março 29, 2007

Frio

"Tenho frio…

Quando não caminho, quando não respiro
o ar que sai da tua boca.

E quando te caiu uma pestana,
e pediste um desejo.

__________Em cima
_________________________ou
______________________________________________Em baixo?

Tens frio, também,
quando não há roupa quente
para o fogo fraco na mente
daquele que te retorce a massa
cerebral, sem bem nem o tal
frio.

E esguio que sempre foi esse teu corpo
respira agora o martírio de se
ver
sozinho, ainda que todos os restos

estejam___________________por
_____________perto.

Tenho frio, segreda-me o teu peito,
rasgado, pagão, à beira rio."

Aires Ferreira

Publicado por Conde em 10:42 PM | Comentários (2) | TrackBack

março 24, 2007

II

"Solidão em estado sólido, solidão em estado sentido, em estado vivido.
Solidão sou eu, no vazio, comigo, em mim.
Não estou aqui, há muito tempo. A minha vontade já partiu, o meu ser já se foi, juntamente com o meu querer. Juntos acompanham o meu ser.
Beijo na testa aqueles que me têm estima, e vou, sigo comigo, para longe de mim.
Fecho os olhos e flutuo, viajo por entre um nada que me alivia, que me traz a paz. E esqueço-me de ser, de sentir…
Prometes-me a paz, o nada, a felicidade. É tentador o teu apelo, escuro e mórbido. Aos poucos apaixonei-me por ti, não te largo um segundo, ocupas-me o pensamento a cada respirar do meu viver. Persegues-me os sentidos, gritas por mim na tua doce escuridão.
Peço-te em silêncio que me esperes, em sonhos que me puxes, que me tires o estar aqui.
Minha paixão desmedida. Morte, o nosso dia há-de chegar."

Pajosy

Publicado por Conde em 08:39 PM | Comentários (1) | TrackBack

março 22, 2007

Nunca Mais

"Nunca mais
Caminharás nos caminhos naturais.
Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, real e densa -
Para sempre está perdido
O que mais do que tudo procuraste
A plenitude de cada presença.

E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência."


Sophia de Mello Breyner Andresen

Publicado por Karl-Goth em 03:21 PM | Comentários (1) | TrackBack

março 11, 2007

Morrer

"Ele disse:

- A solidão dos teus cabelos

enquanto as suas mãos se encontravam com o rosto dela.

Esperaram pela morte. Ele pensou nos olhos dela, os últimos olhos que ia ver. Ela na inocência . A morte veio em forma de música"

Paulo Eduardo

Publicado por Conde em 09:13 PM | Comentários (3) | TrackBack

março 07, 2007

Palavras De Müller...

"Uma rapariga sem braços com uma perna de pau
Frente a uma paisagem marítima, grávida.
Barata: não pode ir-te aos bolsos.
Cómoda: não se gruda ao teu andar.
SEM BRAÇOS É SEM PERIGO. Não pode
Correr atrás de ti: se tu partes
Tu partes.
Acenas-lhe talvez um pequeno adeus.
Apesar de tudo ela ainda tem olhos (dois).
Quatro mil raparigas sem braços abraçam-te
Quatro mil raparigas grávidas com pernas de pau
Seguem-te o rasto"

Heiner Müller

Publicado por Karl-Goth em 02:15 PM | Comentários (0) | TrackBack