A forma do desespero jaz no chão de pedra fria. Quantas vezes a pedra foi a minha roupa íntima que sussurrava segredos pelas arestas afiadas, beijando dolorosamente a minha pele. Segredos frios, segredos gelados, que só os meus ossos entendiam. Enquanto que o desespero...esse dormia calmo e aconchegado nas sombras do meu corpo. Habitando-as... Hoje a minha casa é um canto. Amanhã será o inferno...
Imagem de Antoine Villiers
Mais um buraco na parede. Ela vai ceder, eu sinto. No entanto encosto-me a ela com todas as forças, para a suportar. Parece firme por instantes mas os buracos já são imensos e profundos. Sem parede estaremos perdidos, será o fim de tudo!
A sua fina areia escorre nas minhas mãos. Uma ampulheta de carne viva para a contagem final da grande queda. E quando cair, não vai haver nada. Apenas um mundo novo inteiro por descobrir... Um mundo mental só meu, onde eu próprio não existo...
Sobre as pedras do vazio deita-se um corpo que caminhou o mundo num só momento, saboreou todos os prazeres num só instante, e perdeu a vida numa eternidade que não soube usar. São assim as pedras do vazio, sempre a suportarem os cadáveres do tempo que nada fazem senão peso sobre si mesmos.
"Ontem cortei uma veia,
foi um acidente.
- Mamã, o papá está demente.
Gostamos de foder em frente à nossa filha.
Não há segredos nesta família.
Gostamos de foder com a nossa filha.
Um tiro na unha.
Existe sangue no álcool.
O corpo do outro gajo.
Alguém mais se quer juntar a nós?
Há espaço que chegue."
Aires Ferreira
não, não são impressões vagas de movimento.
e não se trata de efeitos visuais, de estranhos jogos de sombras que se misturam com os ventos ou com os demais, que como eu, deambulam no corte da lamina.
são passos.
são.
sons ocos que depois se amaciam, um depois do outro, criando um ritmo.
a queda dos corpos cada vez que um passo, cada vez que um edificar de posição, cada vez que um inicio a fusão do não saber se o pé seguinte terá lugar ou ficará suspenso.
o medo.
de cair.
o medo.
de ter ocasionalmente um só membro onde por baixo o mundo inteiro em sufoco. um simulacro de Inverno derretendo os rostos e só e só o desespero que não mais, este desespero de ter carne viva arremessando-me contra o infinito. negro.

Imagem de Franz Von Stuck
"Tenho medo da minha própria sombra
Fecho os olhos para me refugiar dum mundo que não é o meu e entro num inferno de gritos que arde na minha cabeça
Não imploro por ajuda
Permaneço em silêncio
E obscureço-me
Esqueço-me que sou eu e passo a fazer parte do vazio que me rodeia
Tento ficar alerta e tudo o que ouço é o silêncio
Aos poucos o ruído dos passos de «alguém» que caminha pelo corredor aumenta
Esse «alguém» aproxima-se
Até que o sinto junto a mim
Abro os olhos e para meu espanto nada mais vejo do que o meu reflexo na alma de um ser que certamente terá o mesmo fim que eu
E sei que não estou sozinho
Jamais o estaremos"
Karl Goth
As sombras dançam no meu quarto. Sinto-as a moverem-se sobre mim, numa viciosa dança fúnebre. Rodopiam nos lençóis e nos cortimados, tomando formas mórbidas mas fascinantes. Estranhas são as suas melodias, que não as oiço. No entanto, elas dançam... incessantemente, ao ritmo da minha respiração apressada, ao ritmo do medo. E conforme a noite se dissipa, os seus movimentos vão-se intensificando, como se não houvesse tempo a perder. Como se só ganhassem vida nesta solidão sombria do meu quarto... Amanhã, quando voltarem, irei dançar com elas...
"Quem dorme à noite comigo
É meu segredo,
Mas se insistirem, lhes digo,
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo.
E cedo porque me embala
Num vai-vem de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.
Gritar: quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim
Gostava até de matar-me,
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim."
Reinaldo Ferreira
"São ventos de outra era
Que me sopram na memória
Tornados de quimera
Que ficaram na história
São beijos pueris
De traições anunciadas
São fúrias febris
Dementes, desesperadas."
Mão Morta
"Sonhei que de um barco era comandante.
Navegando por mares feitos de ilusão,
Penetrava na escuridão triste e sussurrante
Como um ser atormentado que busca errante
Uma luz que o leve à salvação.
Nesse barco à deriva pelo mar
Seguiam as fantasias de um poeta
Que nunca se chegaram a realizar.
Poemas escritos com lágrimas ao luar,
Com a angústia de ser o nada em parte incerta.
Acordei desse sonho a chorar,
Agoniado por tamanha frustração.
O barco continuava a navegar
E eu sem poder atrás voltar
Segui rumo ao oculto, à perdição…"
Karl Goth

Imagem de Jean-Marc Rulier
"Sentados sobre as camas de ferro dos seus quartos, lembraram-se:
encontrámo-nos. Naquele dia, perante a imagem verdadeira um do outro, sentiram: encontramo-nos.
No rosto dele, a esperança. No rosto dela, mais do que a esperança. Encontramo-nos. Encontrámo-nos. Encontraram-se. Foi ele que caminhou a distância pequena que ainda os separava. Foi ele que estendeu os braços. Ela baixou o olhar entre o seu corpo imóvel e a terra. Os braços dele sem uso. As palavras formaram-se dentro dela. As palavras aproximaram-se dos seus lábios. No silêncio, entre os seus rostos, as palavras existiram e foram um eclipse."
José Luis Peixoto, in Antídoto
Perdem-se os corpos na atmosfera, como se vento fossem. São empurrados continuamente em direcção ao nada, ao abismo que me separa de ti. O nosso abismo. Que construímos sem querer, com as mãos côncavas assediando a terra. E quando me chego à beira desse infinito precipício, consigo saborear as lágrimas que escorrem no teu rosto. Salgadas de saudade. Vou matar o tempo. Cortar-lhe as cordas que nos controlam, para não sentir as suas facadas até que esse abismo se una... e os nossos corpos... também.