maio 25, 2007

Apesar Dos Avisos

"Apesar dos avisos, das cautelas, dos caldos de galinha, perdi-te
numa grande superfície em domingo de bola na luz. Ia comprar-te
roupa, aos jornais, ver se o café já chegara, e de repente, enquanto
olhava a montra engalanada de chocolates, estava só o teu sítio.

Foste no turbilhão da multidão ululante com uma bandeira na mão
gritar por portugal, sentei-me num banco a ver televisões
e na esperança de te ver quando filmassem as claques. Passou a hora
e meia mais o intervalo -nem preciso dizer que nunca mais te vi.

Agora investigo até ao mínimo detalhe o conceito de amor
nos vários pontos da terra e sei que hei-de encontrar um
que me corresponda. Pois o mundo é uma bola chutada num anúncio
da coca-cola, às vezes o amor só se vê quando desaparece,

quando comíamos conquilhas e bebíamos vinho verde chamava-se
amizade. Mas eu ainda só vou no ocidente mais ocidental.

De olhos vermelhos de tanto chorar, primeiro por desgosto, depois
pela raiva da estupidez de chorar, cravo os olhos em mim mesmo
a sentir bater o coração ao centro, se ao menos à hora da morte
se decifrasse o enigma. Mas nem isso se sabe ao certo, é essa a dor
criativa da incerteza. E criar cria-se assim mas pode ser coisa horrível.

Porque mostrar a dor sistemática, onde pairam nuvens negras,
não é mostrar a tua beleza, nem a minha, ou a da escrita. Talvez
se comprasse bilhete e me misturasse com todos quem sabe se
não te encontraria, a comer nougat e a rir, achando normal eu ali.

Não, nunca mais te vi, por vezes conto um conto para fingir
que tive um sonho, sem vergonha a tremedeira cresce em pernas
e em braços, aquele banco para mim ficou um lugar sagrado e volto
aos domingos sempre, pode ser que te encontre na igreja dos costumes."

Helder Moura Pereira

Publicado por Karl-Goth em 04:30 PM | Comentários (2) | TrackBack

maio 16, 2007

Três Apitos

"Quando o apito da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos, eu me lembro de você
Mas você anda sem dúvida bem zangada
Ou está interessada em fingir que não me vê
Você que atende ao apito de uma chaminé de barro
Por que não atende ao grito tão aflito
Da buzina do meu carro?
Você no inverno sem meias vai pro trabalho
Não faz fé em agasalho nem no frio você crê
Você é mesmo artigo que não se imita
Quando a fábrica apita faz reclame de você
Nos meus olhos você lê como eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente impertinente
Que dá ordens à você
Sou do sereno, poeta muito soturno
Vou virar guarda-noturno e você sabe por quê
Mas você não sabe que enquanto você faz pano
Faço junto do piano esses versos pra você"


Noel Rosa

Publicado por Karl-Goth em 03:13 PM | Comentários (1) | TrackBack

maio 03, 2007

Citando Oscar Wilde...

“Mas o jovem pescador não escutou a sua alma e chamou pela sereia e disse:
– O Amor é melhor do que a Sabedoria, mais precioso do que a Riqueza e mais belo do que os pés das filhas dos homens. O fogo não o pode destruir nem a água apagá-lo. Chamei por ti de madrugada e não vieste ao meu chamamento. A Lua ouviu o teu nome e, no entanto, não me deste atenção. Eu tinha-te deixado, maldosamente, e vagueei por longe, para meu mal. O teu amor esteve sempre comigo e sempre foi forte e nada o pôde vencer. Apesar de eu ter olhado para o Bem e apesar de ter olhado para o Mal. E agora que morreste, quero morrer contigo.”

Oscar Wilde
in «O Pescador e a sua Alma»

Publicado por Karl-Goth em 09:25 PM | Comentários (4) | TrackBack