abril 10, 2006

Fuga...

"Fugia sem saber porquê… Algo despontara o seu instinto… O Medo! Sim, o Medo guiava os seus passos rumo a uma morte tão certa como a noite.
Um grito cortara a quietude nocturna, um grito feminino vindo não se sabe bem de onde, um grito aflitivo que lhe provocou um arrepio na espinha.
Nos poucos segundos em que o sangue parecia gelar-se nas veias, várias imagens passaram pela sua mente, desde as mais inocentes à mais terrível e cruel que, o seu instinto dizia ser a verdadeira e real… Durante as duas semanas anteriores uma desgraça abatera-se sobre a cidade, haviam aparecido brutalmente assassinadas várias raparigas de extrema beleza, sem que qualquer explicação tivesse sido encontrada para o fenómeno. Qualquer um que andasse sob a escuridão da noite tornava-se fonte de suspeitas. Oferecia-se até uma avolumada recompensa a quem entregasse quaisquer informações.
Luzes acenderam-se nas casas vizinhas, homens e mulheres, nos seus trajes nocturnos, abriam repentinamente as janelas esperando ser eles a recolherem informações que lhes rendessem algumas moedas junto das autoridades.
O sangue passou de gelado a líquido fervente nas suas veias! O pânico assolou a sua alma! Ele começou a correr a uma velocidade alucinante. Gritos seguiram-no velozmente, não os aflitivos gritos de uma donzela moribunda mas, verdadeiros gritos de guerra, violentos, clamando por sangue!
Quanto mais as suas pernas se esforçavam na fuga, mais próximos os gritos lhe soavam…
Um gélido e cerrado nevoeiro envolveu repentinamente os seus passos, os gritos emudeceram mas, o seu pânico levou-o numa fuga furtiva. Temendo pela sua vida ele fugia… Na vã tentativa de a preservar correu mais do que alguma vez correra… E mesmo quando deixou de sentir o chão húmido e viscoso sob os seus pés não abrandou, correndo eternamente para o fundo da ravina…"

Cláudia Medeiros

Publicado por Conde em abril 10, 2006 11:23 PM
Comentários

gostei deste texto. e do poema da natália.
era para escrever um texto com alguns pontos de contacto com o que a claudia medeiros escreveu.

Afixado por: Paulo Eduardo em abril 12, 2006 01:06 PM

Como é que só encontrei este blog agora? Uma bela iniciativa, para aqueles que, como eu, são devoradores de leitura 'gótica'.

(Já me andei a deliciar com Nietzsche e Poe :D)

*

Afixado por: Framboise em abril 15, 2006 01:34 AM

Convite
Eis que surge do breu, insignificante mariposa
Rasga com seu vôo a estática serenidade da noite
E você sem piedade rasga com tuas garras meu ego
 
Meu grito de dor já não mais assusta e nem traz piedade
Sinto-me liberto desse ódio, que fisga em meu peito
E caio em profundo disparo, rumo ao seu corpo
 
Que me arrasta pro escuro do mundo, sem mundo talvez
Prende-me a teus gritos de medo e de dor, me pede
E assim mesmo não me deixa opção
 
De escolha de morte, me afunda na infinda morada
E descarta meu vôo, pra no seu amargar
A escolha que um dia não fiz
 
Ronnie

Afixado por: Ronnie em abril 26, 2006 09:27 AM