"Sem nenhuma censura ou cortes ela vem
desfilando entre crianças e postes
disfarçando seus cortes
sua postura, seu génio forte
cambaleia com meias arreadas
seu cabelo, suas roupas suadas
sua pressa em passos confusos
entre mulheres e homens sisudos
um suspiro e olhar cansado
nada por qual ja não tenha passado
mas mesmo assim, ela ainda vem...
ataduras retiradas
por fracas almas roubadas
ela vem com sua idade preocupante
na dúvida em seu caminho errante
ela vem com sangue quente nas veias
e de saltos em suas penduradas correias
ela vem e passa, e pára, tão rápido
ela vem...
da essência das rosas
dos espinhos e dores catastróficas
do sorriso fraco e desanimado
apenas mais uma rosa em seu jardim desfigurado."
hg__melancolia
"Muitas são as vezes em que a minha mente se confronta com ela própria
Nessas horas cruzam-se medos e recordações e tudo o que mais quero é desaparecer
Desejo nunca ter existido
Envolvido por uma solidão asfixiante desejo morrer
Permanecer esquecido para toda a eternidade
Cansei-me de viver e de respirar
A minha caminhada não faz mais sentido se é que alguma vez o fez
Sou um suicida um falhado um fracasso
E enquanto lá fora ouço risos de felicidade vindo daqueles a quem a dor de viver nunca tocou aqui dentro vou pensando na melhor maneira de me libertar
E de morrer"
Karl Goth
Saborear a solidão como um copo de vinho. Sentir o seu paladar a adormecer a visão. E deixar-me escorrer nesse rio da doce e eterna melancolia... Eu espero, como uma pedra, aqui mesmo... aqui mesmo onde me deixaste.
"O sol em fogo pelo ocaso explode
Nesse estertor, que os crânios assoberba.
Vivo, o clarão, nuns frocos exacerba
Dos ideais a original nevrose.
Da natureza os anafis mouriscos
Ante o cariz da atmosfera muda,
Soam queixosos, numa nota aguda,
Da luz que esvai-se aos derradeiros discos.
O pensamento que flameja e luta
Nos ares rasga aprofundado sulco...
A sombra desce nos lisins da gruta;
E a lua nova -- a peregrina Onfale,
Como em um plaustro luminoso, hiulco,
Surge através dos pinheirais do vale."
Cruz e Sousa in "O Livro Derradeiro"
"Uma brisa ergue-se no interior da terra e chega a mim, à consciência de mim: o meu rosto, os meus lábios, o meu corpo tocado por essa brisa. Caminho por entre essa brisa a passar por mim, como se atravessasse uma multidão invisível. A brisa, ao tocar os meus olhos, transforma-se em lágrimas que descem frias pelo meu rosto. Os meus lábios. Sinto-as e sinto a memória das vezes que chorei o desespero parado, mais triste, de lágrimas que descem lentamente pelo rosto. O tempo passa por mim como qualquer coisa que passa por mim sem que a consiga imaginar e as lágrimas, que eram apenas a brisa a tocar os meus olhos, começam a ser lágrimas de desespero verdadeiro. Paro no passeio. O mundo pára. E lembro-me de ti como uma faca, uma faca profunda, a lâmina infinita de uma faca espetada infinitamente em mim."
José Luis Peixoto in Antídoto
O corpo despedaçado pelo silêncio abandonou o espelho. Nele, apenas fica a alma negra no seu grito de desespero. A decadência do mundo silencia-me os sentidos...
Imagem de Shannon Hourigan
"Sabemos que conheces o frio e a solidão à margem das estradas quando a noite é tão escura, quando a lua morreu, quando existe um deserto de negro à margem das estradas. Olha para dentro de ti e encontrar-nos-ás. Olha para o céu, depois para as nuvens, e encontrar-nos ás. Nunca poderás esconder-te de nós. Esse é preço de caminhares sobre a terra onde, um dia, entrarás para sempre. As últimas pás de terra a cobrirem-te serão as nossas pálpebras a fecharem-se. Só então poderás descansar."
José Luís Peixoto in Antídoto.
"As horas vão passando
Silenciosamente
A noite cai e envolve-me
De tédio e agonia
A escuridão do meu quarto
Confunde-se com o frio do meu túmulo
Estou sozinho
Passam as horas
Vagarosamente
Os primeiros raios de sol
Avivam-me os meus sofrimentos
Minha dor de viver
Sozinho
Sempre sozinho
Vejo a vida correr na minha frente
Tudo o que faço é em vão
Pois jamais a poderei apanhar
Amaldiçoado e sem destino
Acorrento-me à minha infelicidade
Sentindo minhas lágrimas sobre a face
Choro sozinho
E as horas vão passando
Silenciosamente
A noite cai e ..."
Karl Goth
As sombras penteiam a vegetação húmida de pavor. Parecem escondidas do vento, como se ele as devorasse quando as vê. Por vezes, quando caminho na noite sem anjos, consigo senti-las roçando-se na minha roupa, como se chamassem por mim com um grito mudo de agonia. Nunca ando sozinho. Elas tão sempre lá, prontas a camuflar-me de negro.
