"não sou nada...
Sim eu sei...
Não sou nada...
Assim como estas tristes palavras,
vagas, mortas...
Que restou para mim?
Uma vida serena...
Mas eu pedi demais...
Porque a vida não reservou para mim
mais que um frio tumulo,
forrado de espinhos...
E a cada noite sou sepultada novamente...
Enterro o meu corpo e espero pela morte...
Até ao amanhecer..."
Hexen Saatana
"Faz hoje um mês que vi pela primeira vez o Paulo Eduardo. Existe. Encontrei-o ao anoitecer no exterior duma pequena igreja de entrada ladeada por grades, ele estava sentado na pedra com um walkman dos anos 90 na mão e os auriculares nos ouvidos. Ao passar por ele era como se estivesse metido numa jaula a céu aberto e eu fosse um observador à distância. A expressão dele despertou-me empatia. Reparei no olhar parado dele e no meio da sua atenção ousei perguntar-lhe o que ouvia: "nada, as pilhas estão estragadas, triste, não é?" Como ele fora ali parar não fazia eu ideia e muito menos como haveria de sair, mas ele rapidamente me demonstrou- "é fácil, tás a ver ou saltas ou passas pelo meio das frestas" e sorriu. Dia sim, dia não um passeio ocasional ou alguma tarefa que me fazia caminhar por aquela zona era uma oportunidade de me cruzar com ele. Encontrava-o no mesmo sitio, absorto, pensativo. Interrompia-o e conversávamos um pouco sobre pequenas coisas da vida. Quando me despedia dele, não tinha nenhumas certezas sobre nada.
Gradualmente me apercebi que o meu amigo andava há uma semana a dormir nas ruas de Lisboa e a comer folhas das árvores dos jardins. O Paulo Eduardo tinha ideias malucas. Uma vez confessou-me que o maior sonho dele era ir viver para Monsanto- "a floresta dá-me tudo o que é preciso: abrigo e comida. Quero fazer tuneis lá. Sentir a terra". Depois deste comentário achei por bem levá-lo ao psiquiatra. Ele não se opôs. No fim da sessão que tinha acompanhado com o consentimento de ambos,o médico sugeriu um presumível caso de transsexualismo místico. Não percebi as suas palavras. De resto o Paulo manteve-se calado, pareceu ausente da situação. Senti a necessidade de o seguir.
Às vezes iamos os três de madrugada pelas ruas e o Paulo dizia:" Olhem para isto! parecemos três fantasmas. Há meia-hora que andamos a pé e ainda não vimos ninguém." Três porque nessa altura a Sofia tinha-se juntado a nós. Ela era aquilo a que ele chamava uma gótica-punk ( renegada ou não é dificil de dizer). Lembro-me que logo no primeiro dia que a conhecemos fomos passar a noite a casa dela. Ela vivia há uma semana sozinha e tinha-nos aceite como hóspedes. Fizemos silêncio ao entrar no apartamento, um estranho silêncio tinha crescido à nossa volta até que a Sofia foi em direcção à varanda e contou-nos que o homem que ela costuma ver nas últimas noites à janela do prédio defronte se tinha suicidado hoje de manhã. A Sofia e o Paulo trocaram um olhar cúmplice. O tempo perdeu o sentido perante nós. Vivemos juntos mais uns dias. Saíamos à rua, vagueávamos, parávamos a observar as pessoas e os carros da cidade, buscávamos comida aos caixotes de lixo, ou roubávamos em pequenas lojas de mantimentos ( um entrava a distrair o vendedor, outro roubava, e eu ficava a vigiar de fora). Deixei de os ver.
Encontrei algumas composições do Eduardo com alusões biblicas:Salmo, uma insistência particular nas anáforas. uma súplica? Só agora vejo que o choro escondido que molha os lençois, não era o riso contido ou algo semelhante que eu julgava ser."
Jerónimo
"Fugir. Correr. Sair daqui. Gritar. Estar sozinha. Quarto vazio. Escuro. Noite. Lua. Ah, como eu gostava de sair daqui. Deitar-me na areia de olhos fechados, sob a lua pouco desperta (porque ainda é cedo), ouvir o Mar. Relaxar. Respirar. Respirar. Suspirar. Cantar. Tudo e nada. Sair daqui. Sair... Sair... Sair... FUGIR DAQUI!
Entre jogos de palavras tento esquecer, perder os sentidos, deixar de ver, ouvir, falar... Como eu prezo a minha solidão. Estar somente num quarto escuro e gritar, gritar, gritar com toda a força, sem que ninguém me reprima ou me ponha uma mão na boca e me cale... para sempre. Quero ouvir as paredes a gritarem comigo, a acompanharem-me neste grito angustiante, que me corta a respiração, que me deixa sem ar, assim, inanimada na minha solidão!!!
Fugir. Correr. Sair daqui. Sair daqui. Sair daqui. Cortar os laços que me unem a este sofrimento. Sentir o sangue a correr nas veias ansiando, tal como eu, fugir... Bebo o meu próprio sangue na esperança de me encontrar... Não me encontro... Não sei o caminho... Perdi-me... Quem me ajuda? Quem me leva de volta à vida feliz e alegre que deixei para chegar a este... centro de tortura... Fugir. Correr. Correr. Fugir. Sair daqui é tudo o que eu quero. A minha alma sussurra-me, espicassa-me, foge-me... Deixei de ser eu, de sentir os pés no chão. Ilusões elevam-me ao infinito. Eu sigo-as, esperando ser feliz..."
Cláudia Medeiros
"O silêncio era gélido e tenebroso,
Despertava em mim uma crescente e medrosa agonia...
Pesada e efémera ansiedade
Antes da matança...
Derramei sangue, despertei lágrimas, até então adormecidas
Os corações, sangravam abundantemente pelo chão ardido
Um cheiro fétido a morte envolvia a noite por completo,
Embrenhava-se profundamente entre os corpos já inertes e inanimados...
E então, parti pelos caminhos reminiscentes
Da vitoria fugaz e inglória,
Com a alma e o ego
Inabaláveis e fortalecidos
Como se nada, humano, ou terreno, me pudesse atingir
Mas ainda assim, sedento de ira!
Invulnerável? Talvez!
Voltou o dia,
Fez-se noite...
Viam-se estrelas no céu
Pintadas de um branco tão intenso que me cegava os olhos
Pacificadoras, calmantes, serenaram-me o corpo e a mente
Fustigados pela dor forte que se multiplicava velozmente
Esta forte e acutilante dor!
Que me trespassa a alma,
Como se de uma Espada em brasa se tratasse
Pesado, triste e angustiante era o fardo que carregava
Troquei a ira pelo amor,
A morte pela vida
Estivera morto! e ressuscitei..."
Wize
"Há dentro de mim uma lembrança,
pedra branca no fundo de um poço,
já não posso, já não quero lutar:
ela é sofrimento, alegre alvoroço.
Acredito: quem olhe bem de perto
nos meus olhos a possa vislumbrar.
E cisme mais triste do que ouvindo
uma história de saudade e pesar.
Diz-se que os deuses mudavam os homens
em coisas, sem matar-lhes a consciência,
para que vivesse a maravilhosa
tristeza. E ficaste-me lembrança."
Anna Akhmátova