junho 29, 2006

Não Sou Nada

"não sou nada...

Sim eu sei...
Não sou nada...
Assim como estas tristes palavras,
vagas, mortas...
Que restou para mim?
Uma vida serena...
Mas eu pedi demais...
Porque a vida não reservou para mim
mais que um frio tumulo,
forrado de espinhos...
E a cada noite sou sepultada novamente...
Enterro o meu corpo e espero pela morte...
Até ao amanhecer..."

Hexen Saatana

Publicado por Conde em 01:42 AM | Comentários (349)

junho 19, 2006

19/6/2006

"Faz hoje um mês que vi pela primeira vez o Paulo Eduardo. Existe. Encontrei-o ao anoitecer no exterior duma pequena igreja de entrada ladeada por grades, ele estava sentado na pedra com um walkman dos anos 90 na mão e os auriculares nos ouvidos. Ao passar por ele era como se estivesse metido numa jaula a céu aberto e eu fosse um observador à distância. A expressão dele despertou-me empatia. Reparei no olhar parado dele e no meio da sua atenção ousei perguntar-lhe o que ouvia: "nada, as pilhas estão estragadas, triste, não é?" Como ele fora ali parar não fazia eu ideia e muito menos como haveria de sair, mas ele rapidamente me demonstrou- "é fácil, tás a ver ou saltas ou passas pelo meio das frestas" e sorriu. Dia sim, dia não um passeio ocasional ou alguma tarefa que me fazia caminhar por aquela zona era uma oportunidade de me cruzar com ele. Encontrava-o no mesmo sitio, absorto, pensativo. Interrompia-o e conversávamos um pouco sobre pequenas coisas da vida. Quando me despedia dele, não tinha nenhumas certezas sobre nada.

Gradualmente me apercebi que o meu amigo andava há uma semana a dormir nas ruas de Lisboa e a comer folhas das árvores dos jardins. O Paulo Eduardo tinha ideias malucas. Uma vez confessou-me que o maior sonho dele era ir viver para Monsanto- "a floresta dá-me tudo o que é preciso: abrigo e comida. Quero fazer tuneis lá. Sentir a terra". Depois deste comentário achei por bem levá-lo ao psiquiatra. Ele não se opôs. No fim da sessão que tinha acompanhado com o consentimento de ambos,o médico sugeriu um presumível caso de transsexualismo místico. Não percebi as suas palavras. De resto o Paulo manteve-se calado, pareceu ausente da situação. Senti a necessidade de o seguir.

Às vezes iamos os três de madrugada pelas ruas e o Paulo dizia:" Olhem para isto! parecemos três fantasmas. Há meia-hora que andamos a pé e ainda não vimos ninguém." Três porque nessa altura a Sofia tinha-se juntado a nós. Ela era aquilo a que ele chamava uma gótica-punk ( renegada ou não é dificil de dizer). Lembro-me que logo no primeiro dia que a conhecemos fomos passar a noite a casa dela. Ela vivia há uma semana sozinha e tinha-nos aceite como hóspedes. Fizemos silêncio ao entrar no apartamento, um estranho silêncio tinha crescido à nossa volta até que a Sofia foi em direcção à varanda e contou-nos que o homem que ela costuma ver nas últimas noites à janela do prédio defronte se tinha suicidado hoje de manhã. A Sofia e o Paulo trocaram um olhar cúmplice. O tempo perdeu o sentido perante nós. Vivemos juntos mais uns dias. Saíamos à rua, vagueávamos, parávamos a observar as pessoas e os carros da cidade, buscávamos comida aos caixotes de lixo, ou roubávamos em pequenas lojas de mantimentos ( um entrava a distrair o vendedor, outro roubava, e eu ficava a vigiar de fora). Deixei de os ver.
Encontrei algumas composições do Eduardo com alusões biblicas:Salmo, uma insistência particular nas anáforas. uma súplica? Só agora vejo que o choro escondido que molha os lençois, não era o riso contido ou algo semelhante que eu julgava ser."

