novembro 22, 2005

Livro Da Morte

"Cada letra que escreves é um morto a farpar os olhos.
Tantos mortos te cercam que caem-te do olhar palavras,
frases que são familias de mortos, multidões inteiras.
A morte arrepia-te a vista gota a gota.

Gritas com uma lasca de vidro na boca
chega um morto, um morto que ouve tudo
e trespassa-te uma faca na carne fria.

Uma parte do teu corpo enfraquece, cala-se.
Os mortos abrem uma fissura nesse silêncio
para viverem dentro de ti."

Paulo Eduardo

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novembro 20, 2005

O Salto No Vazio

Um dia gostaria de te alcançar. Vives muito longe de mim, no entanto respiramos lado a lado. Tens a vida destroçada... mas habituaste-te a viver nos seus destroços, por muito que eu a tente reconstruir, vais sempre desmontar pedra a pedra, porque só te sentes bem assim. Essas sombras na tua vida, não passam de ilusões ópticas, onde estão elas agora? Não estão, nunca estiveram... no entanto, tu insistes em prócura-las, em dar-lhes tudo de ti como se elas se importassem, como se te dessem valor. Agora eu... o valor que eu tenho por ti... não tem valor. Mas isso, nem com placares de neon, nem com uivos de agonia, nem mesmo suicídios teatrais consegui captar a tua atenção, focada nas sombras. E assim vão-se desvanecendo as nossas vidas, como nevoeiros fúnebres, celebrando a ruptura do cordão umbilical que nos unia. O meu olhar arrefece à medida que escorrego... Não quero voltar ao Inverno de outrora. Ajudas-me a saltar o abismo que nos separa?

Publicado por Conde em 10:53 PM | Comentários (2) | TrackBack

novembro 18, 2005

Limiar

"Vi a morte transformar-se numa palavra
li a palavra que me queria matar
Escondi-me debaixo da terra e
encontrei um homem enterrado a suar sangue

Iluminei as mãos desse homem
até haver luz à sua volta por todos os lados
Transformou a luz em pedras
construiu uma escada

Disse-lhe: ajuda-me a subir
Ele atirou-me a pedra contra o coração."

Paulo Eduardo

Publicado por Conde em 07:14 AM | Comentários (1) | TrackBack

novembro 03, 2005

Intemporalidade Das Palavras

“As palavras têm o poder
De amaldiçoar quem as verbaliza
São instrumentos diabólicos
Com aparência etérea e cristalina
Originários da incerteza ancestral

As palavras possuem a subtileza
De um abraço cortante
E incutem insanidade
Nas mais frágeis e débeis criaturas

As palavras levam-nos ao sofrimento
E enclausuram-nos no seu interior
Silenciosamente

As palavras são fantasmas
Uma espécie de assombração imprescindível

Os homens morrem e elas permanecem”

Karl Goth

Publicado por Karl-Goth em 09:08 AM | Comentários (3) | TrackBack