"O médico disse:
- Grite para as árvores, é uma terapia anti-solidão.
Então ela foi ao jardim mais próximo exercer o aconselhamento. E quem estava no jardim ? O amado. No jardim estava o amado. Jerónimo viu-a de mãos trementes e suadas segurar a agenda litúrgica. Ele disse-lhe:
- Larga tudo e vem comigo. Vamos contar os corvos do jardim.
Ela seguiu-o espantada por este homem ter uma voz dócil e terna. Ela era uma gótica renegada, frágil e bela quanto um pássaro ( por exemplo melro ou cotovia ) pode ser.
Dantes a moça apanhava pedras nas ruas, martelava-as e colocava o pó circundante nas pupilas.Agora tudo era diferente. Tinha uma companhia valiosa, alguém a quem se entregar. Cumprimentaram no percurso o judeu imóvel nas bordas do recinto selvífico e sem saber porquê o aspecto oblativo mas pernicioso dele aumentou a insegurança da rapariga que comunicou a emoção em processo de transferência ao amado Jerónimo.
- Reparo na tua expressão um incómodo, uma dor quiçá, pressinto uma maceração interior. Serei eu ? Oh, não ! Não me abandones por favor, por favor!!
- Não, não és tu; é só uma pedrinha que tenho no sapato.
Então ela agachada, quedou-se perplexa, boquiaberta, encismando as maravilhas da meretriz natureza.
- Jerónimo, é a tua voz que está no sapato! Finalmente encontrámos.
- Não é possível, responde ele altivo, pois a minha voz é felina e Setembro não cabe num elefante.
- Tens razão.
- Em verdade te digo: Se o jardim da Estefânia tivesse javalis e uma cabine telefónica eu não era o ser humano que sou.
E nisto deram um beijo comprido como a altura da terra ao céu na bochecha e começou a chover muito, de tal forma que unicamente os habitantes de antanho se recordariam de semelhante fenómeno. O Doutor Marques no alto do terceiro andar da sua janela observou o destino destes dois amantes abraçando-se no resplandescente coreto, ponto de abrigo a dilúvios, e emocionado com a chuva cada vez mais intensa e profunda começou a escrever uma crónica sobre lobotomia. Ainda hoje ninguém conhece o seu conteúdo e há quem solicite resgatar a escuridão do seu quarto de maneira a que as letras no papel não se afundem. Lamentamos a pobre sorte das hematófogas."
Paulo Eduardo
Publicado por Conde em setembro 13, 2005 10:17 AMNão sabia de nada ? Quem ? Bem, não era nada que não se tivesse à espera…
Posso dizer-lhe que eu era a pessoa mais próxima nos tempos da primária. Tenho algumas lembranças dele. Nessa altura ele já lia os clássicos como quem come sugos. Ele era assim. Nem se importava de ir a guarda-redes. Como a nossa equipa tinha uma grande defesa era da maneira que podia continuar a ler enquanto jogávamos à bola. Era tímido também. Nunca teve sucesso com as raparigas e por isso masturbava-se frequentemente. Às vezes via-o a dar pão aos pombos no pátio da escola. É verdade, voltei a vê-lo. Uma vez fui parar a casa dele anos mais tarde quando trabalhei como carteiro e fiquei muito deprimido. Uma coincidência porque se enganaram na morada e a entrega que trazia era livros precisamente. Algumas paredes estavam rabiscadas até se antever o tijolo,percebe? Acha que estou a exagerar? Olhe que demorei de certeza mais de meia hora em encontrá-lo no meio daqueles livros todos que se transformaram numa espécie de fortaleza. Além disso não havia quase luz na casa. Havia um fedor a peixes mortos. Ele fechara as persianas todas e só se ouvia por vezes uma música muito baixa que falava das faluas do Tejo. Quase que me veio uma lágrima, aquilo era tudo muito triste, triste no sentido mais triste da palavra, não sei se está a ver? Está? Ainda bem. Sim, recordo-me bastante bem desse momento. Tenho-o gravado na memória como um relâmpago ou uma fotografia que por acaso não descobri na sua casa. Ele estava a murmurar com a cabeça encostada a uma janela. Quem sabe algumas ideias para um livro, ele sempre foi um observador, entende? nunca parou de ver, imaginar, pensar. Foi o destino, é tudo o que lhe tenho a dizer. O sonho dele era ser escritor e a solidão deixou de lhe fazer companhia. Ele estava só.
Título: Demasiado escuro
Afixado por: Paulo Eduardo em setembro 13, 2005 12:41 PMSó. Tão só. Nem a solidão lhe fazia companhia.
Gostei :)
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Afixado por: helena em outubro 3, 2005 03:17 PM