abril 25, 2006

O Corvo

"Tenho um corvo à flor da pele
Vive de uma ferida aberta
Acorda quando me deito
Levanta voo do meu peito
Sempre, sempre à hora certa

Passa por aquela casa
Onde resta uma roseira
Dá contigo junto ao mar
Beija-te sem te acordar
Depois fica a noite inteira

Entra pela minha vida
Como a lua no jardim
Pendura tudo o que valha
No gume de uma navalha
Traz-me pedaços de mim

Tenho um corvo à flor da pele
Um irmão da minha idade
Acorda quando me deito
Levanta voo do meu peito
Diz que se chama Saudade."

João Monge

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abril 23, 2006

Faz-Me O Favor...

"Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor -- muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê."

Mario Cesariny

Publicado por Karl-Goth em 10:32 PM | Comentários (1) | TrackBack

abril 22, 2006

A Criança Que Pensa Em Fadas

"A crianca que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as coisas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
So não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer."

Fernando Pessoa

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abril 21, 2006

Há Palavras Que Nos Beijam

"Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes"

Alexandre O'Neill

Publicado por Karl-Goth em 11:44 PM | Comentários (3) | TrackBack

abril 17, 2006

Fome

"Apetece-me e
Apeteces-me.

Tu sabes que sim. Nunca te escondi isso.
Sabes a fome que tenho.
Sabes como posso mata-la.
Sabes acalma-la.

Peço-te, deixa-me comer por favor. Mas tira-me todos os talheres, todos os pedaços de carne. Crua.

Fome.
Fome de ti e de mim.
Fome saciável e fome proibida.

Fome que se prende no céu da boca, como as óstias pecadoras das beatas.

Fome que me dilata o estômago numa náusea moribunda e desesperada.

Fome que me contrai a vontade e o desejo.

Fome que só morre farta.

Fome que só o toque trata.

Fome que só o teu beijo mata."

Telma in Soliloquio

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abril 10, 2006

Fuga...

"Fugia sem saber porquê… Algo despontara o seu instinto… O Medo! Sim, o Medo guiava os seus passos rumo a uma morte tão certa como a noite.
Um grito cortara a quietude nocturna, um grito feminino vindo não se sabe bem de onde, um grito aflitivo que lhe provocou um arrepio na espinha.
Nos poucos segundos em que o sangue parecia gelar-se nas veias, várias imagens passaram pela sua mente, desde as mais inocentes à mais terrível e cruel que, o seu instinto dizia ser a verdadeira e real… Durante as duas semanas anteriores uma desgraça abatera-se sobre a cidade, haviam aparecido brutalmente assassinadas várias raparigas de extrema beleza, sem que qualquer explicação tivesse sido encontrada para o fenómeno. Qualquer um que andasse sob a escuridão da noite tornava-se fonte de suspeitas. Oferecia-se até uma avolumada recompensa a quem entregasse quaisquer informações.
Luzes acenderam-se nas casas vizinhas, homens e mulheres, nos seus trajes nocturnos, abriam repentinamente as janelas esperando ser eles a recolherem informações que lhes rendessem algumas moedas junto das autoridades.
O sangue passou de gelado a líquido fervente nas suas veias! O pânico assolou a sua alma! Ele começou a correr a uma velocidade alucinante. Gritos seguiram-no velozmente, não os aflitivos gritos de uma donzela moribunda mas, verdadeiros gritos de guerra, violentos, clamando por sangue!
Quanto mais as suas pernas se esforçavam na fuga, mais próximos os gritos lhe soavam…
Um gélido e cerrado nevoeiro envolveu repentinamente os seus passos, os gritos emudeceram mas, o seu pânico levou-o numa fuga furtiva. Temendo pela sua vida ele fugia… Na vã tentativa de a preservar correu mais do que alguma vez correra… E mesmo quando deixou de sentir o chão húmido e viscoso sob os seus pés não abrandou, correndo eternamente para o fundo da ravina…"

Cláudia Medeiros

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abril 08, 2006

Falavam-me De Amor

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

Natália Correia
in O Dilúvio e a Pomba

Publicado por Karl-Goth em 11:51 PM | Comentários (0) | TrackBack

abril 05, 2006

Minha Escura Sombra

"É tão escura, tão profunda,
O ponto máximo da profundidade.
Quase não a vejo,
É tão disforme, sem forma alguma.
Tento olhá-la,
Mas não encontro um ponto para a focar,
Mas ela olha-me,
Não lhe vejo os olhos...
Mas sei que me observa.
Persegue-me e vagueia,
como eu..
pois não pode fugir.
Minha escura sombra..."

Luis Miguel Costa

Publicado por Conde em 11:19 AM | Comentários (1) | TrackBack

abril 04, 2006

Loucura

"Deusa da Morte, muito me atrai a tua boca sangrenta
Contigo fui ao território do fogo e da destruição
mas selas os lábios e adias-me a recompensa

Num sonho recente vi-me a morrer à fome
contorcia-me agoniado, noutro um homem suicidou-se
na estrada com um golpe no olhar.

Dá-me de beber um pouco do teu sangue vertido
será um reconforto, porque à tua falta é da solidão
que me tenho vindo a nutrir."

Paulo Eduardo

Publicado por Conde em 09:48 AM | Comentários (0) | TrackBack