agosto 06, 2005

Último epitáfio

"Talvez ela no seu mutismo não escondesse nada. É certo que se apaixonou por um poeta depois de este ter morrido, que o visitava no cemitério diariamente e levava dálias e zínias para ele, que lhe recitava Apollinaire, que por vezes até pernoitava na companhia de um gato junto da campa do seu amado,segundo as palavras do jardineiro, e pintava os lábios do negro mais negro antevendo prazeres descritos num livro .Talvez ela no seu mutismo não escondesse nada e fosse uma rapariga simples igual às outras raparigas introvertidas da aldeia com o olhar recortado e as sobrancelhas enfraquecidas pelo tempo. Pouco se sabe do seu passado e o facto de permancer calada durante muito tempo a observar sozinha as depressões da paisagem,quando não trincava trigo maduro, fosse só uma maneira de esquecer o presente demasiado frívolo para quem consegue iludir o Tempo . Talvez ela no seu mutismo não escondesse nada e o enigma que crescia à sua volta fosse apenas uma diversão dos aldeões entediados com o calor forte dos dias e as noites minguadas sem o uivo dos lobos como sucedia. Talvez ela tivesse sido cantora noutra aldeia antes, ganho a atenção de muitos jovens dispostos aos mais incomuns sacrifícios de amor e hoje sofria na pele a rejeição da sua voz débil,de tom masculino fustigada pelos ventos áridos do Sul e procurasse com palavras seladas vingar o desgosto que não teve .Talvez... "

Paulo Eduardo

Publicado por Conde em agosto 6, 2005 05:20 PM
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