"Nesta última tarde em que respiro
A justa luz que nasce das palavras
E no largo horizonte se dissipa
Quantos segredos únicos, precisos,
E que altiva promessa fica ardendo
Na ausência interminável do teu rosto.
Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
Senão em cada gesto e pensamento
E dentro destes vagos vãos poemas;
E já todos me ensinam em linguagem simples
Que somos mera fábula, obscuramente
Inventada na rima de um qualquer
Cantor sem voz batendo no teclado;
Desta falta de tempo, sorte, e jeito,
Se faz noutro futuro o nosso encontro."
António Franco Alexandre
"Gosto da palavra morte
um som ressoante no início
depois o ó aberto de agonia
seguido duma vibrante
a prolongar o desespero
a acabar uma oclusiva muda
antes da vogal velar
vinda das entranhas
gosto da palavra morte
e tudo em cinco letras
os dedos duma mão
os suficientes para me sufocar ."
João Artur Santos
"Escrevo por entre missivas
Feitas de pensamento,
Ideias, palavras que já vivi, ecoam perdidas
Nas linhas tortas do meu passado
Sonhos fugazes, alimentam-me
A ânsia de fazer o que fiz.
De viver aquilo que um dia me deu prazer
De fantasiar com aquilo que já tive.
A tinta jorra de mim descontroladamente,
No papel confidente em que me escrevo.
Aparecem progressivamente
Borrões pretos, disformes...
Pedaços de uma vida inútil
Que eu julgava enterrada
Bem no fundo de mim...
Porque é que não desapareces?
Não sei!
Talvez porque não queiras...
De certa maneira repudio e abraço
Um outro eu...
Mas não sei que fazer para lavar
O meu passado de mim...
Foi-me profundamente tatuado na epiderme
É uma parte integrante do meu ser!
Sofro da Síndrome de dupla personalidade.
Até agora controlei-me, não foi?
O passado não se esquece dizes tu...
Nunca te vai largar... nunca!
Aquilo que fizeste
Não tem desculpa possível.
Pois não, penso...
Rapidamente percebi o que devia ser feito!
Vou matar aquilo que fui,
O meu outro eu...
Já está!!!
Bastou uma só bala...
Uma bala no meio da testa."
Wize
"Correr é estar absolutamente sozinho. Sei desde o início: na solidão, é-me impossível fugir de mim próprio. Logo após as primeiras passadas, levantam-se muros negros à minha volta. Inofensivo, o mundo afasta-se. Enquanto corro, fico parado dentro de mim e espero. Fico finalmente à minha própria mercê.
(...)
Eu sou capaz de lançar um grito para dentro de mim, que arranca árvores pelas raízes, que explode veias em todos os corpos, que trespassa o mundo. Eu sou capaz de correr através desse grito, à sua velocidade, contra tudo o que se lança para deter-me, contra tudo o que se levanta no meu caminho, contra mim sempre. Porque a minha vontade me regenera, faz-me nascer, renascer. Porque a minha força é imortal.
(...)
E há paz no caos dos meus movimentos, pernas e braços sem equilíbrio, soltos, perdidos, desesperados. E há silêncio no rugido que me envolve, grave, constante, ensurdecedor. Há silêncio nas vozes, nas palmas (...) já não tenho dúvidas. Sou forte e sereno e imortal. Já não tenho dúvidas."
José Luís Peixoto in Cemitério de Pianos

"E de repente fez-se silêncio...ouço apenas os passos destes dias...ouço o eco desse chicote que me rasga a pele do coração...ouço as gotas de suor já avermelhadas a caírem no chão, em vão...
Este silêncio que me toca,
que me afaga o peito, que me tenta.
Sigo andando, rastejando, caindo e levantando-me. Está tão escuro que nem a mim me sinto. Será que existe luz aqui? Não ouço nada, nenhum ruído, nem aqueles risos ao longe, nem aquelas conversas imperceptíveis. Tenho medo... Sufoca, arrepia, não termina, quero sair, não consigo.
E perco-me de mim, do mundo. Fico alheio a tudo. Nada me pertence, e eu não pertenço a nada.
Escondo-me ao mínimo ruído, fujo ao mínimo movimento.
Quando se escreve percorre-se uma estrada que nem sempre se sabe onde nos leva. Neste momento ando por caminhos desconhecidos, vou simplesmente. Olho apenas em frente, não ligo à paisagem. Sigo comigo, outras vezes sem mim. Passo tempo e o tempo passa por mim. Fujo do pensamento, fujo disto, cerro os dentes, cerro os punhos, e acelero..."
Pajosy
Pensar é encher-se de tristeza
e quando penso
não em ti
mas em tudo
sofro
Dantes eu vivia só
agora vivo rodeada de palavras
que eu cultivo
no meu jardim de penas
Eu sigo-as
e elas seguem-me:
são o exigente cortejo
que me persegue
Em toda a parte
oiço o seu imenso clamor
Ana Hatherly
"Um abraço.Um abraço é tudo o que eu te peço antes de partires. E porque um beijo já seria de mais e um aperto de mão saberia a pouco, eu peço-te um abraço!
Que o calor dos nossos corpos se funda nesse abraço sem fim. Que guardes de mim a lembrança deste contacto reconfortante, que eu ter-te-ei para sempre no meu coração.
Falaste-me de terras distantes que pensava que só existiam em sonhos, quando o calor da cama nos arrasta para essa terra de ninguém em que todos podem ser reis... um dia...
Não te levei a sério quando me disseste que terias de partir em breve, que este mundo já pouco se aparentava com a tua morada, que a tua vontade... ah! a tua vontade... essa já não te pertencia...
Como fui tola em acreditar que nada do que me dizias aconteceria. Tu bem que me avisaste, sei que referiste desilusão e desespero nos teus longos monólogos em que eu apenas ouvia a tua voz, com um sorriso nos lábios, sem assimilar o sentido das tuas palavras.
Para mim o sempre e a eternidade fundiram-se com os sonhos de uma vida por viver. Queria-te a meu lado... para sempre, e não te deixei partir, mesmo quando seguias já por essa estrada que te levou à eternidade...
Irremediavelmente partiste...
Não deixaste qualquer rasto para que eu não te pudesse seguir. Disseste que este mundo ainda era o meu, mas para ti jamais voltaria a ser... Partiste...
E não me abraçaste uma última vez..."
Cláudia Medeiros