"A minha poesia consistirá, só, em atacar, por todos os meios, ao homem, esta besta selvagem, e ao Criador, que não devia ter gerado semelhante criatura. Recebi a vida como uma ferida e não permiti que o suicídio curasse a cicatriz. Descobriram em minha fronte uma gota de esperma, uma gota de sangue. A primeira havia brotado dos espasmos de uma cortesã!... A segunda havia saltado das veias do mártir!... Odiosos estigmas!... Pois bem, escuta... a confissão de um homem que lembra ter vivido meio século, sob a aparência de um tubarão, nas correntes submarinas que varrem as costas da África... Não arrojarei a teus pés a máscara da virtude... teu respeitoso discípulo na perversidade, porém, não como um temível rival.. já que não te disputo a palma do mal, não creio que outro o faça: antes deveria igualar-se a mim, o que não é coisa fácil... a montanha já não está alegre... permanece solitária como um ancião... as casas existem, mas não se poderia dizer o mesmo sobre aqueles que nelas já não existem. As emanações dos cadáveres chegam já até mim. Quisera beijar seus pés, porém meus braços se fecham só sobre o vapor transparente. O fantasma se esquiva de mim: me ajuda a buscar seu próprio corpo. Finjo ignorar que meu olhar pode dar a morte, inclusive aos planetas que giram pelo espaço.. me encontro situado diante do desconhecimento de minha própria imagem... contra o ventre do granito... a pálida via láctea dos eternos pesares. Noite após noite, obrigo aos meus lívidos olhos a olharem as estrelas através dos cristais da minha janela. A eternidade muge como um mar distante."
Conde Lautreamont in Cantos de Maldoror
uma mancha que socorre o silêncio da escuridão profunda, assim é a minha boca enquanto respira.
uma língua naufrago, lábios tremeluzentes como gelo nómada e inconstante, sob a lua.
na cratera garganta habitam pequenos homens felizes, tão fértil a morada do soluço.

Imagem de Shannon Hourigan
"Ficamos horas a brincar sob a noite serena de verão
sentindo a leveza do futuro na ponta dos dedos
a confiança do absoluto
e a alegria do presente em estrofes perdidas nos confins dos séculos
num espantoso enlace com a beatitude
e as ideias terríveis
que nos assaltam o cérebro num faíscar de exaltação demente
como se o desejo fosse magia
na vertigem dos carros roubados para ir até à praia
como se o sangue que corre mais forte em crescendos de angústia
pudesse encharcar a terra e florir num outro espaço.
Vertigem
Depois estendidos no recato das dunas
a memória dos dias olvidada em agulhas rombas
ouvimos o jazz abrir a imaginação para deleites crueis e labirintos obscuros
despertando monstros escondidos
esvoaçando vampiros sanguinários por entre as sombras da realidade
num orgasmo de gritos sufocados e silêncios circulares
a droga que nos ilumina a mente
em torrentes de lava e espasmos descontrolados
a encher a noite de fantasmas longínquos e rodopios sonoros
o latido dos cães
num sarcasmo de conto de fadas.
Vertigem
Tudo é negro menos os nossos olhos
que dardejam luz no estupor da montanha incendiada pelo sol levante
já os nossos risos nervosos
soltos na velocidade da paisagem
desfilam para trás num bater de asas aflito e assustado
e o velho saxofone
como sereia rouca em calores de perdição
num sobressalto de vagas repentinas
abafa o chiar dos pneus
imprimindo correrias loucas ao granito macio da estrada
com que o mar cava a areia até aos nossos pés.
Vertigem"
Mão Morta
Regressam as lágrimas tilintantes que quedam lá fora. Ecoam e mim. Cheia de nostalgia, a terra húmida perfuma o ar que respiro no silêncio desta manhã chuvosa...
"Profeta do sofrimento
Encerro em mim
A Maldição da Humanidade
Corvo de dia
Morcego durante a noite
Carrego a morte nas minhas asas
A luz do sol faz de mim uma ave faminta
A escuridão da noite torna-me
Num mamífero sanguinário
Sou o Medo a Angustia
E tudo mais que sirva de agouro futuro
Levo a perdição
A todos os seres racionais
Induzindo-os ao pecado
Ao abismo
Sou um Anjo das Trevas
E tomo em meus braços
Todas essas almas rejeitadas pela Luz
Conduzindo-as a um outro Mundo
Por um caminho sem retorno
Onde a condenação é eterna
E a salvação jamais ecoará"
Karl-Goth
"Passam os dias, o refúgio da minha solidão, o sentimento de todo o existir estar trocado, a neblina que encobre o meu pensamento e não me deixa encontrar a razão de não haver tal espírito que seja meu. Vezes sem conta deixo cair um pouco do que sinto e subitamente fico paralisado deixando de existir para tanta gente, o meu corpo pede-me néctares que não sou capaz de entregar, arde por dentro o ser que me devia iluminar e que me consome a cada dia a energia que de tal ser desejo inconscientemente guardar."
Pedro Oliveira