"Amor. Amor. Amor, gostava de dizer esta palavra até gastá-la ainda mais. Amor, gostava de dizer esta palavra até perder ainda mais o seu sentido. Amor. Amor. Amor, até ser uma palavra que não significa nem sequer uma ilusão, uma mentira. Amor, amor, amor, nem sequer uma mentira, nem sequer um sentimento vago e incompreensível. Amor amor amor, até ser nem sequer uma palavra banal, nem sequer a palavra mais vulgar, nem sequer uma palavra. Amoramoramor, até ao momento em que alguém diz amor e ninguém vira a cabeça para ouvir, alguém diz amor e ninguém ouve, alguém diz amor e não disse nada. Sozinho, diante da campa. O amor é a solidão."
José Luís Peixoto
in «Uma Casa Na Escuridão»
"A morte próxima é já bastante horrível, mas pior ainda é a morte próxima com tempo por passar, tempo em que toda a felicidade que era nossa e toda a felicidade que poderia ter sido nossa se nos torna clara. Vemos com nitidez absoluta tudo aquilo que estamos a perder. A visão traz-nos uma tristeza opressiva que nenhum carro prestes a atropelar-nos ou água prestes a afogar-nos pode igualar. A sensação é verdadeiramente insuportável."
Yann Martel
in «A Vida de Pi»
"Já me é intima a ideia de perder-se
Como alguém irreal que dobra a próxima esquina
Como um poeta estirado
Sobre o estranho cadáver envidraçado das palavras
Fugindo pelos poros das margens
Entre panelas de pressão flutuantes das horas
Atirando-se dos parapeitos da visibilidade
Como alguém que desaparece
E só foi visto pelo silêncio
Na dupla traição do espelho
No revólver apontado pela noite
No amanhecer entre as lâminas do verbo
Já me é intima a ideia de perder-se."
João Leno Lima