"corro até o universo e arremesso-me na consciência infinita,
treme as asas entre colisões de mundos e ambientes
frios de silêncio,
foge as cordas vocais,
atira-se ao solo o sonho,
há uma pequena solidão nos murais da inconsciência,
resto de saliva de memórias,
o universo joga-se nas minhas mãos,
a dor é um timbre intimamente cintilante,
a memória corta sua orelha no meu fôlego,
finitude de ilusões desencontradas,
sangra Alberto caeeiro na ultima musica da tarde,
o chão dialoga com minhas lágrimas,
cosmológica visão em queda,
desfiladeiro de cartas em branco das almas,
ruas noturnas penduradas no pescoço,
fragmento de poça na dobra do mundo,
improváveis delírios cinzentos,
a poesia hoje tem gosto de deserto petrificado,
um piano desintegra minha alma,
as palavras gemem no absoluto,
políticos e desordeiros praticam orgias
na língua da criança,
há uma febre se apoiando na minha sombra,
meu amigo vomita
que sua poesia esta em desgraça
e abre uma cratera no meu suspiro,
a sublime brisa oceânica tem um hálito de horizonte,
carros passam levando a escavação do meu sonho,
na passagem Júlia Cordeiro eu desapareço todas as manhãs,
sua multiplicidade invisível me condena,
sua incógnita sensitiva dilacera meus calcanhares,
meus passos em coma se tatuam de madrugadas,
eu olho para o céu azul com camadas em preto e branco
das manhãs cotidianas
e sinto o afago transcendente do futuro
longe do litoral da minha própria retina,
o êxtase estar em correr sem nunca fugir,
a dose meteoritica tem substancias devoradoras,
eu tenho a chave que irá trancar o mundo para fora,
debato-me na luz solar como se fosse a espatifação
colidora do meu fim lentamente vertiginoso,
o caos me rouba um longo e imperceptível lagrimejar,
o que sufoca?
o que Álvaro de Campos diz sobre isso?
tudo calmo..mas é uma calma fria gélida solitária
e uma lágrima que tema em cair mas nunca vem
apenas se anuncia a todo o momento
como se músicas intermináveis fosse tocada para a alma
que só pensa em descansar de si mesma,
como será a última extremidade?
como será o último suspiro onisciente?
cada segundo é uma profundidade,
as horas são úteros de abismos
onde despenco e estico minha existência ate o fundo,
procuro pelo sublime num vento instantâneo da consciência,
cada procura por si só é uma fabricação de um universo,
com todas as suas paisagens e nuvens e diálogos onipresentes
fantasmas e seres se confundindo
tudo num súbito olhar interno eternamente renascido."
João Leno Lima
"Está de chuva. Sinto uma calma tão grande. Sinto que alguém chora as minhas lágrimas por mim, proporcionando-me um momento para descansar.
Oiço música, saboreio num café, até parece que a Vida vale a pena ser vivida só por estes momentos de solitude. O meu coração balança-se entre o cá e o lá, e outros olhos, que não os meus, vêem esta realidade abstracta. Será que é nesta realidade que todo o Mundo vive? E, se sim, porque é que não consigo alcança-la? Consigo, apenas, mira-la de longe, por vezes até tocar-lhe, mas não mais do que isso. Será porque os meus olhos continuamente se fecham, apreciando sempre mais a escuridão que os envolve?
Nesta escuridão não há corações magoados, nem pessoas feridas. Não acontecem coisas más porque, na verdade, nada acontece. É uma calma constante ou um medo permanente. É o não sentir, o não ver e o não querer acreditar. É o imaginário que me persegue e que eu persigo, incessantemente. É aquilo que eu insisto ser Verdade.
É o suave sabor amargo da Morte, que eu aprecio como mais um cigarro que me mata."
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"O tédio, a frustração, a ironia de pensar que não se pensa em mais nada, que tudo é vazio, que o ser não é ser, nem estar, nem esconder, nem morrer.
O sentido muda e já não reconheço as palavras que proferi num acto contínuo de desespero. Fujo de mim, sabendo que não me posso esconder num qualquer beco escuro da minha memória. Quero chorar e não consigo, as lágrimas não saiem, mordo o lábio, o sabor do sangue invade-me a boca. "As lágrimas têm o sabor do sangue" mas são invisíveis e incontroláveis. A minha face está molhada com lágrimas que ninguém vê, que ninguém pode consolar. Riu-me estéricamente para disfarçar a angústia, para que eu própria não possa encontrar essa angústia.
Não tenho sucesso, encontramo-nos, casualmente, numa rua cheia de gente, onde ninguém se conhece, onde ninguém troca um olhar, uma palavra amiga, uma inspiração...
Descubro, finalmente, que não me posso esconder de mim mesma. É doloroso o reencontro de dois seres que nunca se separaram, que nem sequer são dois, mas apenas um. E choro convulsivamente lágrimas de cera para sempre esculpidas na minha face."
Cláudia Medeiros
"Quero entrar nos teus olhos.
Quero ver por dentro e sentir a tua dor.
Sinto-me como que a navegar em alto mar por entre as lágrimas que te marejam esses olhos. Por favor, deixa-me chegar e sentir-te.
Não faças das lágrimas espelho nem te impeças de abrir a Alma através desses olhos.
Houve uma vez, abriste os olhos de repente, de susto, e, por um milésimo de segundo, eu vi tudo dentro de ti. Tudo!
E amei-te. Amei-te como te amo até hoje e até sempre, e enquanto aquela visão me perseguir.
Só eu posso saber o que senti quando abriste esses olhos. Foi o transporte para outra Terra, para dentro de ti. Nadei nas tuas lágrimas, visitei cada ferida do teu coração e vi (e reconheci em mim) todas as tuas dores. Vi em ti a minha coragem. Vi em ti a Vida da minha Alma. Vi em ti o fio condutor do meu Mundo, que me leva até onde devo estar e não me permite libertar-me de ti.
O brilho desses olhos é a estrela polar da minha Vida, que me indica por onde devo seguir e que, enquanto perdurar, mantém a minha Alma de pé.
Sim, sem dúvida, são esses olhos verdes que me guiam à floresta dos meus sonhos, de árvores altas de onde se apreciam paisagens inimagináveis, de rios e riachos luzentes ao Sol da tua alegria.
Sim, sem dúvida, era nesses olhos que eu queria voltar a entrar. Outra vez, uma única vez, para voltar a encher o meu coração de Vida e fazer entender à minha Alma que o seu caminho ainda não acabou."
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"Estou a escrever-te para te informar de que morri. E digo isto porque te vejo. Vejo-te a ti e a mim e a todos. O meu cérebro entrou em automático e a minha alma desligou-se do meu corpo. Cá em cima é tudo negro, não há nada para ver. Não queiras morrer porque é demasiado escuro. Ao mesmo tempo tens a vantagem de não sentir nada. A Alma dormente funde-se na escuridão e passa a fazer parte do nada. As vezes desprende-se e volta à terra, mas a dor é de tal maneira grande que ela parte-se em mil pedaços e volta à escuridao, onde se sente segura.
Assim sendo, informo-te de que morri e escusas de falar para mim pois não serei eu a responder-te mas sim o piloto automático, insensivel, do meu coração."
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