abril 20, 2007

À Deriva*

"O meu mundo ruiu
Como um tecto de um templo qualquer
Que desaba sobre os sonhos
Dos que acreditam cegamente

Entreguei-me à estupidez das ilusões
Inebriei-me nelas
E agora deparo-me com a realidade cruel
De ser aquilo que sempre repudiei

Sinto-me à deriva
Percorrendo lugares que não existem
Enterro-me cada vez mais na treva da apatia
Imune ao consolo dos transeuntes
Sinto-me a morrer

Sinto-me a morrer"


Karl Goth

* Texto escrito a 21 de Setembro/2006... Altura em que as palavras e a realidade caminharam de mãos dadas... Em que muitos sonhos caíram por terra... Esta partilha é uma excepção, pois não tenho o hábito de escrever sobre aquilo que escrevi. Quem tem acompanhado o meu percurso desde 2004, sabe disso.
Abraço cortante

Publicado por Karl-Goth em 02:13 PM | Comentários (4) | TrackBack

abril 18, 2007

O Verão Deixa-Me Os Olhos Mais Lentos Sobre Os Livros

"O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar

a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor
à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. As vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio - nada

aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,
à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém."


Maria do Rosário Pedreira

Publicado por Karl-Goth em 09:22 AM | Comentários (1) | TrackBack

abril 13, 2007

E O Meu Silêncio

"Estende o teu braço, com a penugem loira na pele ainda
bronzeada, para mim, rapariga. O meu rosto é provável
que seja, entre as montras das lojas e as árvores, igual
ao de toda a gente. Anónimo, porém, não o sou. Não o são
as próprias pedras, as janelas, e sei quanto
do amor e da nossa história falam os caminhos estreitos
que levam de todas as cidades para o campo.
O teu olhar azul deixa-o estar em mim um pouco mais,
eu também tive infância e perdi-a, adolescência
e perdi-a, e o meu silêncio
é apenas desejo de estilo, dignidade.
O meu espírito, como cansado, dorme. Mas sopra tu
com o vento do teu olhar: talvez eu possa
de novo ir ao campo, contemplar a água dos rios,
sentar-me, inocente e intranquilo, nas esplanadas dos café
a ver o sol que bate como o oiro na pedra das casas."

João Camilo

Publicado por Karl-Goth em 05:28 PM | Comentários (0) | TrackBack

abril 09, 2007

O Fantasma

"O que farei na vida – o Emigrado
Astral após que fantasiada guerra -
Quando este Oiro por fim cair por terra,
Que ainda é Oiro, embora esverdinhado?

(De que Revolta ou que país fadado?...)
– Pobre lisonja a gaze que me encerra...
- Imaginária e pertinaz, desferra
Que força mágica o meu pasmo aguado?...

A escada é suspeita e é perigosa:
Alastra-se uma nódoa duvidosa
Pela alcatifa – os corrimãos partidos...

– Taparam com rodilhas o meu norte,
– As formigas cobriram minha Sorte,
– Morreram-me meninos nos sentidos..."

Mário de Sá-Carneiro

Publicado por Karl-Goth em 04:03 PM | Comentários (0) | TrackBack

abril 03, 2007

O Menino De Sua Mãe

"No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
– Duas, de lado a lado –,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira,
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe."

Fernando Pessoa

Publicado por Karl-Goth em 09:45 PM | Comentários (1) | TrackBack