janeiro 21, 2008

Fria Inalcansabilidade

"neva sobre a pulsação do mundo.
redemoinho de paranóias que gritam sem ar.
insolúvel soluço que vira nuvem,
ponte entra a minha consciência e a desordem,
fracasso ao encontrar a palavra perfeita,
qual será o melhor momento para iniciar um verso?
me chamam de dramático por
lagrimar sobre os colos do infinito e
sentir quando um olhar é mais dilacerante que
uma lança arremessada pelo acaso,
quero escrever os versos da minha alma
usado tua alma como inspiração
como eu poderia?
na tarde cheia de amarras eu corro contra o tempo
enquanto meus conhecidos lêem
seus próprios silêncios ao ar livre,
a dança da inexistência é a dança essencial do meu ser,
mesmo assim procuro escavar meus sonhos no
mais profundo âmago do mundo,
mesmo assim declamo poemas
que se dissolvem na boca dos outros,
mesmo assim lanço meu olhar para o horizonte
como se ele fosse entender minha angustia,
mesmo assim sou apenas o cometa que
atravessa o mundo indivisível
como um eco universal de poeta,
às vezes a paixão por existir
transforma meu coração no cérebro da minha alma,
às vezes eu aponto do dedo na minha cara
antes de entrar pela porta de vidro do meu trabalho e
dizer bom dia onde na verdade era para ser um grito ensurdecedor
que quebraria os vidros da manhã calma,
às vezes eu penso que não há nenhum lugar
para eu descansar meu silencio,
essa frieza de neve assola meus cinco sentidos
deixando eles se rastejarem pelos joelhos das horas,
onde será que está Deus? a não ser dentro de mim mesmo
para eu vomitá-lo assim como todo o lixo do meu corpo
assim me sentirei purificado de mim mesmo e
pronto para beber o vinho trêmulo
com meus amigos tridimensionalmente poetas,
ah essa manhã lembra uma
embarcação desconhecida num mar conhecido,
quase sempre quero afundar e afundo
quase nunca não deixo de me afogar
quase jamais fui tão irreal quanto essa embarcação,
quase por alguns instantes
não sofri do delírio simples das coisas simples,
do meu diálogo continuo com as invisibilidades cotidianas...
sempre nasce o inalcançável."

João Leno Lima

Publicado por Conde em 08:38 AM | Comentários (839) | TrackBack

janeiro 10, 2008

Sensações

"tem horas que os horizontes cessam
e só há a calma de uma dor solitária..
onde pequenos sonhos sangram na porta do absoluto,
e rostos de mãos dadas com os ventos do abismo
desencontram-se por um segundo jamais voltando a si,
a saliva desce áspera como uma lança
perfurando o coração descarilhado,
o olhar desce uma escada e sobe um precipício impossível
e descansa sobre o corpo cansado,
as vezes uma lágrima é tão previsível
quanto a chegada da noite
e o silencio da alma é tão ensurdecedor
quanto o silencio da madrugada solitária,
enquanto nasce uma criança no outro lado do mundo
eu concebo o tempo e especo em mim mesmo em um verso,
as vezes as palavras não encontram o ar e
desfiam sufocadas sem a chance de encontrar no outro a eternidade,
por um lado a ordem consciente dos sentidos
esconde um oceano cheio de tempestades profundas
que é a desordem subconsciente humana e
tudo isso esta apenas num suspiro de um feto desordeiro e caótico,
por outro lado as vezes um beijo é mais profundo
que o fundo do mar em longas noites de chuva e melancólico frio,
e porões e esgotos são mais íntimos
que a cama em quartos escuros e quentes,
e o abismo é não saber o que estar sentindo
por estar sentindo tudo ao mesmo tempo desenfreidamente,
onde um poema tem funções orgânicas
mais definidas que as funções de um homem
e o útero de uma poesia e o útero de uma mulher
se confundem em instantes inesquecíveis,
quando a manhã latejante deixa todos estáticos
menos tua própria respiração e movimentos,
e o som dos passos pesa mil toneladas de angustias,
e as pegadas afundam ate o profundo da terra
e os rastros pela calçada são rastros de chuvas cósmicas,
e a memória um impossível intransponível
apalpavelmente possível de sentir,
as vezes o impossível é mais visível que o possível
que esta ao lado alcansavelmente,
e desejos que apagam e acedem
como vaga lumes numa noite vazia que flutua arranhando
as janelas das casas de vidro do destino,
há gritos que nunca foram dados que são mais dilacerantes
que o veneno tomado por um suicida numa aurora aleatória,
há gritos que sobem mais altos que as nuvens
e vagam pela infinitude,
ha sussurros que são grandes labirintos que percorrem a si mesmo
procurando a porta que levará a um confim,
as vezes carrego vários mundos nas mãos
e os deixo cair em poças de mim mesmo no crepúsculo nebuloso
eles rolam e eu corro para alcançá-los
antes do precipício do acaso e tudo isso é um universo,
e quando carregos vários universo ao mesmo tempo
tropeço no infinito e eles desabam sobre minha alma
e tudo isso são intermináveis poesias
que se engolem umas as outras
nascendo e renascendo
em misturas cósmicas de sensações eternas."

João Leno Lima

Publicado por Conde em 12:01 AM | Comentários (108) | TrackBack

janeiro 02, 2008

15-04-2006

"Era uma noite escura e fria.
O luar era intenso. A lua brilhava tanto que a qualquer momento se podia transformar no Sol vivo e ardente.
Momentos passavam e cruzavam-se na sua mente. Momentos demasiado belos para serem esquecidos. Momentos demasiado belos para serem reais. Momentos que, reunidos às circunstancias, davam vida a um pesadelo interminável.
E, no entanto, lá estava ela sem os querer largar ou deixar partir.
Momentos esses que a levaram a outro Mundo, como que asas de um Anjo invisivel e inalcançavel. Levavam-na a outro plano que, apesar da sua contra-vontade, era paralelo ao seu e transparente.
Ela podia ver tudo o que tinha, tivera, perdera. Podia ver e sentir.
Nao podia jamais desligar-se.
Sofria pelos acontecimentos que passavam rente a si, em frente dos seus olhos e nunca poderia evitar. Chorava pelas pessoas que via e nao podia tocar, que chamava, pelas quais gritava e nunca reparariam nela.
Naquela noite a Lua consolava-a, até porque as nuvens ingratas escondiam as estrelas que ela tanto amava. Amava demais.
E por ter tanto amor ela nao merecia aquela noite.
E depois tudo acabou.
A noite passou e a chuva caiu por sobre a sua alma leve, agora.
Estava ela apenas deitada no telhado, a pensar na vida, a desperdiçar cigarros.
Entao sentiu...
Sentiu que....
Se ao menos pudesse escrever ao mesmo tempo que pensava..."

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Publicado por Conde em 05:20 PM | Comentários (183) | TrackBack