"Existe um vazio em mim
que me cobre o corpo
como escudo.
Assim sendo, esse mesmo vazio
tornasse na minha decadencia,
alimentada por vicios medonhos
e prazeres bizarros.
A minha mente decresce em secundos,
perco-me em minutos,
e morro em horas
Que parecem enternas.
Sinto-me torturado
até ás minhas entranhas,
corre em mim sangue frio...
É tudo triste diante de mim.
Não o vês?
Será que serei eu o unico ser humano...
de mente ciente das loucuras
outroras disfarçadas de rosas espinhosas?"
Miguel Cristóvão
Unidas pela eternidade, elas passeiam-se ao brilho lunar...
"É escuro o meu pensamento,
Sou vazio.
Cada trago de ar que inalo,
Impregna o que os meus olhos vêem.
É triste o meu sorriso,
Arrastado para vícios incontroláveis.
Já nem o agarrar me consola,
Estou vazio.
Não sentes?
No olhar as chamas do longínquo,
O chorar por esquecimento.
Não sentes?
As gélidas mãos que se escondem…
E eu caio quase morto.
Abres uma espiral dentro de mim,
A cada segundo a queda aumenta.
O êxtase de estar ali.
O abismo que tornas-te incontornável,
Não sentes para me segurar.
Perdi a força nas imagens que me mostras-te."
Anónimo
"O vazio habita-me
Sou o caos a desordem a confusão
A minha mente é um penhasco
Onde eu procuro o meu trágico fim
Sinto-me torturado
Pelo ar que respiro
E o sol que me ilumina
Só obscurece a pouca alma que ainda tenho
Há muito que me perdi
E hoje
No meio deste turbilhão crepuscular
Já não me reconheço"
Karl Goth
"Quando a paisagem recolhe
Seus olhos, na tarde calma,
É como se alguém que se olhe
Com olhos de alma pra alma.
Se a paisagem esmorece,
Fechando os olhos doridos,
É como se alguém que perdesse
A noção dos seus sentidos.
Não se vê... não ouve... não fala...
Paisagem de si ausente,
Fico-me ausente, de olhá-la.
Caminho! Noite cerrada!
Sou a Paisagem de ausente,
Toda em mim transfigurada."
Almada Negreiros
Respirar...
Em compasso,
Respirar...
Ao ritmo da morte,
Respirar...
Esquecer de amar,
Respirar...
Em ti não pensar,
Respirar...
Não quero respirar.
"O brilho nas pedras do passeio. Dentro do nevoeiro, há pontos de luz
mais grossos a brilharem. Moedas lançadas para um lago cheio de desejos.
Caminho entre o brilho. Os meus passos afastam-me de nada. Existem veios
de medo na brisa que atravesso. Linhas de medo que me tocam a pele.
Atravesso a brisa e sou atravessado por uma voz que me diz: não podemos ser
felizes. O medo. Sobre mim, o céu é o tempo do mundo. Todo o tempo de
todas as pessoas do mundo. O céu é nunca mais. A lua somos nós, aquilo que
fomos. Como a memória, a lua existe nesta manhã para nos lembrar que
existiram noites, que existiu esta noite em que nos separámos. Caminho
sobre a organização das pedras do passeio, a organização do nevoeiro.
Rodeada pelo tempo do mundo, por nunca mais, a lua somos nós."
José Luís Peixoto