
O caminho da vida que teima em curvar para a morte, marcando-a com pedras frias de eternidade. Por aqui, o anoitecer é eterno, o sono é leve e a solidão escorre pelas mãos dos corpos abandonados...
"Enterrei hoje minha mulher - porque lhe chamo minha mulher? Enterrei-a eu próprio no fundo do quintal, debaixo da velha figueira. Levá-la para o cemitério, e como? Fica longe. Ela pedira-mo uma vez, inesperadamente, acordando-me a meio da noite. Queria que a enterrasse junto ao muro que dá para o caminho, porque se vê daí a casa dela. Habituara-se a olhar para akele sítio depois que ficou só. E pensava: «Verei dali a janela do meu quarto.» Mas teria de transportá-la para lá. Não tenho forças e cai neve. A quantos estamos? É Inverno, Dezembro, talvez, ou Janeiro. Tiro a neve com uma pá, traço o rectângulo e cavo. Dois cães assomam à porta do quintal, chupados de ódio e de fome. Ainda há cães pela aldeia? Babam-se e uivam sinistramente. Tomo uma pedra, disparo-a contra um, desaparecem ambos a ganir. E de novo o silêncio cresce a toda a volta, desde a montanha que fico a olhar até me doerem os olhos. Olho-a sempre, interrogo-a. (...)
Trago o corpo de minha mulher embrulhado num lençol. É estranho como pesa. Dir-se-ia que a terra o exige com violência."
Vergílio Ferreira in Alegria Breve
"Sombras de névoa
Queimam-me a pele
Ebulem bolhas
Queimam-me a alma
Fito o crepúsculo
Pela última vez
O frio que transporto
Gela-me e Corta
Impelindo o sol abruptamente para a morte
Empurro o sol para a morte...
Calam-se os ventos
E eu torno a passar
Eleva a tortura eternamente
Sonho então
Com o alvorecer
Por entre os claustros
De outros destinos
Empurro o sol para a morte..."
Bizarra Locomotiva
"A nossa pálida razão esconde-nos o infinito."
Jean-Arthur Rimbaud
O Lado Negro das Palavras apresenta o primeiro livro de Karl Goth - Devaneios de um Herege. Uma compilação de 51 poemas, alguns dos quais publicados ao longo deste ano no blog. Os interessados no livro deverão enviar um e-mail ao autor pedindo uma cópia do livro em formato PDF.
"Em Carne viva
eu vivo.
Aranha dentro do vidro, espelho. Ela olha-te.
Passa-me a língua. Até a cortares. Até sentires,
a língua,
em carne viva.
Passa esses teus olhos húmidos,
pelas minhas pernas.
Cospe-me fumo, e olha-me.
Absorve cada letra da minha voz, e deixa que te toque.
Que te arranhe.
Que te lamba a orelha.
Em Carne viva,
Eu vivo.
Arrastado pela confusão,
sempre fora do caixão,
que nunca se deveria ter aberto.
Eu morro.
Eu morro,
para que me sintas,
Em carne viva."
Aires Ferreira

O silêncio…
O tempo passa e… Não existe…
Fica o silêncio… E a ausência…
A saudade…
Uma luz que se apaga… E permanece…
O medo de perder aquilo que… Nunca me pertenceu…
A mágoa…
Ao anoitecer… O silêncio… A saudade…
Não te tenho…
Karl Goth
Estreia no dia 3 de Março, próxima quinta-feira, a peça "O Crime do Século XXI" de Edward Bond, encenação de Luís Varela, no Teatro Garcia de Resende em Évora. O espectáculo é mais uma produção do Centro Dramático de Évora - CENDREV. A não perder...