"Tudo se resumira a um átomo invisível
espalhado no imaginário.
Como porção mágica enfiada nas goelas
subterrâneas dos passos silênciosos,
Um nevoeiro de palavras me cobre ate o pescoço.
Eu atinjo um estado de esquecimento
feito de ácidos dos deuses utópico,
O infinito me consome como um cigarro amargo.
Eu tento evitar que as folhas mortas
da minha alma atinjam o chão antes de mim.
Eu sou uma espatifação desacordada onde
os estilhaços percorrem os kilómetros.
Eu sou o trompete rouco vertiginosamente
num dia de chuva de Malis Davis.
Eu sou a bicicleta nebulosa de Murilo Mendes
indo ao supermercado na tarde de frio;
A formação dos números se confunde
com a formação dos meus ossos quebrados.
Minha boca se pendura numa nuvem
para ser levada pelo silêncio.
Eu sou o interior de todas as lágrimas
que percorrem os rostos.
Eu estou parado aqui e o tempo
esta ao meu lado como um estranho,
Ele toca no meu ombro tentando
me despertar com marteladas de segundos,
Há uma porta no fundo de cada segundo.
Há linhas imaginárias servindo de estradas
para o meu percurso.
Eu estou atrasado para o meu encontro
com Fernando Pessoa na praça cinza.
Crianças dormem no outro lado
da porta como vulcões flutuantes.
Elas me jogam petardos de desertos
e um frasco de água salivada de tristeza.
Eu vejo tua alma se partir ao meio
quando a noite soluça vagarosamente.
Eu sou o sangue escorrendo de um horizonte desolado.
Um fogo azul deixa em brasa
minhas asas entrecortadas de ausências petrificadas.
Onde me sinto inerte pelo menos uma vez a cada minuto
Eu começo a vomitar anjos destruidores
vindo das brechas das memórias.
Eles arrotam em mim mecanismo de zinco
com foices de chumbo atómico,
Carros de fogo roubando o luto tridimensional
do acto desacreditado da aurora.
Pedaços de gelo deslizando pelos umbigos
inclinados do abandono.
Eu sou o labirinto com inúmeras entradas e nenhuma saída.
Dezenas de chaves palavras tropeçando,
uivos cortando os cabelos ,
Estrondo de imobilidades ,
devaneio de sombras penduradas no caos.
Eu envidraço de encontro a mim mesmo.
eu sou aquele que encontra e não se encontra.
Eu me atiro em colisões meteóricas .
meu grito ensurdece a si mesmo insuportavelmente.
Eu sou o intervalo fantasmagórico das palavras ditas pelo silêncio."
João Leno Lima