"Menino doido, olhei em roda, e vi-me
Fechado e só na grande sala escura.
(Abrir a porta, além de ser um crime,
Era impossível para a minha altura...)
Como passar o tempo?...E diverti-me
Desta maneira trágica e segura:
Pegando em mim, rasguei-me, abri, parti-me,
Desfiz trapos, arames, serradura...
Ah, meu menino histérico e precoce!
Tu, sim! Que tens mãos trágicas de posse,
E tens a inquietação da Descoberta!
O menino, por fim, tombou cansado;
O seu boneco aí jaz esfarelado...
E eu acho, nem sei como, a porta aberta!"
José Régio
"Era um abutre, e dava-me bicadas nos pés. Já me tinha rasgado as botas e as meias, e agora dava-me já bicadas nos pés propriamente ditos. Picava e voltava a picar, depois voava várias vezes, inquieto, à minha volta, e continuava o seu trabalho. Passou por ali um senhor, ficou por um momento parado a olhar e depois perguntou-me por que razão eu me não defendia do abutre. «Mas, eu não me posso defender», disse eu. «Ele chegou e começou a dar bicadas, é claro que tentei enxotá-lo, tentei mesmo estrangulá-lo, mas um bicho destes tem muita força; e depois já me queria saltar para a cara, por isso preferi sacrificar os pés. Agora já estão quase desfeitos». «Não percebo porque se deixa torturar assim», disse o homem, «basta um tiro para acabar com o abutre». «Ah, é?», perguntei eu. «E o senhor não podia tratar disso?». «Com muito gosto», disse ele. «Só preciso de ir a casa buscar a espingarda. É capaz de esperar uma meia hora?». «Não sei», disse eu, e fiquei por um instante hirto de dor. E depois pedi: «Mas tente de qualquer modo, por favor». «Está bem», disse o senhor, «vou o mais depressa que puder». O abutre tinha ficado calmamente a ouvir a conversa, olhando ora para mim, ora para o senhor. Agora apercebi-me de que ele tinha compreendido tudo. Levantou voo, inclinou-se muito para trás para tomar balanço suficiente e depois, como um lançador de dardo, enfiou o bico pela minha boca e por mim adentro. Caído de costas, senti, agora liberto, como ele irremediavelmente se afogava no meu sangue, que enchia todas as profundezas e alagava todas as margens."
Franz Fafka
"Nossos corpos estão a cada segundo sendo banqueteados pelo tempo.
Sobrevoando dentro dos segundos eu encontro a perfeição dos instantes,
Eu encontro o abismo da minha memória naufragada
Que mesmo afundando procura a si mesmo no fundo,
Já não há mais espaço para a morte,
viver também é morrer inevitavelmente.
O sonho não passa de uma simetria,
realizá-lo é nossa anarquia cosmológica.
Espectros rodeiam as carcaças das angustias que fogem pelos dedos
Eu sou mais do que nunca um fragmento de pagina em branco
rabisca pelo infinito
Na minha alma estão seres vestidos de labirintos e
outras formas de poesia
À noite me entrega raios que partem meus olhos
com a luz fugitiva da manhã
Na há deuses nem fantasmas que me convençam
a não usar minhas asas promiscuamente indefesas
Quem me dera pode vagar pelo interior de cada ser e
encontrá-los a si mesmo
Mas isso impediria a formidável procura que por si só já define uma vida,
Desejos náufragos das minhas fala que se quebra como a onda nebulosa
Para que pára-quedas se cair é só um movimento
continuamente onipresente?
Queda sem chão,
mas quando encontramos o chão nos damos conta que somos inesgotáveis
Em nossos atos de misturas de vidraças com vôo cheio de nuvens
Também somos pedaços de tudo que é infinito e finitamente eterno... "
João Leno Lima
"Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar. Medito no meu regresso. Possuo para sempre tudo o que perdi. E uma abelha pousa no azul do lírio, e no cardo que sobreviveu à geada. Penso em ti. Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto – aqui sentado, junto à janela fechada. Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez, e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria, e digo baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge."
Al Berto
in «Lunário»
"As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.
Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente."
Alberto Caeiro
"Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.
Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.
O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres."
Maria do Rosário Pedreira