Imagem: «The Crystal Ball» de JW Waterhouse
"Para ele tudo era Deus. Via os seus sinais na penumbra das igrejas, nos livros de poemas, no meu corpo, no seu amor por mim. Dizia que rezava por mim, o que me parecia belo e terrível ao mesmo rempo. Às vezes pensava nisso quando estava na cama, que alguém estava a rezar por mim naquele instante e isso metia-me medo, como se estivessem a entrar num campo demasiado íntimo, não se deve rezar pelos outros, não se tem esse direito, não nos devemos meter entre os outros e Deus. Mas eu não acredito em Deus."
Ana Teresa Pereira
in «As Rosas Mortas»
"Queres recuar sem resistir ao desejo. Paradoxo universal inerente à vida.
Vida, que não tentas sequer remediar com um simples sorriso.
O meu olhar perscruta o teu interior à procura de respostas, mas em vão . Se olhar para a tua alma é em vão, prefiro cegar de dor. Abro-te o meu coração e fecho os olhos, que a brisa me conduza até ti e eu consiga, como um fantasma, atravessar as tuas muralhas. Com os olhos fechados conseguirei atravessar o teu corpo, saboreando o fel que te percorre as veias. Seguidamente, um choro profundo, e adormeço sobre o teu gélido regaço. E congelo, sabendo que me percorre sangue ardente de paixão nas veias. E ferve, queimando por dentro e por fora.
Sangue? Veias? Era preciso viveres sete vidas e mais uma para teres o prazer de saber o que isso significa! Infeliz de ti que não vives! Infeliz de ti que não deixas viver!
Ou será Feliz? A ignorância não te deixa conhecer a dor que provocas e priva-te do sentimento de culpa, que é o maior castigo que podias receber. Quando souberes o que é descer ao fundo das entranhas do ser que te persegue, irás ser castigado devidamente por Aquele que finge que dorme, seguindo cada gesto teu! E quando te aperceberes do teu erro já será tarde de mais, pois enquanto percorres a profundidade do teu ser, eu entretenho-me a morrer.
No fundo tu sabes que és o culpado de todo este infeliz escrever, sabes que viverás sempre o peso do teu mau ser, sabes que um dia tu viverás na morte e eu ressuscitarei do inferno que me obrigaste a suportar só pelo prazer da tua amarga companhia. E viveremos os dois na morte olhando para o infinito da chama luzente."
Joan
Lânguida, a noite precipitou-se numa madrugada estridente. Só o mal apetece... ferir com malícia, magoar primorosamente. Que o ácido da entranha mais aguda queime a imundice deste "gostar estar".
Vânia Matias
Mórbida sensação expandida em alusões à não vida. Inércia infiltrada até às esquinas mais recortadas das entranhas desta minha existência. Poderia amar, materializar, realizar... mas a crueldade de tamanha apatia esfaqueia a carne com frieza, anseando imobilizar qualquer expressão de actividade.
E essa bomba continua a pulsá-lo, esse nectar em que tudo flui, num ritmo indiferente a tudo o mais, instintivamente apenas quer manter a vida... desvalorizando todo e qualquer anseio de expansão da minha essência... chega a ser sarcástico, maldoso: "eheh tu ficas, essa é tua casa, tua prisão... ainda não vais".
E assim fico.
Vânia Matias