Sinto-te a deslizar ardente pela minha garganta. És a minha cura para os erros do mundo, o meu companheiro de dor. Olhei para ti durante tantos anos, sempre dentro desse frasco, perguntando-me como seria o teu sabor. A droga perfeita, o beijo libertador. Hoje peguei em ti e derramei-te nos meus lábios, porque hoje fartei-me do mundo e das pessoas. Quero viver longe daqui, longe deste falso planeta. Tu és a minha fuga, o meu grito de revolta. O insulto a todos os que cruzaram o meu caminho. Agora sou só eu e tu... depois... serás só tu ardente e sedutor corroendo o meu cadáver. A ti resta-me agradecer o veneno que me ofereceste.
Abraço uma perdição que me foi oferecida à nascença. Um dom, uma maldição que me acompanha a cada gesto, cada inspirar. Perco-me em tudo e em nada, a arte da decadência floresce em mim. Tudo tem a sua arte, até mesmo saber cair. Saber perder o controlo de tudo o que nos rodeia, e dançar enquanto tudo à nossa volta desmorona. É a última dança, mas que seja a mais bela de todas, que seja a dança que nos retira o folego pela última vez. Sentir o coração a fugir-nos do peito atrás da vida que se perdeu. Amar o negro que nos envolve a alma... e desfalecer no chão envenenado com a nossa alma gémea. É essa a arte de saber cair, a arte da decadência. É esse o meu dom, a minha maldição. Condenado eternamente a ter o sabor da morte nos lábios e o cheiro da dor nos meus gestos, passeio constantemente em tom de queda, com passos decadentes por esta vida que me passa ao lado sempre que me perco...

Seduzido pelas febres lunares, o mar espelha a mais bela de todas as senhoras. A lua... O seu rio de prata nocturno é o resultado dum secreto amor que se mantêm ao longo de séculos e séculos. E a minha alma, navega aquele rio... longo, infinito, mas tão breve... numa busca incansável por ti, lua de prata que me roubaste o olhar.
"A minha vida é um estado de depressão contínuo, constante e crónico. Tudo o que ainda me resta desta penosa luta com a realidade é a cinza de memórias há muito queimadas pelo tempo… uma prova, mais que óbvia, daquilo que todos temem ver, e assumir: nada dura para sempre… nada é eterno…
Para quê insistir em algo que, eu sei, jamais passará de uma simples e infeliz miragem? Não acredito em milagres… nem no futuro…
Sempre vivi aprisionado a um presente que me enlouqueceu… sempre vivi escondido de tudo e de todos… sempre tive medo daquilo que me poderia acontecer… quando o meu maior medo já eu o estava a viver…
Tudo à minha volta ruiu e eu nem me apercebi.
Toda esta jornada de ilusões e desilusões só veio para me sufocar o espírito. Todos estes caminhos escuros e gelados que eu tenho percorrido cegamente só me têm conduzido a becos duma transparência inóspita e mordaz.
Sou uma parte de um todo… sou o todo de uma parte… mas não sei quem sou… nem onde pertenço...
Tudo à minha volta ruiu e eu nem me apercebi.
Sinto-me exausto e incapaz de continuar a suportar o peso do meu vazio… do meu sofrimento silencioso.
Estou a morrer e ninguém percebe… ninguém ouve os meus gritos asfixiados pela dor. O mundo habituou-se a explicações que nunca serviram para coisa alguma. Pouco ou nada sabem da voz do sangue, algo que em mim começa a escassear…
Tudo à minha volta ruiu e eu nem me apercebi.
Tudo à minha volta acabou, menos o meu sofrimento…"
Karl Goth
Às vezes, o silêncio permanece no espaço que habito. Imundo. Antes fosse efémero... A vida sopra breve sobre os meus laivos de felicidade. Nem o maior ruído, nem a maior confusão conseguem abafar este silêncio que exala em mim. É um silêncio que se ouve até mesmo do outro lado do mundo. É um silêncio que me cega. Que me rouba cada sentido, um a um. E agora mais que nunca preciso dele. Através dele vejo tudo e regresso. Regresso onde? Não sei... se soubesse a vida teria todo o sentido sem este silêncio...
O nosso já conhecido Karl Goth tem agora um fotolog, onde poderão ler mais escritos negros do mesmo. No entanto podem continuar a contar com mais "devaneios" de Karl aqui no Lado Negro das Palavras. Aproveito para pedir desculpas da minha parte pelos escassos posts, mas o tempo não tem sido muito. No entanto em breve voltarei ao activo.
Aqui fica o link para o fotolog do Karl Goth: http://www.fotolog.com/karlgoth