"Eu atravesso para o outro lado das memórias
Tentando conter a insuportabilidade,
Eu preciso de partículas de olhos vulcânicos
E doses de bafo vertiginoso de horizonte,
Meus caminhos desarticulados viram fotografias turvas,
Eu começo a acreditar que os incertos que me rodeiam
São anjos carnívoros vindos do litoral selvagem das horas,
Meu corpo banqueteado pela procura
Escrevem cartas desesperadas para sua alma,
Surge uma lagrima solitária no deserto da noite,
Eu sinto o hálito de exílio omnipresente vindo de Maldoror,
Procuro os pára-quedas como se fosem minha sombra,
Mas o universo me cospe como um útero oco
Já na extremidade dos instantes
Eu ressurjo no espaço-vácuo entre os segundos."
João Leno Lima
"Tudo se resumira a um átomo invisível
espalhado no imaginário.
Como porção mágica enfiada nas goelas
subterrâneas dos passos silênciosos,
Um nevoeiro de palavras me cobre ate o pescoço.
Eu atinjo um estado de esquecimento
feito de ácidos dos deuses utópico,
O infinito me consome como um cigarro amargo.
Eu tento evitar que as folhas mortas
da minha alma atinjam o chão antes de mim.
Eu sou uma espatifação desacordada onde
os estilhaços percorrem os kilómetros.
Eu sou o trompete rouco vertiginosamente
num dia de chuva de Malis Davis.
Eu sou a bicicleta nebulosa de Murilo Mendes
indo ao supermercado na tarde de frio;
A formação dos números se confunde
com a formação dos meus ossos quebrados.
Minha boca se pendura numa nuvem
para ser levada pelo silêncio.
Eu sou o interior de todas as lágrimas
que percorrem os rostos.
Eu estou parado aqui e o tempo
esta ao meu lado como um estranho,
Ele toca no meu ombro tentando
me despertar com marteladas de segundos,
Há uma porta no fundo de cada segundo.
Há linhas imaginárias servindo de estradas
para o meu percurso.
Eu estou atrasado para o meu encontro
com Fernando Pessoa na praça cinza.
Crianças dormem no outro lado
da porta como vulcões flutuantes.
Elas me jogam petardos de desertos
e um frasco de água salivada de tristeza.
Eu vejo tua alma se partir ao meio
quando a noite soluça vagarosamente.
Eu sou o sangue escorrendo de um horizonte desolado.
Um fogo azul deixa em brasa
minhas asas entrecortadas de ausências petrificadas.
Onde me sinto inerte pelo menos uma vez a cada minuto
Eu começo a vomitar anjos destruidores
vindo das brechas das memórias.
Eles arrotam em mim mecanismo de zinco
com foices de chumbo atómico,
Carros de fogo roubando o luto tridimensional
do acto desacreditado da aurora.
Pedaços de gelo deslizando pelos umbigos
inclinados do abandono.
Eu sou o labirinto com inúmeras entradas e nenhuma saída.
Dezenas de chaves palavras tropeçando,
uivos cortando os cabelos ,
Estrondo de imobilidades ,
devaneio de sombras penduradas no caos.
Eu envidraço de encontro a mim mesmo.
eu sou aquele que encontra e não se encontra.
Eu me atiro em colisões meteóricas .
meu grito ensurdece a si mesmo insuportavelmente.
Eu sou o intervalo fantasmagórico das palavras ditas pelo silêncio."
João Leno Lima
"mundo é uma linha imaginariamente fragmentada
que se alastra no infinito que se perde
pelos corrimões inexoráveis do abandono
pelas cavernas afugentadas dos anseios
dentro da perturbação caótica das vidraças
dentro do ensandecido eco
prematuramente exposto como deslizes
pelas bordas inoxidadas dos lábios febris da noite
que se perde pelos contornos escuros da previsibilidade
pelos maquinários deslineantes
que escrevem cartas aos arco-íris amarrotados
manhã que lambe as vogais das paredes
na contramão de uma absoluta extremidade
de fios de existência delimitados
pelas lagrimogenicas horas
dentro do átomo geometrizado
das discretas mortes
pelos lados divisíveis dos segundos
amontoados nos ralos fúnebres dos sonhos
nos raios que estilhaçam os poros
quando Maldoror atravessa a praça de bicicleta
deixando um neuroatomico- acido rastro de soluço
que invade os rostos como vírus empalidecidos
apos se afundar dentro das lagrimas
feitas de fios elétricos dentro do uivo
que se enroscam no escuro
como um vento que atravessa o estranho olhar
dos muros inventados pela esquinas
do áspero grito que se atira nas paredes
de concreto dos homens inertes
que esfaqueiam as flores dilarecentes
dentro dos ônibus envelhecidos
trazendo o futuro,
que bebem goles de veneno
apos se entrelaçam com o hálito
desesperado de duas ratazanas
que surge de dentro das bocas entreabertas
dos movimentos frágeis
que se arrastam pelos esgotos luxuosos
a procura de goles de portas irreais
a procura de sensações visionarias
dentro dos espectros violados das luzes
amordaças da madrugada
onde pequenos horizontes
nascem de um abismo."
João Leno Lima
"O olhar é negro
Perde-se na ausência longínqua dos pensamentos
A pele empalidece no vazio
Transpira rios de dolorosas ilusões
Os sonhos assemelham-se ao nada
Essa fome demente que sempre fica por saciar
A esperança acaba
O mundo cai
E o ser continua no seu desamparo eterno"
Karl Goth