
Se ao menos soubesses o quanto eu vivi. Vivi muito sim! Vivi a luz, vivi as trevas, vivi o mundo como ele sempre foi... uma dualidade. Esgotei a alma de tanto viver, de tanto prazer e dor, alegria e tristeza. E tudo mais o que me era oferecido, eu aceitei sem pestenejar. Sem remorsos caí da vida... como o fruto apodrecido cai da árvore.. E agora que já nem sinto o passar dos dias, tudo o que me resta é a eternidade...
Conde
Pintura de: Paul Cézanne
"Acordei do meu sono de Morte.... E voltei a adormecer. Mas, desta vez,
em paz, pois a passagem entre a Vida e a Morte traz-nos uma serenidade
que poucas pessoas têm o prazer de sentir.
Paz... palavra que tão poucas vezes consigo pronunciar. No entanto,
quando sai da tua boca parece tão real, tão possível, que até acredito
que existe. Mas, visto que as tuas palavras não correspondem à
realidade, não posso senti-la. Porque até sentir é uma realidade pouco
credível, nunca se tem a certeza se que é real ou se não passa de uma
simples quimera criada pelas tuas tristes palavras.
Tristes e falsas.
Nada do que me dizes é verdade. Nem quando me dizes que me amas, ou
que não podes viver sem mim. De qualquer maneira, eu, na minha Morte,
não sinto o que tu dizes. Sinto apenas flutuações, seres animados que
o meu cérebro interpreta como irreais e falsificados. Produtos da
minha imaginação que gostam de me sacrificar pelos males que não
cometi.
No sonho em que entras pergunto-te porque é que as pequenas lágrimas
que choro te enchem o coração de alegria. Mas, afinal, é uma pergunta
sem nexo, pois tu sempre foste, e não deixarás de ser a criatura
transformada por mim que povoa os sonhos da minha Morte.
Mas mesmo nos mais negros sonhos da minha Morte imagino que sou mais
feliz do que cada vez que acordo e te vejo na tua serenidade constante
e artificial. Eu sei, sem qualquer tipo de dúvidas, que o teu ser não
me vai deixar morrer em paz, por mais viva que esteja, ou menos morta
que pareça. E assim, deixo-me cair, de novo, num sono profundo de dor
que me anstesia, por já não ter forças para enfrentar os teus olhos
marejados de lágrimas.
E adormeço em paz por saber que, nos meus sonhos, a Morte me faz
sentir a tua falta."
contact