Jerónimo

Publicado por Conde em 11:59 PM | Comentários (690)

junho 16, 2006

Caos Interno

"Fugir. Correr. Sair daqui. Gritar. Estar sozinha. Quarto vazio. Escuro. Noite. Lua. Ah, como eu gostava de sair daqui. Deitar-me na areia de olhos fechados, sob a lua pouco desperta (porque ainda é cedo), ouvir o Mar. Relaxar. Respirar. Respirar. Suspirar. Cantar. Tudo e nada. Sair daqui. Sair... Sair... Sair... FUGIR DAQUI!
Entre jogos de palavras tento esquecer, perder os sentidos, deixar de ver, ouvir, falar... Como eu prezo a minha solidão. Estar somente num quarto escuro e gritar, gritar, gritar com toda a força, sem que ninguém me reprima ou me ponha uma mão na boca e me cale... para sempre. Quero ouvir as paredes a gritarem comigo, a acompanharem-me neste grito angustiante, que me corta a respiração, que me deixa sem ar, assim, inanimada na minha solidão!!!
Fugir. Correr. Sair daqui. Sair daqui. Sair daqui. Cortar os laços que me unem a este sofrimento. Sentir o sangue a correr nas veias ansiando, tal como eu, fugir... Bebo o meu próprio sangue na esperança de me encontrar... Não me encontro... Não sei o caminho... Perdi-me... Quem me ajuda? Quem me leva de volta à vida feliz e alegre que deixei para chegar a este... centro de tortura... Fugir. Correr. Correr. Fugir. Sair daqui é tudo o que eu quero. A minha alma sussurra-me, espicassa-me, foge-me... Deixei de ser eu, de sentir os pés no chão. Ilusões elevam-me ao infinito. Eu sigo-as, esperando ser feliz...
"

Cláudia Medeiros

Publicado por Conde em 07:51 PM | Comentários (192)

junho 12, 2006

Lado Negro

"O silêncio era gélido e tenebroso,
Despertava em mim uma crescente e medrosa agonia...
Pesada e efémera ansiedade
Antes da matança...

Derramei sangue, despertei lágrimas, até então adormecidas
Os corações, sangravam abundantemente pelo chão ardido
Um cheiro fétido a morte envolvia a noite por completo,
Embrenhava-se profundamente entre os corpos já inertes e inanimados...

E então, parti pelos caminhos reminiscentes
Da vitoria fugaz e inglória,
Com a alma e o ego
Inabaláveis e fortalecidos
Como se nada, humano, ou terreno, me pudesse atingir
Mas ainda assim, sedento de ira!
Invulnerável? Talvez!

Voltou o dia,
Fez-se noite...

Viam-se estrelas no céu
Pintadas de um branco tão intenso que me cegava os olhos
Pacificadoras, calmantes, serenaram-me o corpo e a mente
Fustigados pela dor forte que se multiplicava velozmente
Esta forte e acutilante dor!
Que me trespassa a alma,
Como se de uma Espada em brasa se tratasse

Pesado, triste e angustiante era o fardo que carregava
Troquei a ira pelo amor,
A morte pela vida
Estivera morto! e ressuscitei..."

Wize

Publicado por Conde em 11:31 PM | Comentários (78)

junho 01, 2006

Lembrança

"Há dentro de mim uma lembrança,
pedra branca no fundo de um poço,
já não posso, já não quero lutar:
ela é sofrimento, alegre alvoroço.

Acredito: quem olhe bem de perto
nos meus olhos a possa vislumbrar.
E cisme mais triste do que ouvindo
uma história de saudade e pesar.

Diz-se que os deuses mudavam os homens
em coisas, sem matar-lhes a consciência,
para que vivesse a maravilhosa
tristeza. E ficaste-me lembrança."

Anna Akhmátova

Publicado por Karl-Goth em 03:33 PM | Comentários (1345)