Até os primeiros raios de sol iluminarem
A minha tragédia"
Karl Goth
"Dormia tudo como se o universo fosse um erro; e o vento, flutuando incerto, era uma bandeira sem forma desfraldada sobre um quartel sem ser. Esfarrapava-se coisa nenhuma no ar alto e forte, e os caixilhos das janelas sacudiam os vidros para que a extemidade se ouvisse. No fundo de tudo, calada, a noite era o túmulo de Deus (a alma sofria com pena de Deus). E, de repente - nova ordem das coisas universais agia sobre a cidade - o vento assobiava no intervalo do vento, e havia uma noção dormida de muitas agitações na altura. Depois a noite fechava-se como um alçapão, e um grande sossego fazia vontade de ter estado a dormir."
Fernando Pessoa

Imagem de Shannon Hourigan
O peso do sol nos meus ombros faz sentir o destroçar da alma em pedaços de porcelana. A lua, sempre cheia para mim, vem deliciar o estranho habitante com brilhos e ilusões. Morro por tudo e por nada... Sou capaz de morrer mesmo sem querer. Por vezes perco-me nos meus caminhos assombrosos e quando dou por mim estou morto outra vez. A morte deixou de ter segredos. Morro sempre... por tudo e por nada, mas... sobretudo morro de tédio nas horas solarengas.