julho 26, 2005

Destinos Voláteis

As palavras são pedras que pavimentam o caminho, ao longe, o horizonte pinta uma tela lunar que ilumina esta noite em que passeio com destinos voláteis, que se perdem deles mesmos. Se eu fosse lua queria ter como espelho esta cidade, imortal como o tempo, solitária e melancólica. O meu reflexo nela seria tão simples como o sussurrar dos sinos longínquos. O meu reflexo seria... seria algo que nunca poderia ser reflectido por tamanha beleza, tamanha cumplicidade que escorre pelas suas fontes. Poderia ter toda a minha vida nesta cidade, neste templo... se soubesse o quanto já vivi...

Publicado por Conde em julho 26, 2005 12:42 AM
Comentários

muito bonito. A escrita do conde é simplesmente magnifica!

Afixado por: vampirella em julho 29, 2005 01:40 PM

Será Évora?? :P
[[]]

Afixado por: Dawn em julho 30, 2005 07:46 PM

simplesmente genial...
gostei muito do que li!!

Afixado por: osimachina em julho 30, 2005 07:54 PM

Último epitáfio

Talvez ela no seu mutismo não escondesse nada. É certo que se apaixonou por um poeta depois de este ter morrido, que o visitava no cemitério diariamente e levava dálias e zínias para ele, que lhe recitava Apollinaire, que por vezes até pernoitava na companhia de um gato junto da campa do seu amado,segundo as palavras do jardineiro, e pintava os lábios do negro mais negro antevendo prazeres descritos num livro .Talvez ela no seu mutismo não escondesse nada e fosse uma rapariga simples igual às outras raparigas introvertidas da aldeia com o olhar recortado e as sobrancelhas enfraquecidas pela tempo. Pouco se sabe do seu passado e o facto de permancer calada durante muito tempo a observar sozinha as depressões da paisagem,quando não trincava trigo maduro, fosse só uma maneira de esquecer o presente demasiado frívolo para quem consegue iludir o Tempo . Talvez ela no seu mutismo não escondesse nada e o enigma que crescia à sua volta fosse apenas uma diversão dos aldeões entediados com o calor forte dos dias e as noites minguadas sem o uivo dos lobos como sucedia. Talvez ela tivesse sido cantora noutra aldeia antes, ganho a atenção de muitos jovens dispostos aos mais incomuns sacrifícios de amor e hoje sofria na pele a rejeição da sua voz débil,de tom masculino fustigada pelos ventos áridos do Sul e procurasse com palavras seladas vingar o desgosto que não teve .Talvez...

Afixado por: Paulo Eduardo em agosto 1, 2005 12:19 AM

Rosas negras

Os meus avós eram tristes, a mãe era uma triste, o meu pai triste era, os meus três irmãos todos tristes também. Fiquei só eu a tomar conta da funerária. O número de clientes no último mês desceu a um ritmo assustador. Compreendo-os. Dantes a minha família era responsável por um atendimento professional. Tínhamos também um grande cão preto no estabelecimento que entretanto morreu de causas desconhecidas. Suspeito que se suicidou ao asfixiar-se na maçaneta da porta de entrada. O cão era uma companhia simpática para nós e para as pessoas que nos visitavam naquela altura da vida. Ninguém mais passou por cá desde então. Sem saber porquê herdei este negócio para o qual não fui talhado. Arruinei o nome da empresa e sinto-me culpado por isso. O que quis sempre ser era jardineiro. Quando era pequeno havia um roseiral perto de casa. De vez a vez costumava entreter-me com as rosas, tocava nelas, cheirava-as, falava-lhes e parecia que me entendiam. Quando me vinha embora de lá regressava comovido e chorava muito como uma criança que perde o brinquedo predilecto ou leva uma bofetada injustificada. Depois chegava a casa e diziam-me: ao menos se brincasses com machados cortavas-te apenas. Eu próprio vou deixar de ser cliente da minha funerária. Já marquei tudo com outra agência: data, preço, local de enterro. Só não sei ainda é como é que vou morrer.

Afixado por: Paulo Eduardo em agosto 1, 2005 12:20 AM

Isso não será de José Luís Peixoto?

Afixado por: Miguel Cristóvão em agosto 27, 2005 12:20 AM