"Traz a lenha eu faço o lume,
E aproveita em quanto arder...
Depois do fogo só fica a cinza
E eu nunca fico lá para ver.
Lamento se trago comigo a desilusão,
Lamento se mal me consigo dar, continuamente!
Lamento ter asas e mal suportar qualquer prisão!
Lamento, principalmente, saber que nada dura eternamente!
Tudo o que vivo é um momento,
Um momento que jamais volta...
Talvez venha daí a minha insatisfação,
A minha dor omitida e a minha revolta!
A minha vida deixou de ter tempo para tentativas.
Percorri mil e um labirintos,
Mas em nenhum deles encontrei a “tal saída”!
Tanto tempo em que me sinto sozinha, perdida!
Largada num oceano de suor, lágrimas e sangue!...
Passados mil anos despertei para a vida,
Ganhei asas, criei coragem e saí daquele transe.
Agora que me sinto livre,
Não me tentem prender ao que quer que seja, não o irei permitir!
Mais uma vez lamento, lamento qualquer coisa,
Mas tenho a essência da vida por descobrir."
Maria João Moreno Mamede
"Os meus avós eram tristes, a mãe era uma triste, o meu pai triste era, os meus três irmãos todos tristes também. Fiquei só eu a tomar conta da funerária. O número de clientes no último mês desceu a um ritmo assustador. Compreendo-os. Dantes a minha família era responsável por um atendimento professional. Tínhamos também um grande cão preto no estabelecimento que entretanto morreu de causas desconhecidas. Suspeito que se suicidou ao asfixiar-se na maçaneta da porta de entrada. O cão era uma companhia simpática para nós e para as pessoas que nos visitavam naquela altura da vida. Ninguém mais passou por cá desde então. Sem saber porquê herdei este negócio para o qual não fui talhado. Arruinei o nome da empresa e sinto-me culpado por isso. O que quis sempre ser era jardineiro. Quando era pequeno havia um roseiral perto de casa. De vez a vez costumava entreter-me com as rosas, tocava nelas, cheirava-as, falava-lhes e parecia que me entendiam. Quando me vinha embora de lá regressava comovido e chorava muito como uma criança que perde o brinquedo predilecto ou leva uma bofetada injustificada. Depois chegava a casa e diziam-me: ao menos se brincasses com machados cortavas-te apenas. Eu próprio vou deixar de ser cliente da minha funerária. Já marquei tudo com outra agência: data, preço, local de enterro. Só não sei ainda é como é que vou morrer."
Paulo Eduardo
Poder parar o relógio doente
que corre as horas sem esperar
seria viver noutro lugar
seria habitar a minha mente,
Com os seus ponteiros parados
eu e tu viveríamos só o presente
o resto do mundo seria impotente
e os cantos do tempo, limados,
Mas o maldito relógio não paralisa
insiste em avançar o tempo futil
como se para nós fosse util
disfrutar o tédio, quando a vida desliza...
"Talvez ela no seu mutismo não escondesse nada. É certo que se apaixonou por um poeta depois de este ter morrido, que o visitava no cemitério diariamente e levava dálias e zínias para ele, que lhe recitava Apollinaire, que por vezes até pernoitava na companhia de um gato junto da campa do seu amado,segundo as palavras do jardineiro, e pintava os lábios do negro mais negro antevendo prazeres descritos num livro .Talvez ela no seu mutismo não escondesse nada e fosse uma rapariga simples igual às outras raparigas introvertidas da aldeia com o olhar recortado e as sobrancelhas enfraquecidas pelo tempo. Pouco se sabe do seu passado e o facto de permancer calada durante muito tempo a observar sozinha as depressões da paisagem,quando não trincava trigo maduro, fosse só uma maneira de esquecer o presente demasiado frívolo para quem consegue iludir o Tempo . Talvez ela no seu mutismo não escondesse nada e o enigma que crescia à sua volta fosse apenas uma diversão dos aldeões entediados com o calor forte dos dias e as noites minguadas sem o uivo dos lobos como sucedia. Talvez ela tivesse sido cantora noutra aldeia antes, ganho a atenção de muitos jovens dispostos aos mais incomuns sacrifícios de amor e hoje sofria na pele a rejeição da sua voz débil,de tom masculino fustigada pelos ventos áridos do Sul e procurasse com palavras seladas vingar o desgosto que não teve .Talvez... "
Paulo Eduardo